De Novo Para Ela: O Drama de Marina Entre o Amor e a Filha de Dmitri – Uma Noite de Decisões e a Esc…

De novo para ela

Vais outra vez ter com ela?

Inês fez a pergunta, já sabendo a resposta. Miguel assentiu com a cabeça, sem levantar os olhos. Puxou o casaco, confirmou os bolsos chaves, telemóvel, carteira. Tudo no sítio. Podia sair.

Inês ficou à espera. Uma palavra. Pelo menos um desculpa ou volto já. Mas Miguel só abriu a porta e saiu. A fechadura fez pouco barulho, como se pedisse desculpa pelo dono.

Inês aproximou-se da janela. Lá em baixo, os candeeiros lançavam uma luz esbatida, e ela identificou logo a silhueta conhecida. Miguel caminhava depressa, determinado. Como quem sabe exatamente onde tem de ir. A ela. À Joana. À Leonor, a filha deles, sete anos de idade.

Inês encostou a testa ao vidro frio.

…Ela sabia, desde o início sabia ao que ia. Quando se conheceram, Miguel ainda era casado. No papel, pelo menos. Uns carimbos no cartão de cidadão, uma casa a meias, uma filha. Mas já não vivia com a Joana alugava um quarto, ia lá só pela filha.

Ela traiu-me, contou Miguel. Eu não consegui perdoar. Pedi o divórcio.

E Inês acreditou. Deus, como acreditou sem hesitar. Porque quis acreditar. Porque se apaixonou da forma mais estúpida e desesperada, como se tivesse dezassete anos. Encontros em cafés, conversas infindáveis ao telefone, o primeiro beijo à chuva na porta dela. Miguel olhava para ela como se fosse a única mulher no mundo.

O divórcio. O casamento deles. A casa nova, planos, sonhos e conversas sobre o futuro.
E depois tudo começou.

Primeiro, foram as chamadas. Miguel, traz remédio para a Leonor, por favor, ela está doente. Miguel, a torneira está a pingar, não faço ideia do que fazer. Miguel, a Leonor está a chorar, quer ver-te, vem já!

Miguel largava tudo e ia. Sempre.

Inês tentou compreender. Uma filha é sagrada. A criança não tem culpa da separação dos pais. É claro que ele devia estar presente, ajudar, participar.
Por vezes, Miguel dava ouvidos, tentava traçar limites com a ex-mulher.
Mas Joana mudava de estratégia.

Não venhas ao fim de semana. A Leonor não te quer ver.
Não telefones, só a deixas triste.
Ela perguntou por que é que o pai a abandonou. Eu não soube o que dizer.
E Miguel cedia. Sempre. Sempre que tentava recusar qualquer emergência, Joana atingia-o onde doía. E em poucos dias, Leonor repetia as mesmas frases da mãe: Tu não gostas de nós. Escolheste outra senhora. Eu não te quero ver.

Uma criança de sete anos não inventa isto sozinha.

Miguel voltava desses encontros destruído, com olhar apagado, pesado de culpa. E de novo corria para Joana ao primeiro pedido tudo para não perder a filha, para não ver aqueles olhares frios que não reconhecia.
Inês entendia. Sabia mesmo.

Mas estava cansada.

A figura de Miguel desapareceu junto ao prédio. Inês afastou-se da janela, esfregou a testa ficou uma marca avermelhada do vidro.
A casa vazia pesava.

Já eram quase meia-noite quando ouviu a chave rodar no canhão da porta.
Inês estava na cozinha, à frente de uma chávena de chá já fria. Nem tocara na bebida só via a película escura a alastrar-se por cima. Três horas. Três horas em espera, a ouvir cada ruído na escada.

Miguel entrou devagar, tirou o casaco, pendurou-o no cabide. Movia-se cauteloso, como quem quer passar invisível.

O que foi desta vez?

Inês até se admirou da tranquilidade da voz. Repetira aquela pergunta mentalmente durante três horas, e à meia-noite, sentia-se vazia, sem emoções.

Miguel demorou um instante.

O esquentador avariou. Tive de o arranjar.

Inês levantou os olhos lentamente. Ele estava à porta da cozinha, hesitante, sem coragem de entrar. Olhava para o vidro escuro atrás dela.

Tu não sabes arranjar esquentadores.
Chamei um técnico.
E tinhas de esperar lá? Inês empurrou a chávena. Não podias chamar daqui? Por telefone?

Miguel franziu o sobrolho, cruzou os braços. Silêncio prolongado: pesado e desagradável.

Ainda gostas dela?

Agora olhou-lhe nos olhos. De repente, de forma dura, magoada.

Essa ideia não tem lógica nenhuma! Eu faço tudo pela Leonor. Pela minha filha! Qual é o papel da Joana nisso?

