Deita-o fora, disse ela. Encontrei o gato do vizinho debaixo de uma camada de geada, mas a dona não quis saber
Rita sempre teve um olhar desconfiado para o gato do lado. Não era avessa a gatos, longe disso, mas aquele bichano tigrado, de porte quase mítico, uma vez levou-lhe a paciência ao limite.
Isto é um sonho estranho sobre a importância de não perdermos a humanidade mesmo quando a lógica se dissolve como orvalho.
Naquele verão, o gato do vizinho, Bartolomeu, apoderou-se das hortas alheias como se fossem tronos de areia do mundo dos sonhos. Rita, no seu quintal minúsculo, apanhava-o com frequência escavando os canteiros com ar de arqueólogo lunático. Gritava, corria atrás dele; Bartolomeu fugia como sombra vaporosa entre malmequeres e couves. O seu refúgio era um chalezinho herdado da avó, com paredes de cal e janelas turvas, cravado num bairro adormecido da periferia de Coimbra.
Se entravas mais fundo pela rua, encontravas a aldeia antiga, recostada nos carvalhos. Bastava atravessar a estrada e meio passo já eras cidade outra vez. Rita apaixonara-se ali ainda miúda, adorava vir nas férias da escola, e mesmo depois da avó partir, fazia daquela morada um porto de fins-de-semana. Trazia amigas, acendiam o lume do velho forno, grelhavam sardinhas, apanhavam amoras selvagens, riam-se a perder de vista. Ao lado, nos matos pouco densos, em poucas voltas enchias um prato de cogumelos para o jantar. O ar era de cortina leve, a calma parecia inventada para si. A prima, Beatriz, filha do tio Álvaro, morava na outra ponta do monte, quase tão chegada como uma irmã. O rio, as couves, o tempo lento, tudo lhes servia de palco para as suas brincadeiras.
O seu pequeno reino consistia em parcas leiras de rabanetes e salsa, e um canteiro de cebolinhas. Era pouco, mas bastava. E foi a esse território que Bartolomeu se afeiçoou: uma terra de aventuras para desbravar a patas.
Rita dirigiu-se à dona do gato, a senhora Amélia. Escutou-a, mas só mereceu um esgar impaciente: O que queres que faça, menina? Não vou pôr guarda-costas ao gato! Atira-lhe com uma pedra, se te atreveres! dizia, rodando os olhos num tom de eterna resignação.
O seu desdém era simples de entender: Bartolomeu fora o gato do senhor Mário, seu marido já desaparecido há anos. Amélia confessava, de caras, não ter vocação para gatos: gostava era de cães. Mas a viúva herdou o felino, como parte dos tantiques da vida.
O Bartolomeu era livre, quase selvagem. Caçava ratos com destreza, e, diziam até, pescava nas poças do ribeiro. Em tempos acompanhara Mário ao rio, orgulhoso e leal. O que precisava era de um teto e lume aceso para atravessar as intempéries.
Quando o verão chegou em força, Rita encontrava-se em guerra aberta com ele. Tentou negociar: falava-lhe suavemente, punha-lhe nacos de fiambre, até lhe chamava nomes doces que inventava nos sonhos. Bartolomeu ignorava-a com aristocrática desconfiança, sempre mantendo uma distância surreal de segurança.
Às vezes Rita lançava-lhe jatos trémulos de água fria da mangueira, ou saía para a horta munida de apito, tocando o assobio como um árbitro de um jogo sem regras. Bartolomeu fugia saltando o muro, lançando-lhe olhares reprovadores e sumia nos fetos. Depois, Rita deslizava para o chão de terra, a rir sozinha do disparate.
Amélia contemplava todos estes duelos à distância, sempre sorrindo maliciosamente; sobretudo desde que a filha lhe deixara a cadelinha Fiama, uma micro-terriê chorosa. Tinha assim algo mais para vigiar e esquecer o gato.
Rita resolveu a questão das hortas de modo prático: descarregou três sacos de serradura num canto recôndito coberto de urtigas. Bartolomeu aceitou o presente e passou a executar ali as suas escavações. Rita respirou de alívio. Mas, pouco tempo depois, quase pôs em dúvida a sua sanidade: sempre sentia olhos a vigiá-la. Olhos que viam por entre as fissuras da cerca, dos telhados, das silvas. Numa noite, ao sair de casa, dois círculos luminosos miraram-na desde o nada. Deu um grito que pareceu percorrer todas as moradas do vale.
Convivia à distância com Bartolomeu, sempre esperando o inesperado como nos sonhos.
A rotina arrastou-se até ao outono. Rita regressou aos estudos em Coimbra, voltando ao refúgio apenas aos fins-de-semana.
Numa dessas manhãs geladas, saiu ao quintal e deparou-se com um montículo sob o alpendre, branco do orvalho. Era Bartolomeu. Estava imóvel, coberto de uma película de gelo, com bigodes transformados em agulhas de prata. Não se mexeu quando lhe tocou. Quando Rita lhe passou a mão, o gato abriu a boca para miar mas só silêncio, nem sequer um sopro de vida quente.
Pegou nele e levou-o para dentro. Tapou-o com a manta de lã, aquecendo-lhe as patas e a cabeça. Bartolomeu já não protestava nem sonhava em fugir. Estava sem forças. Depois de arranjar-lhe garrafas com água morna, Rita foi falar com Amélia.
A resposta arrepiou-a: Ele agora mora no anexo. Desde que veio a Fiama, ele virou-se a ela, marca território em todo o lado. No meu chão já não volta a entrar! No verão, Bartolomeu suportara o desterro, mas o inverno era cru para quem dormia num anexo de paredes nuas.
Rita só conseguiu ouvir, atónita: Ponho-lhe ração seca numa panela. Se tiver sede, que chupe o gelo! Não vai morrer de fome. Deita-o fora, que não me faz falta nenhuma.
Já em casa, percebeu o felino não batera à sua porta ao acaso. Bartolomeu precisava dela: buscava clemência onde antes fora desencontro.
Tentou perguntar aqui e ali, nas redondezas, se alguém queria um gato. Ninguém o quis. A prima Beatriz sugeriu colocá-lo no seu curral, ao pé da vaca e da porca lá ao menos havia palha e algum calor, mas dentro de casa não dava, pois já tinham os seus felinos residentes.
Enquanto pensava, Bartolomeu, agora desperto, caminhava silencioso pela sala e sentou-se a olhá-la de frente, olhos profundos. Rita suspirou, ligou à mãe. Sempre lhe dissera que animais não eram para o prédio, mas ao recordar-se do senhor Mário, homem bondoso que tantas vezes salvara a avó, enterneceu-se. Lembrou-se das sardinhadas, do gato leal em seu redor, e chorou por todos os bichos esquecidos e almas sonhadoras da aldeia.
A decisão apareceu como uma rua de nevoeiro. No dia seguinte, Rita comprou um caixote de plástico no mini-mercado, colocou Bartolomeu lá dentro e partiu de comboio para Coimbra.
Assim, de repente e sem muita explicação, começava outra vida para aquele gato sonolento, como acontece nos sonhos em que tudo muda de um momento para o outro, sem fazer sentido mas com um certo calor no coração.







