Como foste capaz de chegar a este ponto? Filhinha, não tens vergonha? Tens saúde, por que não trabalhas? diziam à mendiga com a criança ao colo.
Maria do Carmo caminhava devagar pelos corredores do grande supermercado de Lisboa, olhando com atenção as prateleiras cheias de embalagens coloridas. Todos os dias passava lá, quase como se fosse o seu trabalho. Não comprava grandes quantidades de comida, pois não tinha uma família grande para alimentar vivia sozinha. Por isso, cada final de tarde, fugia ao isolamento do seu minúsculo apartamento mergulhando no amplo salão iluminado do supermercado.
No verão, era mais fácil: havia bancos à sombra e amigas com quem conversar. Mas o inverno em Lisboa não lhe dava escolha, e Maria do Carmo passou a apreciar os passeios ao novo supermercado da zona.
Ali sentia-se menos só, rodeada de pessoas, cheiros a café acabados de fazer, música baixa ao fundo e todas aquelas embalagens vibrantes que lembravam brinquedos de criança, arrancando-lhe um sorriso discreto.
Pegou num iogurte de morango, tentou decifrar os ingredientes com o olhar apertado e devolveu-o ao lugar. Aquele luxo não lhe era permitido pelas parcas reformas, mas ver não custa.
Cedendo à nostalgia, perdeu-se nas memórias do antes: das intermináveis filas nos mercados dos anos difíceis, sacos de papel pardo que se desfaziam ao chegar a casa, dos vendedores que disputavam o pouco que havia nas prateleiras.
Sorriu ao recordar como criou a filha sozinha. Por ela, Maria do Carmo era capaz de enfrentar qualquer fila. Pensamentos sobre a filha faziam-lhe o coração apertar. Encostou-se com dificuldade aos frigoríficos de peixe congelado e ficou assim, a recuperar fôlego.
Na sua mente, via o rosto risonho da sua Inês, com o cabelo ruivo encaracolado, olhos cinzentos vivos e as sardas a salpicar-lhe o nariz.
Que bonita que era a minha menina, murmurou, com tristeza.
De soslaio, o empregado olhou-a de lado enquanto passava pelo pão.
Inês fora tudo na vida dela. Miúda esperta, caiu-lhe a ficha cedo de que não seria feliz apenas a trabalhar e decidiu aceitar um pedido para ser barriga de aluguer. Avisada pela mãe de que aquilo não acabaria bem, Inês não quis acreditar.
Com vinte anos ninguém ouve conselhos maternos. Se o pai fosse vivo, talvez tudo tivesse sido diferente. Mas como os estranhos tiveram coragem de meter uma rapariga tão nova naquela situação?
Inês ria-se e acariciava a barriga já redonda, enquanto Maria do Carmo abanava a cabeça em angústia. Como se dá um filho de sangue, carregado nove meses, a alguém? Inês, porém, desdramatizava: Já só vejo dinheiro, mãe, não penso sequer num bebé.
Foram partos complicados e Inês não resistiu. Ninguém fez grande esforço para a salvar. Três dias depois de nascer a pequena, Inês morreu.
A bebé foi entregue aos pais encomendantes, claro. Maria do Carmo não viu nem um euro. O contrato era só com a filha.
Sozinha no mundo, Maria do Carmo fechou-se ainda mais. Sem uma única pessoa da família, deixou-se mergulhar na solidão. Assim custava menos.
Naquele fim de dia, dirigiu-se à secção do pão, para justificar a visita ao supermercado. Tacteou no bolso algumas moedas de euro e foi direita à caixa. Já contara o troco e passou o valor certo, escondendo o resto na mão.
Notou a jovem mendiga logo ao segundo dia do supermercado aberto, quase um mês antes. Numa das primeiras explorações, foi impossível não reparar na rapariga pela juventude, pela postura imóvel ou talvez pela forma como segurava o bebé junto ao peito.
Como é que ela chegou aqui?, pensava Maria do Carmo, aproximando-se da figura familiar. Atirou algumas moedas para o copo e disse: Filha, não tens vergonha? Estás sã, ainda podes trabalhar. Tão nova e já de mão estendida.
Fez uma careta, vendo alguns apressados tentarem contorná-la.
Obrigada pela esmola, mas siga o seu caminho. Tenho de juntar o máximo que conseguir, senão vai ser pior.
