Como é que ela pôde?! Nem sequer perguntou! Nem pediu a minha opinião! Inacreditável: chega-se a uma casa alheia e manda como se fosse a dela! Um total desrespeito! Meu Deus, por que eu? Passei a vida inteira a tratar dela, e é assim que me agradece! Nem sequer me vê como uma pessoa! Leonor afasta as lágrimas que lhe correm pelo rosto , a ela, vejam só, a minha vida não lhe agrada! Viesse olhar para a dela! Enfiada naquele T1, acha que apanhou a sorte grande. Nem marido decente, nem emprego digno: teletrabalho daqueles De quê é que vive, afinal? E ainda tem lata de me ensinar a viver! Eu já esqueci muita coisa que ela só agora começa a perceber!
Este último pensamento faz Leonor erguer-se de repente do sofá. Caminha até à cozinha, põe água ao lume para o chá e vai espreitar pela janela.
Lá fora, Lisboa resplandece, iluminada pelas luzes de Natal e pelo movimento de última hora nas ruas. Leonor começa novamente a chorar:
Todos a preparar-se para o Ano Novo e eu aqui, sem sentir qualquer alegria… Sozinha como um dedo
O apito do bule sussurra na cozinha. Leonor, perdida nas suas lembranças, nem repara
Tinha apenas vinte anos quando a mãe, aos 45, deu à luz outra menina.
Isso deixou Leonor perplexa: porquê esse trabalho todo?
Não quero que fiques sozinha neste mundo explicou a mãe , é tão bom ter uma irmã. Vais entender. Mais tarde.
Eu entendo agora respondeu Leonor, sem entusiasmo mas olha, não contes comigo para andar atrás dela. Tenho a minha vida.
Agora a tua vida é outra, sorriu a mãe.
As palavras foram mesmo proféticas. A pequena tinha só três anos quando a mãe partiu O pai já tinha falecido antes. Todo o cuidado recaiu sobre Leonor, que praticamente virou mãe da Matilde. Durante anos, até aos dez, Matilde chamava-lhe mãe.
Leonor nunca se casou. Não foi pela irmã, mas porque nunca apareceu aquele homem capaz de vencer-lhe o coração. E também, verdade seja dita, nunca foi pessoa de sair, de festas ou de grandes convívios: casa, trabalho, irmã, casa, trabalho, irmã
Desde a morte dos pais, Leonor tornou-se rapidamente adulta, dedicando tudo à irmã: criou-a, deu-lhe estudos.
Agora Matilde já é uma mulher independente. Está quase a casar.
Visita Leonor com frequência; são muito unidas apesar da diferença de idades, feitios e formas de estar.
Leonor, por exemplo, é extremamente poupada. O seu apartamento parece um armazém de velharias. Se procurarmos, ainda se encontra o robe que usava há mais de dez anos, quando era mais magra. Ou recibos da renda do início dos anos 2000.
Na cozinha há canecas lascadas, tachos com o esmalte a sair e frigideiras sem cabo. Já não os usa para nada, mas não os consegue deitar fora pode ser que um dia precise.
Nem pequenas obras faz em casa. Não é por falta de dinheiro, mas porque, segundo ela, ainda está tudo inteiro.
O hábito de poupar sempre para proteger a irmã deixou marca.
Matilde é o oposto: aberta, animada, prática. A casa dela tem o essencial. Nada de caos! Só o que usa.
Inventou até uma regra: Se não uso uma coisa durante um ano, está na hora de a deixar ir!
É por isso que o lar da Matilde é leve, luminoso e fácil de respirar.
Quantas vezes sugeriu a Leonor:
Vamos fazer obras em tua casa. Aproveitávamos e arrumávamos essas tralhas todas, qualquer dia nem tens por onde andar.
Não quero deitar nada fora, nem mudar seja o que for respondia Leonor , obras não preciso.
Como assim não precisas? Já viste o teu hall de entrada? Aqueles papéis de parede parecem do tempo da avó! O monte de entulho ali só te rouba energia, ainda acabas doente insistia Matilde.
Mas Leonor recusava sempre.
Então Matilde decidiu surpreendê-la! Queria que ela percebesse a diferença entre o que estava e o que podia vir a estar.
Escolheu o hall de entrada, que tinha pouca mobília e menos tralha.
