Inês chegou a casa três dias antes do combinado, carregada de mimos que os pais tinham preparado. Queria fazer uma surpresa ao marido, mas o Rui, em vez de a receber com carinho, mandou-a logo ao supermercado. As consequências foram inesperadas.
A mala pesava tanto no ombro que Inês deixou escapar um gemido. As costas doíam-lhe nas últimas semanas era uma dor constante. Largou os sacos, tentando pousá-los suavemente no passeio desigual da paragem.
Respirou fundo. Lá dentro, o bebé mexeu-se incomodado. Estava no sexto mês de gravidez, não era brincadeira. Ainda por cima, resolver regressar do Porto a Lisboa assim, antes do tempo, só para fazer uma surpresa ao Rui. Tinha tantas saudades que, no autocarro, quase conseguia contar cada poste que via.
O que estará o Rui a fazer agora? Aposto que nem imagina que já estou aqui faltam dez minutos a pé para casa. O caminho parecia não mais acabar. Os sacos, cheios de compotas caseiras, chouriço de porco preto, e maçãs pesadas, pareciam uma tonelada.
Fez cinquenta metros e percebeu que não aguentava mais. As costas não iriam resistir.
Pegou no telemóvel e ligou ao marido.
Rui, olá… murmurou ela, quando ele finalmente atendeu.
Inês? O que se passa? Está tudo bem? respondeu ele, aflito.
Está, está. Já cheguei! Estou na paragem em frente. Podes vir ajudar-me, por favor? Os sacos são insuportáveis, a mãe carregou-me de coisas…
Do outro lado, silêncio. Inês olhou para o ecrã, não fosse a chamada ter caído.
Estás na paragem?! Agora?! Mas porque não avisaste? Não combinámos que vinhas só na quinta?
Queria fazer-te uma surpresa resmungou. Não gostaste? Estou exausta, Rui. Vem cá…
Espera! interrompeu ele, quase a gritar. Não subas. Ou melhor, sobe mas… Inês, olha, em casa não há nada, nem uma sopa. Ontem acabei o que restava. Faz assim: passa ali pelo Pingo Doce, aquele na esquina, e traz carne, de vaca, boa. Hoje não fui trabalhar, tirei o dia só para ti, quero preparar um almoço decente e receber-te como mereces.
Carne, Rui? repetiu Inês, sem acreditar. Ouviste-me? Estou grávida, no sexto mês, parada com dois sacos gigantes! Tenho dores nas costas! Lá em casa temos batatas e ovos. Só me apetece comer e deitar-me. Vem ajudar-me…
Não percebes, amor, quero que tudo esteja perfeito cortou ele, acelerando o discurso. O supermercado é já ali ao lado, compras carne, traz batatas frescas as nossas estão murchas. Pede ajuda se for preciso para carregar, ou vai levando aos poucos… é por nós, vá lá! Eu trato do resto!
Inês olhou para as mãos vermelhas e sentiu uma onda amarga subir pelo peito.
Estás a ouvir-te? a voz falhava-lhe. Quer dizer, pedes-me, neste estado, para ir comprar carne… porque te apeteceu almoço especial? Não podias tu ir ao supermercado?
Já comecei… a preparar as coisas! Se sair agora, estrago tudo. Anda lá, Inês, faz isso por mim. Traz 800 gramas de carne, e um saquinho de batatas. Por favor, despacha-te!
Desligou. Inês ficou a olhar para o ecrã negro. Não conseguia acreditar. Deu-lhe vontade de chorar mesmo ali, na paragem fria e vazia. Em vez de abraços e descanso ir ao talho. “Se calhar ele está a preparar algo extraordinário”, pensou. Suspirou, pegou nos sacos e mancou até ao supermercado.
Empurrava o carrinho entre os corredores, sentindo o olhar piedoso da funcionária do turno da noite.
A carne era pesada, as batatas quase impossíveis de carregar. Quando saiu do supermercado, já não sentia as mãos os dedos estavam rígidos como ganchos de ferro.
O telemóvel voltou a tocar.
Já compraste? perguntou o Rui, todo animado.
Já. Estou à porta do prédio. Vai abrindo.
Espera aí! Não subas! Senta-te aí na bancada. Dez minutinhos e venho já.
Estás maluco, Rui?! gritou ela, nem se importando com quem passava. Que dez minutos? Estou de rastos, as pernas inchadas, não me aguento!
O teu presente ainda não está pronto! atirou ele. Se subires agora, estragas tudo. Senta-te, descansa, respira cinco minutos, juro! Agora vou desligar, ainda não acabei.
Lentamente, deixou-se cair no banco junto à entrada. Os sacos caíram com estrondo. Apeteceu-lhe atirar aquele saco da carne pela janela do terceiro andar.