A idosa balançou tristemente a cabeça e foi embora, sem querer insistir ou dar lições. Decidira ajudar discretamente. Ninguém parecia importar-se nem polícia nem Segurança Social. Já eram tantos nas ruas de Lisboa, pedir esmola passara a ser um cenário banal.
O caminho até casa foi povoado pela imagem da jovem e do bebé. Havia algo no tom de voz, no olhar, que soava demasiado familiar. Onde teria já ouvido aquilo? Maria do Carmo esforçou-se por recordar.
Chegada a casa, descalçou as botas, acendeu a luz e foi directa à cozinha com o pão. Quinze minutos depois, já saboreava um chá quente e doce, acompanhando-o com broa e um pouco de fiambre.
Ela deve estar cheia de fome assim ao frio. Que vida, pensou.
Deu um passo à janela, procurando distinguir a figura da jovem. Gelou: dois homens de ar suspeito empurravam-na para dentro de um carro.
Aflita, Maria do Carmo correu para o telefone, com intenção de chamar a polícia, mas parou e se acabava por agravar a situação?
De novo à janela: a praça estava vazia. Decidiu esperar pela manhã. Ao longe não conseguiria ver a matrícula sequer.
Foi uma noite mal dormida. De manhã, sonhou com a filha: Inês aparecia à porta do supermercado, uma criança ao colo, azul de frio. Maria do Carmo envolvia-as no casaco, apertando-as com força. Mas Inês respondia:
Não tenho frio, mãe.
Maria do Carmo pegava então num bebé embrulhado, e reparava no medalhão ao pescoço da menina.
Um medalhão familiar murmurava, ainda no sonho.
Acordou sobressaltada, fitando o relógio de parede.
Como é possível dormir tanto?, intranquila.
Já passava das nove. Rapidamente, foi espreitar à janela. A rapariga continuava no mesmo sítio, à entrada do supermercado.
Graças a Deus suspirou, benzendo-se.
Era quase véspera de Ano Novo e fazia um frio de rachar. Aquela criança, ainda ali ao relento, podia não aguentar até à noite.
Rápida, Maria do Carmo preparou sandes de fiambre, encheu um termo com chá adocicado e foi vestir-se.
Assim que a viu aproximar-se, a jovem cobriu um hematoma com o lenço.
Não tenhas medo, querida disse, estendendo-lhe o lanche. Não quero que passes fome.
A jovem agradeceu com o olhar, aceitou e sentou-se mais afastada. Comeu sôfrega engolindo tantas fatias sem mastigar, olhando sempre de lado para o filho, inquieta. Assim que terminou, limpou as migalhas, correu até à idosa:
Obrigada, isto basta-nos até ao fim do dia; depois vêm buscar-nos.
Em casa, Maria do Carmo espreitava o termómetro na varanda o frio apertava.
Pelas cinco da tarde, encheu um frasco com caldo verde e voltou ao supermercado. Sem se deter, deixou a comida junto da rapariga e um punhado de moedas no bolso do casaco dela, piscando-lhe o olho, e foi abrigar-se.
Não se demorou: era preciso comprar chouriço e pepinos para a tradicional salada russa da Passagem de Ano. Luxos não havia, mas fome também não iria passar. Ao sair, já não viu a rapariga nem sinal do frasco.
Deve ter ido comer para outro lado, pensou, sorrindo.
Casa adentro, tratou das entradas, preparou carpa para o forno. Talvez alguma vizinha aparecesse para brindar.
Pelas dez, foi de novo à janela. Queria acreditar que a jovem já teria encontrado abrigo.
Da rua, entre as luzes do centro comercial, viu-a sentada num banco, a soluçar no silêncio gelado.
Maria do Carmo apressou-se. O coração batia descompassado os pés calçados nas pantufas mal tocavam nos degraus da escada. Sentou-se ao lado da rapariga, ofegante.
Não tenho mais para onde ir lamuriou-se a jovem, quase sem forças.
Nos olhos, a esperança aguentava-se por um fio, pousada naquela avó desconhecida.
Cuide dele, por favor passou o embrulho com o bebé às mãos trémulas da idosa e caminhou para a estrada.