Faltava uma semana para o Ano Novo. Leonor saiu para um turno de 24 horas (trabalhava por turnos) e Matilde, acompanhada do noivo, entrou na casa (têm as chaves uma da outra), tirou o papel de parede velho e pôs um novo: verde-claro, com desenhos dourados.
No final, puseram tudo no sítio sem mexer nos pertences da irmã e saíram.
Leonor, sem desconfiar de nada, regressa a casa e assim que entra, sai logo. Achou que se tinha enganado na porta.
Olhou para o número da porta. Tudo certo
Voltou a entrar.
Tudo fez sentido.
Matilde!
Como pôde ela fazer isto?!
Leonor liga-lhe e passa um sermão dos antigos, acabando por lhe desligar o telefone na cara.
Meia hora depois, Matilde aparece.
Mas quem te pediu?! atira Leonor assim que a vê.
Leonorinha, só quis fazer uma surpresa. Olha como ficou bonito: limpo, claro, espaçoso tenta explicar Matilde.
Não voltes a mandar em minha casa! Leonor não se consegue conter.
As palavras duras caem em cima de Matilde como uma chuva fria.
Até que Matilde perde a paciência:
Chega. Fica com a tua lixeira como quiseres. Não volto cá!
Custa-te encarar a verdade, não é? Vais-te embora?
Tenho pena de ti, responde Matilde em voz baixa e sai
Sai, e passa-se uma semana sem telefonar. Nunca tinham estado tão tempo de costas voltadas. E logo agora, com o ano novo à porta… Irão mesmo passá-lo separadas?
Leonor baixa-se no banco do corredor.
Na verdade, está tudo mais amplo, pensa, imaginando Matilde e Tiago a colarem o papel de parede com tanto cuidado, sem uma ruga, a imaginar-lhe a surpresa na cara. E eu para aqui feita tola Está muito melhor, mais claro. Sinto-me até mais leve. Se calhar ela tem razão
De repente, o telefone toca
Leonorinha Matilde chora ao telefone , perdoa-me. Não quis magoar-te. Só queria fazer-te feliz…
Minha menina, não estou zangada contigo, Leonor também se comove não tens nada que pedir desculpa. Tens tanta razão e o papel de parede está perfeito. Depois das festas até me podes ajudar a destralhar isto, se quiseres.
Claro que quero! Adoro ajudar-te! Mas e hoje? Logo hoje Não consigo imaginar o ano novo sem ti.
Nem eu
Então vá, começa a arranjar-te diz Matilde com um sorriso na voz está tudo pronto: a árvore, as luzes, as velas, mesmo como gostas. E não andes pelas lojas, já preparei tudo. Sempre acreditei que íamos fazer as pazes e que íamos estar juntas no ano novo. Vai com calma; o Tiago vai buscar-te.
Leonor volta à janela. Agora olha para Lisboa iluminada com outros olhos.
Olha e pensa: Obrigada, mãezinha Por teres dado uma irmã assim.De repente, sente-se levequase suspensa. O que antes lhe parecia ausência agora é presença: o novo papel de parede, as luzes pela casa, e o som do telefone a ecoar um eco de esperança.
Vai buscar o casaco cinzento, aquele antigo mas confortável, e sorri ao olhar-se ao espelho do hall: o verde-claro destaca-lhe o rosto, suaviza-lhe as rugas. Ri-se baixinho, limpa os olhos, respira fundo.
Ao fechar a porta atrás de si, pensa em tudo o que ficoue tudo o que agora pode vir. Um novo ano, uma casa cheia de vozes, não de coisas. Uma irmã. A vida, afinal, é isto: dar espaço no coração para o inesperado.
Na rua sente Lisboa a pulsar, cheia de gente aflita e feliz. Lá ao fundo, Tiago acena-lhe junto do carro. Leonor levanta a mão, segura, um pouco nervosa mas mais luminosa do que nunca. E segue em frente, convencida de que, às vezes, o que nos custa largar é o que nos dá espaço para caber mais alegria.
Ao virar a esquina, ouve as badaladas distantes a anunciar o ano novo. Sorri, enquanto pensa: “É preciso deixar entrar a luz.”
E, de repente, já não está sozinha.