Passaram dez minutos. Depois, vinte. Sentada, o sangue fervia-lhe nas veias. Imaginava o que seria a surpresa flores por toda a casa? Pequeno-almoço à luz de velas? Um violinista escondido na sala? Nada valia o frio e o cansaço daquele regresso.
Ao fim de trinta e cinco minutos, ouviram-se passos a correr escada abaixo. Rui apareceu, despenteado, t-shirt do avesso, com gotas de suor na testa.
Ainda aqui estás! sorriu forçado, agarrando depressa os sacos. Estás zangada? Olha que manhã linda… Vá, despacha-te.
Porque é que vens todo suado? Inês levantou-se com dificuldade, segurando-se ao corrimão. E cheiras a lixívia
Vais perceber! e desatou a correr de excitação.
Quando subiram, Rui abriu a porta como se esperasse aplausos. Inês entrou no hall, sentindo o cheiro intenso a lixívia e a ambientador barato com odor a Brisa do Mar.
Circulou por toda a casa: sala, cozinha, casa de banho. O apartamento estava limpo, quase vazio. As roupas desaparecidas, o tapete aspirado ainda molhado em partes o pó das prateleiras limpo. As suas estatuetas alinhadas num canto.
Então? Rui sorria de orelha a orelha. Gostaste? Surpresa!
Inês virou-se devagar.
Só isto? murmurou.
Só isto? indignou-se ele, sentando-se. Inês! Andei aqui três horas a esfregar tudo! Lavei o chão, até debaixo do sofá! O lava-loiça brilha, a sanita também. Quis mesmo que chegasses e não tivesses de fazer nada, por isso mandei-te ao supermercado para ter tempo de acabar.
Sentiu um nó na garganta.
Então porque fizeste isto? Mandaste-me ao supermercado, grávida, cansada, cheia de sacos só porque quiseste lavar o chão?
Eu só queria que tivesses orgulho! bateu com as palmas nas coxas. Estava aflito para te surpreender! Tu queixas-te sempre que nunca faço nada em casa. Pronto, tirei-te do caminho para conseguir acabar. Em vez de agradeces, parece que te roubei algo.
Rui, estás bem da cabeça?! perdeu o controlo, a voz quebrada pelo cansaço. Não quero limpezas! Preciso que cuides de mim, que me recebas, me leves pela mão, não que me faças ir de sacos ao supermercado!
Corou de raiva, largou o pano na banca.
Pronto, já começa! gritou também. Nunca está nada bem para ti! Estive aqui desde as cinco da manhã, a pensar no que te podia agradar! E tu chegas e só sabes reclamar! Ao menos olha para isto nem no nosso casamento estava tão limpo!
Para quê, Rui? Para quê essa limpeza toda? soluçava de indignação. Deixaste-me ao frio quase quarenta minutos! Fui fazer compras carregada! Isto não é surpresa, é crueldade.
Crueldade?! andava às voltas na cozinha, a gesticular. Desculpa por não ser perfeito! Outra apreciava homem assim, que limpa, que prepara jantar. O teu problema é só pensares em ti! Ai, as dores, ai, a gravidez Eu também estou cansado! Não dormi a noite toda, só a pensar como te agradar.
Ela tapou a cara.
Tu não percebes… trocaste o meu bem-estar por um chão lavado.
Não tem nada a ver! gritou novamente. Tu é que vieste mais cedo! Planeei isto para quinta. Era tudo perfeito, até tu estragares tudo com a tua surpresa Ainda me pões a culpa és mesmo ingrata, Inês.
Saiu e bateu a porta do quarto.
O bebé deu-lhe um pontapé na barriga. Inês afundou-se numa cadeira, olhando para aquele saco de carne que Rui nem colocou no frigorífico. Sentia-se mal, o enjoo começava a voltar.
Dez minutos depois, Rui espreitou.
Então, faço a carne ou já nem queres jantar, para me castigares?
Não faças nada, Rui, respondeu Inês, sem olhar para ele. Quero é dormir.
Muito bem! rebateu ele, batendo outra vez a porta.
Inês arrastou-se até à casa de banho. Olhou-se no espelho: pálida, olheiras fundas, despenteada.
E lembrou os cem quilómetros de autocarro, imaginando o abraço do Rui: Graças a Deus, já cá estás. Abraço que nunca chegou. No regresso à cozinha, voltaram as discussões, mais acusações.
Acabou por sair de casa, ainda com a roupa da viagem. Voltou para casa dos pais.
Todos tentaram demovê-la do divórcio: sogros, cunhada, primos distantes. Rui ligava, prometia que tinha mudado, pedia-lhe que voltasse. Mas Inês decidira: não precisava de um marido que priorizava o chão lavado à saúde dela e do filho.
Para quê conservar um casamento onde o maior valor é o cheiro a lixívia?







