Inês chegou a casa mais cedo, carregada de iguarias e mimos da mãe. Queria surpreender o marido, mas, em vez de a receber de braços abertos, o Miguel despachou-a logo para o supermercado. O resultado foi, digamos, memorável.
A mala era tão pesada que o ombro começou a soluçar antes dela e isso que o seu companheiro dos últimos dois meses era a dor constante nas costas. Inês pousou cuidadosamente os sacos na calçada esburacada da paragem, a sentir-se num filme triste qualquer. Suspirou fundo. No sexto mês de gravidez, há melhor do que carregar três sacos de conservas, marmelada, morcela da mãe e maçãs que pareciam ter vindo de Piódão? Ai, a surpresa Tinha tantas saudades que passou a última hora do autocarro a contar postes de iluminação até ao Chiado.
O que estará o Miguel a fazer agora?, pensou, quase a sorrir. Apostava que nem suspeitava que ela estava só a dez minutos a pé de casa. As malas pesavam o dobro do que a mãe dizia típico, leva, que o Miguel gosta! e a caminhada parecia mais longa que as novelas da SIC.
Ao fim de uns cinquenta metros, perceber que não ia conseguir. As costas esbravejavam, já a prenunciar o drama.
Tirou o telemóvel e marcou o marido.
Miguelito, estou eu, sussurrou, já a torcer-se na paragem.
Inês?! O que foi, estás bem? praticamente entrou em pânico do outro lado.
Está tudo bem, homem. Só vim mais cedo! Estou na paragem mesmo à frente do prédio. Sai, anda cá ajudar-me, por amor de Deus. A minha mãe carregou-me de coisas que só visto
O silêncio na linha foi, no mínimo, constrangedor. Inês olhou de lado para o telemóvel, não fosse a chamada ter ido desta para melhor.
Estás mesmo à porta? Agora!? Mas eras só na quinta já estava ele a subir o tom, qual apresentador de concursos.
Queria fazer-te uma surpresa, ora então! Achavas que não tinha saudades? Estou de rastos! Anda daí, pá!
Espera, espera! interrompeu ele, já meio esganiçado. Não subas! Ou melhor, sobe, mas ouve lá, a casa está com um vazio alimentar digno de filme pós-apocalíptico. Ontem acabei tudo. Faz assim: dá um saltinho ao Pingo Doce ali ao lado, compras carne, boa vitela. Hoje tirei o dia, nem fui trabalhar. Quero fazer-te um almoço a sério, receber-te como mereces.
Carne? Miguel, estás a ouvir-me? Estou grávida, sexto mês, cheia de malas. A minha coluna parece o Viaduto Duarte Pacheco antes das obras. A casa tem batatas e ovos. Só queria mesmo era chegar, sentar e papar qualquer coisa quente.
Inês, devias ouvir: quero que esteja perfeito. É já ali, dois minutos! Compra a carne, vê se apanhas umas batatas frescas, porque as nossas estão um horror. Se precisares pede a alguém para ajudar, ou então vais levando pouco a pouco. Faz-me esse favor. É tudo para nós! Eu trato do resto aqui!
Inês olhou para as mãos avermelhadas e sentiu aquela onda amarga a subir pelo peito.
Miguel, tu bateste com a cabeça? Estás-me a mandar, neste estado e carregada, ir ao supermercado comprar carne só porque te apeteceu fazer o almoço?!
Nem consegues descer tu para ir buscar?
Eu já comecei a preparar as coisas! Se sair agora estrago tudo. Inês, fá-lo por mim. Compra aí uns 800 gramas. E um saquito de batatas, pequenino! Vá, estou à tua espera!
E pronto, desligou. Inês ficou uns segundos a olhar o telemóvel, entre o estupefacto e o frustrado. Vontade de chorar? Isso era pouco. Ao invés de abraços, um tour épico pela secção de talhos. Se calhar está mesmo a preparar-me algo de surpreendente, pensou, agarrando de novo nos sacos e rumo ao supermercado, cambaleando.
No supermercado, empurrava o carrinho como um carro de bois, com a funcionária a olhar de lado, num misto de pena e tédio. A carne pesava, mas o saco das batatas era absurdo parecia importado, cheio de pedras. Quando saiu de lá, parecia que os braços iam cair. Os dedos já nem mexiam.
O telemóvel tocou outra vez.
Já compraste? quis saber o Miguel logo.
Já comprei, já rangeu Inês entre dentes. Estou à porta. Desce.
Espera! Não subas já! Senta-te ali um bocadinho no banco. Dez minutos, prometo!
Estás a gozar comigo, só pode! já gritava, pouco se importando com os olhares dos vizinhos. Miguel, são dez minutos de quê? Tenho as pernas todas inchadas!
Surpresa não está pronta! insistia ele, sem noção. Se entras agora estragas tudo. Senta-te, apanha ar. Cinco minutinhos, prometo. Juro! Tenho mesmo que desligar!
Sentou-se pesadamente no banco à entrada do prédio. As sacolas caíram com estrondo. Se pudesse, atirava o saco da carne à janela do terceiro andar uma emoção!