Deu dois passos na cozinha, e Inês recuou com o banco.

Sabias desde o início que eu tinha de ir lá. Sabias que tenho uma filha. E agora? Vais armar uma cena de cada vez que lá vou?

A garganta apertou. Inês queria responder com firmeza, mas os olhos arderam e a primeira lágrima desceu pela cara.

Pensei… engasgou-se, engoliu em seco. Pensei que, pelo menos, fingias amar-me. Nem que fosse só isso.
Inês, por favor…
Estou farta! a voz errou para um grito, e até ela se assustou com o som. Farta de ser nem segunda opção! Sou a terceira! Atrás da tua ex-mulher, dos caprichos dela, dos esquentadores partidos às horas absurdas!

Miguel bateu na ombreira da porta com a palma da mão.

O que é que queres de mim?! Que abandone a minha filha? Que não lhe apareça perto?!
Quero que escolhas por mim, só uma vez! Inês levantou-se, a chávena balançou, o chá caiu na mesa. Só uma vez digas não! Não a mim a ela! À Joana!
Estou farto das tuas birras!

Miguel virou-se, agarrou o casaco do cabide.

Vais para onde?

A resposta foi o estrondo da porta a fechar.

Inês ficou no meio da cozinha, o chá a pingar na mesa para o chão, e um zumbido nos ouvidos. Pegou no telemóvel, marcou o número dele. Toque, segundo toque, terceiro. O cliente não está disponível.

Mais uma vez. E outra.

Silêncio.

Inês sentou-se devagar na cadeira, apertou o telemóvel contra o peito. Para onde foi ele? Para a Joana? De novo para ela? Ou apenas vagueava pelas ruas, zangado e magoado?
Não sabia. E esse desconhecimento só fazia doer mais.

A noite parecia não ter fim.

Inês ficou sentada na cama, com o telemóvel o ecrã apagava, acendia, apagava. Ligar, ouvir o tom, desligar. Enviar mensagem: Onde estás? Depois outra: Responde, por favor. E mais uma: Tenho medo. Enviar e ver a solitária marca cinzenta. Não entregue. Ou entregue, mas não lida. No fundo, qual era realmente a diferença?

Às quatro da manhã, Inês já não chorava. As lágrimas secaram por dentro, e ficou só um vazio agudo. Levantou-se, acendeu a luz do quarto e abriu o roupeiro.

Chega.

Já chega.

O malão apareceu no topo do armário, coberto de pó e ainda com uma etiqueta antiga de viagens. Inês lançou-o sobre a cama e começou a arrumar roupas. Camisolas, calças, roupa íntima. Sem escolher, sem dobrar só enfiava tudo lá dentro. Se ele não se importa ela também não. Que regresse à casa vazia, que procure, que ligue, que envie mensagens que ela nunca irá ler.

Que perceba o que é sentir isso.

Às seis da manhã, Inês estava no hall da entrada. Duas malas, mala a tiracolo, o casaco mal fechado um lado mais comprido que o outro. Olhou para o molho de chaves. Tinha de tirar a dela e deixar em cima do móvel.

Os dedos não obedeciam.

Inês puxava o aro, tentava com a unha, mas a chave não saía e as mãos tremiam, e os olhos já voltavam ao ardor, embora não soubesse de onde vinham mais lágrimas…

Que raio!

O molho caiu em cheio no chão de mosaico. Inês olhou para ele um momento, outro depois desabou em cima da mala, abraçou-se e chorou. Com soluços, respirações descontroladas, igual à infância quando partiu o vaso favorito da mãe e pensava que o mundo tinha acabado.

Não ouviu quando a porta se abriu.

Inês…

Miguel ajoelhou-se à frente dela, sobre o azulejo frio.

Cheirava a fumo e a cidade nocturna.

Inês, desculpa. Desculpa, por favor.

Ela levantou o rosto. Estava inchado, molhado, a maquilhagem dispersa em manchas escuras. Miguel pegou-lhe nas mãos com cuidado.

Estive em casa da minha mãe. Toda a noite. Ela deu-me o sermão do século forçou um sorriso torto. Pôs-me na linha, digamos assim.

Inês ficou em silêncio. Olhava para ele sem saber se acreditava ou não.

Vou processar a Joana. Exigir horário oficial de visitas à Leonor. Pela justiça, como é devido. Ela já não vai não vai poder manipular mais, virar a minha filha contra mim.

As mãos dele apertaram ainda mais as de Inês.

Escolho-te a ti, Inês. Percebes? Tu. És a minha família.

Qualquer coisa mexeu dentro do peito dela. Um broto de esperança, pequeno, teimoso, que a noite toda tentou arrancar.

A sério?
A sério.

Inês fechou os olhos. Ia acreditar em Miguel. Pela última vez. Depois, o destino que decidisse.

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