O mundo pareceu-lhe girar. Estava claro, pela atitude da jovem, o que pretendia. Com esforço, Maria do Carmo correu atrás. Virou-a para si:
Não, minha menina! Que fazes? Anda comigo! agarrou-lhe a mão e arrastou-a até ao antigo prédio de três andares.
Já no quente da casa, desembrulhou o menino, colocando-o ao pé do aquecedor.
Como te chamas? perguntou, mas parou de repente ao ver o medalhão no pescoço.
A jovem percebeu o olhar e disse:
É a única coisa que me resta da minha mãe.
A idosa ficou lívida. Aquele medalhão era inconfundível, fora ela própria a oferecer a Inês, nos seus dezasseis anos. Tão difícil de arranjar dinheiro naqueles tempos, vendeu um broche antigo, mandou o ourives transformar a pedra num medalhão, e trocou o resto por uma corrente de ouro bastante simples para a filha.
A rapariga despia o casaco e perguntou timidamente:
Posso tomar um duche?
Autorizada, desapareceu. Maria do Carmo bebeu um copo de água com açúcar.
Mas será possível? Esta não pode ser a minha neta
A seguir, aconchegou o menino na poltrona ao lado da cama, sentou a rapariga à mesa posta.
Leonor disse, casual, a olhar para o bebé.
Como sabia o meu nome?
A idosa encolheu os ombros.
Ouvi alguém chamar-te assim, se calhar. Anda, come.
Frio na testa. Não havia dúvidas acolhera a própria neta. Era o nome que os clientes tinham escolhido para a menina que Inês carregou. Leonor agradeceu, olhos a brilhar, e começou a comer.
Maria do Carmo fitava, em busca de semelhanças.
Então, Leonor, conta-me lá O que te aconteceu?
A história saiu rápida e entrecortada, libertando a angústia de anos.
Vivera até aos cinco anos com pai e mãe; era feliz, tinha até um pónei. Ao relembrar, os olhos fecharam-se de saudade. Derramava lágrimas.
A seguir vieram divórcio, discussões. Ficou com a mãe, que um dia a deixou à porta da Casa do Gaiato, com um papel de desistência.
Nunca percebeu porquê. De princesa, virou indigente. Doze anos no orfanato. Depois, ao vinte-e-um, deram-lhe uma casa prometida pelo Estado era um barraco para demolir. Ali conheceu Vítor, o canalizador. Quando soube da gravidez, desapareceu sem rasto.
Ficou ali até ao despejo, restando-lhe apenas a rua. Tentou a sorte nas estações de comboios, pediu junto ao metro, até ser apanhada por Bruno Cabeça, que controlava os outros sem-abrigo.
Uma jovem bonita com bebé vai render bem, pensou ele, em troca dou casa.
Assim, Leonor e o filho passaram a viver no subsolo de um prédio, entre dezenas como ela muitos fingiam invalidez para angariar mais moedas. Os fingidos davam-lhe menos dinheiro. E Leonor, nova demais para tal teatro, pouco trazia.
As ameaças aumentaram. Queriam mais dinheiro. O bebé chorava muito, ninguém gostava.
Nesse dia, não vieram buscá-la. Deixaram-na entregue à sorte.
Baixou a cabeça, agradeceu o prato de sopa.
Obrigada Não sei como tinha aguentado a noite.
Deixou a garfada cair e bocejou:
Amanhã vou-me embora, não se preocupe. Só preciso descansar.
Maria do Carmo ajudou-a à cama, aconchegou o pequeno no cadeirão.
Sentou-se à mesa na companhia da televisão. À meia-noite, ouviu a mensagem do Presidente, com um sorriso novo.
Nunca deixaria partirem a neta e bisneto. Ali, tinham finalmente casa e calor. No tempo certo, contaria a verdade. Apoiá-los-ia, até Leonor se levantar. Por enquanto, que descansassem já tinham sofrido o suficiente.
Com o toque das doze badaladas, Maria do Carmo serviu-se de uma ginjinha e brindou à esperança.
Foi à janela e ficou ali, a ver a rua deserta de Lisboa, iluminada por candeeiros, os flocos suaves a cair. Agradeceu: Obrigada, meu Deus, por este milagre. Adeus solidão voltei a ter família.
Porque, por vezes, a esperança renasce onde menos esperamos basta termos coragem de abrir a porta do coração.







