Como assim não vais cuidar do filho do meu filho? não se conteve a sogra.
Primeiro, não fujo às minhas responsabilidades com o Iuguinho. Ora vejamos: é neste lar, depois do trabalho, que dou conta do recado tal como uma esposa e mãe decente faria entre tachos, roupa por lavar e a casa para endireitar.
Posso ajudar e dar uns conselhos, sem dúvida, mas assumir por completo todos os deveres de mãe não é algo que me caiba.
Então não vais assumir? És mesmo dessas, fingida? passou-se logo a sogra.
Ó Dina, por amor de Deus! Quem é que quer um trabalho pelo qual ninguém paga? Naquele reencontro de antigos alunos, a Sónia não largou o velho hábito de julgar e deitar lenha para a fogueira.
Mas os tempos em que a Rita ficava sem resposta tinham já passado há muito. Agora, palavra não lhe faltava, e não deixou em branco a oportunidade de pôr a Sónia, língua afiada, no devido lugar.
Olha, só porque tens de pensar onde vais desencantar dinheiro, não quer dizer que todos estejam na mesma. Encolheu os ombros, descontraída. Fiquei com dois apartamentos em Lisboa do meu pai.
Um era onde vivíamos até ele e a minha mãe se separarem, o outro veio dos meus avós.
E os valores de arrendamento lá, como devem calcular, não são como aqui dá-me perfeitamente para viver bem e ainda aproveitar uns luxos, por isso escolho o trabalho porque gosto, não só pelo salário.
Foi por isso que trocaste a bata de médica pelo balcão do supermercado, não foi?
Era segredo. Rita tinha prometido não contar a ninguém.
Mas, se a Sónia queria mesmo manter em segredo, não devia andar a chamar-lhe nomes em público.
Achava a sério que lhe passariam a mão pelo pêlo? Se calhar, quem se deveria sentir envergonhada não seria a Rita.
Trabalhas numa loja?
Prometeste que não contavas a ninguém! guinchou, sentida, a Sónia.
Pegou no saco e precipitou-se para a porta do restaurante, esforçando-se por não deixar cair as lágrimas.
Bem feito, comentou o André, ao cabo de alguns segundos de silêncio.
Ninguém a atura, quem é que a foi chamar? reforçou a Tatiana.
Fui eu, admitiu, entre desculpas, a ex-delegada de turma e agora organizadora de encontros, Ana. Lembro-me dela na escola, não era fácil, claro… mas pensei que as pessoas mudavam. Às vezes, vá.
Mas nem sempre, respondeu a Rita, dando de ombros.
O grupo riu-se. Depois, a Rita foi bombardeada de perguntas sobre o seu emprego.
A curiosidade era compreensível tratava-se de uma área pouco conhecida e cheia de mitos e equívocos.
Foi desfazendo as dúvidas dos antigos colegas uma a uma.
Mas para quê tratar dessas crianças, se não vale a pena? perguntou alguém.
E quem disse que não vale? Olha, tenho um rapazinho de cinco anos. O parto foi complicado, houve falta de oxigénio, e agora tem um atraso global no desenvolvimento.
Mesmo assim, o prognóstico é bom começou a falar aos três anos e, com todo o esforço da família nas terapias certas, tudo indica que vai para uma turma normal, sem grandes problemas.
Se não tivessem insistido em ajudá-lo, tudo seria diferente. Bem pior.
Bem, tu não precisas de correr atrás do euro, e dedicaste-te a algo importante, resumiu o Valter.
A conversa continuou, de vida e famílias.
De repente, a Rita sentiu-se observada. Achou que era só paranoia, mas passados segundos voltou a sentir o mesmo.
Discretamente, olhou em redor ninguém reparava nela. Enganara-se, e depressa voltou à conversa com os amigos, esquecendo o episódio.
Uma semana depois do reencontro.
De manhãzinha, ao sair do prédio para ir trabalhar, encontrou o carro bloqueado alguém estacionara atrás.
Ligou para o número deixado no vidro do outro carro; ouviu desculpas apressadas e garantias de que já vinha deslocar o veículo.
Peço imensa desculpa! O jovem era todo sorrisos, nervoso. Não havia mesmo onde parar, só se fosse assim. Por acaso, chamo-me Márcio.