Dez minutos passaram. Mais vinte. Inês começou a ferver, só de pensar que a entrada triunfal dela ia ser uma festa de flores, peqeueno-almoço à luz de velas, talvez um violinista encostado à esquina da sala Ou então não, claro. Nada justificava deixá-la ali plantada depois daquela viagem.
Ao fim de meia hora, Miguel irrompeu pelas escadas, de camisola do avesso, testa vermelha de suor, cabelo como se tivesse discutido com o secador e perdido.
És tão resmungona! ainda tentou sorrir, puxando os sacos. Está sol, faz bem apanhar ar! Pronto, anda lá para cima!
E estás todo molhado porquê? E este cheiro a lixívia?
Vais ver! respondeu, já a subir animado para o elevador.
Entraram no apartamento e Miguel abriu a porta com pompa de aristocrata. Inês, ainda meio dormente, sentiu o cheiro a lixívia misturada com ambientador de brisa marítima daqueles a 99 cêntimos.
Passou pela sala, espreitou a cozinha, até à casa de banho. A casa estava limpa. Estranhamente vazia. As coisas que normalmente andavam nos sítios errados estavam desaparecidas. O tapete, passado a fundo com o aspirador ainda se viam as marcas meio húmidas. Pó? Nem vê-lo. As estátuas todas encostadas num canto, pobres.
Então? Miguel parecia um miúdo à espera de pontos por bom comportamento. Que tal? Surpresa!
Inês ficou a olhar para ele.
É só isto? perguntou, baixinho.
Como assim só isto?! até parecia indignado. Inês, estive aqui três horas! Lavei o chão inteiro, até debaixo do sofá! Lavei a loiça toda, olha o autoclismo, brilha como novo. Queria que chegasses e sentisses logo a diferença, que não tivesses nada para fazer. Dei o litro enquanto tu estavas no supermercado.
Aos poucos, a dor no coração venceu qualquer gratidão:
Então foi para isso foi para lavar o chão, que me meteste a carregar carne e batatas no supermercado, nestas figuras?
Não me foste buscar à paragem porque estavas a esfregar chão!?
Claro! bateu palmas. Queria que sentisses orgulho! Dizes sempre que não mexo um dedo em casa. Desta vez queria provar o contrário. Mas vieste cedo e não tive tempo de acabar. Tive de te atrasar, senão nunca notavas E tu ainda vens para aqui de trombas, que parece que te dei uma sopa fria.
Miguel, tu tens noção? Estou-me nas tintas para o chão! Estou grávida, doem-me as costas, vinham os sacos a rasgar nos dedos! Quero companhia, preciso de ti, não de um rodapé reluzente!
Miguel ficou vermelho e largou o que tinha na mão na pia:
Irra, começa o teatro! Estou aqui de pé desde as cinco da manhã, a esfregar até aos catos do rodapé, a tentar surpreender. E em vez de agradeceres, é só queixas! Olha-me bem para este chão! Nem no dia do nosso casamento estava assim!
Para quê isso tudo, se depois me deixas meia hora à espera ao frio?! Tinha tudo dormente, só queria descansar! Carreguei compras como uma mula, Miguel. Isto não é surpresa, é penitência!
Penitência?! já rodopiava pela cozinha, braços no ar. Outras agradeceriam. Homem que limpa, homem que cozinha e ainda assim levo na cabeça! Só pensas em ti e nas tuas costas! Eu também estou cansado. Não dormi a noite toda, estava entusiasmado por te ver!
Inês cobriu a cara, a vontade de chorar era infinita.
Não percebes, pois não? Preferes o chão ao meu bem-estar.
O problema é que chegaste antes do combinado! Soubesses ficar mais três dias, entravas e estava perfeito. Agora fazes-me sentir culpado, ainda por cima! És mesmo ingrata.
Miguel saiu, porta da cozinha a bater. O bebé mexeu-se na barriga, temeroso, como a mãe. Inês encostou-se à cadeira, os olhos postos no saco de carne que ele nem se dignou a arrumar.
Dez minutos depois apareceu, ainda a bufar:
Então, faço a carne ou vais agora fazer greve de fome comigo?
Não quero nada, Miguel, deixa-me só em paz. Vou dormir.
Pronto, que seja! nova batida de porta.
Inês arrastou-se até à casa de banho, olhou-se ao espelho e viu olheiras dignas de sessão de terror, cabelo em desalinho. Tinha-se imaginado no autocarro, a ser recebida com abraços, que bom que já cá estás era pedir muito, afinal.
Quando saiu, nova discussão estalou. Ele ralhou-lhe, ela já não tinha energia para responder. Saiu de casa com a roupa do corpo (nem bem nem mal) e foi para os pais.
Todos sogros, cunhada, até tias em terceiro grau tentaram dissuadi-la do divórcio. O Miguel também: telefonava, tentava convencê-la de que percebera o erro, que agora é que ia ser diferente. Mas para Inês a decisão foi simples: precisa de alguém que ponha a saúde dela e do filho acima de um apanhado de lixo e rodapés polidos. Para o chão, que vá ele.






