De férias na aldeia, trouxemos connosco de Lisboa o nosso gato Simão. Na aldeia vive o seu irmão de sangue, Lémur, famoso pelos olhos arregalados de quem sempre está atento – daí o nome.

Levámos connosco para passar férias na aldeia o nosso gato urbano, Gaspar. Lá na aldeia, vive o irmão dele, Bartolomeu. O Bartolomeu tem uns olhos tão esbugalhados que parecia que iam saltar-lhe da cara, daí o nome aqui na aldeia não se perdem em cerimónias nem eufemismos.

Ao princípio, o Gaspar não teve vida nada fácil, coitado. O Bartolomeu, apesar do tamanho de amostra grátis, tratou logo de mostrar quem manda: afastava o irmão dos petiscos e ainda bufava de tal maneira que fazia lembrar aquelas tias nos debates acalorados lá nos programas da SIC.

A certa altura, o Bartolomeu cometeu o erro clássico do tuga convencido: achou que era imortal e atacou o Gaspar às claras. O Gaspar, digno como um conde do Alentejo, abanava-lhe a pata na maior, tipo leque, no ai, poupe-me de dramas, até que, por acidente, acertou-lhe um valente soco de direita; ainda tivemos de ir buscar o Bartolomeu de dentro do caixote do lixo.

E assim, de forma totalmente aleatória e desajeitada como tudo na vida dele o Gaspar virou o chefe supremo da cadeia alimentar da aldeia.

Na terra, os gatos têm estatuto de utensílio agrícola: só não mandaram o Gaspar para o campo porque era inverno. A comida, por sua vez, é um assunto de inspiração artística e com agenda própria. O Gaspar penou para se habituar; tinha vindo do Porto, onde a comida vinha em pratinho de prata à hora certa, servida pelo mordomo de serviço.

Com o stress, o instinto animal regressou-lhe em força. Não era raro apanhá-lo de madrugada em cima do fogão, de cara enfiada dentro da panela. O Bartolomeu, fiel escudeiro de sentinela à cadeira ao lado, bufava aflitivamente a avisar o irmão do perigo: Cuidado, vem aí o patrão! O Gaspar, sem grandes dramas, olhava para mim e miava ao irmão: Este relaxa, é dos nossos; se tu soubesses o que eu já vi este fazer ao frigorífico às duas da manhã…

Um dia achámos por bem que o Gaspar já estava preparado e levámo-lo para o pátio, plantámo-lo na neve. Quando se virou para nós, o focinho dele estava completamente branco, e o olhar, meu Deus, parecia o Al Pacino em O Padrinho, naquela tristeza de vida mal vivida. Nunca mais voltou ao exterior.

Numa dessas noites frias, os amigos cá do sítio vieram visitar o Lourenço, o nosso filho. Instalámo-nos todos na sala, e eu lia-lhes alto O Fantasma de Canterville. Precisamente na parte em que a madrasta se transforma numa gata preta e arranha o soalho, eis que a porta range de forma dramática e, feito pavão vaidoso, entra o Bartolomeu.

Malditos sejam os ensinamentos do Gaspar, que lhe ensinou a abrir portas como se fosse um engenheiro de Santa Apolónia.

A sala era um micro-ondas, mas lá conseguimos dispersar-nos como sardinhas despejadas do arrastão. Um dos miúdos acabou por ficar preso na janela; foi salvo de cair para a rua pela avó, que felizmente lhe dava bom prato à mesa.

Sim, talvez esteja na altura de avisar: o Bartolomeu é, do focinho ao rabo, de um preto absoluto e impenetrável.

Admitam, não é todos os dias que a literatura clássica manda assim um susto genuíno à malta mais nova em Portugal.

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De férias na aldeia, trouxemos connosco de Lisboa o nosso gato Simão. Na aldeia vive o seu irmão de sangue, Lémur, famoso pelos olhos arregalados de quem sempre está atento – daí o nome.