Rita, respondeu-lhe ela. Havia ali qualquer coisa no rapaz, no trato, no cheiro, na roupa, que conquistou a Rita de imediato. Aceitou sair com ele, sem reservas.
Depois houve outro encontro. E, passados três meses, não se via sem o Márcio.
Tanto mais que a mãe dele e o seu filho do primeiro casamento acolheram a Rita de braços abertos.
O filho, Iugo, era diferente tinha necessidades especiais mas a Rita, pela profissão, sabia bem comunicar com ele.
Deu até umas dicas novas ao Márcio, para que melhorasse a relação com o miúdo e o ajudasse a integrar-se.
No final do primeiro ano de namoro, juntaram-se. Na prática, Rita passou a viver com Márcio e o Iugo.
O seu T1 arrendado continuava a render, e ela mudou-se com armas e bagagens para casa do futuro marido.
Aí começaram os primeiros sintomas de problema.
Primeiro eram pedidos simples ajuda o Iugo a vestir-se, ou fica com ele um bocadinho, tenho de ir às compras.
Nada de especial, dado o bom entendimento entre os dois.
Mas, aos poucos, a exigência aumentou.
Teve de conversar com o Márcio: o filho era dele, cabia-lhe a ele a responsabilidade principal.
Ajudava com todo o gosto, mas não podia assumir mais do que uma pequena parte daqueles cuidados; afinal, passava os dias a trabalhar com crianças especiais.
Márcio parecia entender, mas antes do casamento começaram a pressionar ele e a mãe sobre a tal reabilitação do Iugo.
Aparentemente, esperavam que fosse a Rita a assumir tudo aquilo no tempo livre.
Ó meus senhores, vamos lá por as cartas na mesa, interrompeu logo a Rita. Márcio, combinámos que és tu quem cuida do teu filho.
Não te peço para trabalhares para a minha mãe, nem para lhe pintar a casa ou resolver os assuntos dela, pois não? Cada um com as suas obrigações.
Lá estás tu a comparar… resmungou a futura sogra. A mãe é uma coisa, é uma adulta independente! Criança é criança.
Ou achas que depois de casada vais poder continuar a fazer de conta que ele não é problema teu?
Nunca disse que não me importava com o Iugo. Só que, aqui em casa, depois do trabalho, faço tudo o que uma boa esposa e mãe faria cozinho, limpo, lavo…
Mas a reabilitação é responsabilidade do Márcio. Ajudo e oriento, mas não posso ser mãe a tempo inteiro de uma criança que não é minha, sobretudo quando trabalho precisamente com este tipo de casos.
Não fazes os teus deveres, afinal. És tão boa a descrever o teu trabalho aos amigos, mas na hora de ajudar um filho que precisa aí já não tens tempo nem paciência!
Do que é que está a falar? estranhou a Rita.
De repente, percebeu: a mãe do Márcio era empregada de limpeza naquele mesmo restaurante onde tivera o encontro com os antigos colegas.
Estava tudo montado para lhe passarem o filho às mãos.
Era só o que faltava. Então isto foi tudo jogo para me deixarem com o vosso filho?
Achas que eu queria mesmo casar contigo? não se conteve o Márcio. Se não fosse o Iugo e o teu trabalho, nunca te teria dado atenção…
Ah, é? É para não olhar mais? Tirou o anel do dedo e atirou-lho ao noivo.
Vais-te arrepender! ameaçaram o Márcio e a mãe. Homem a sério não quer cinzentas sem futuro e sem dinheiro.
Olha, dinheiro não me falta, tenho dois apartamentos em Lisboa, atirou a Rita, orgulhosa.
E, ao saborear a surpresa escarrapachada nos rostos dos dois, foi fazer a mala.
Logo seguiram promessas de reconciliação. Vieram os pedidos de desculpa, que estava cansado, que não se ia repetir, que me amava, que nunca mais…
Mas a Rita não acreditou em juras assim. Riu-se, disse que ele tinha perdido a ratinha e não estava nada arrependida disso.
Depois contaram tudo aos colegas e riram bastante com a história. Rita sonhava ainda encontrar alguém que a amasse pelo que era, não pelo que tinha ou sabia fazer.
Enquanto isso, bastava-lhe o trabalho de que gostava, os amigos… e talvez um gato, que sempre se educa melhor do que certos homens.







