Colegas e amigas sentiam inveja de Svetlana — ela conquistou um homem mais velho e bem-sucedido. André, quinze anos mais velho do que ela, era o diretor da empresa onde trabalhava.

Às vezes sinto que meus sonhos são telas pintadas por um pintor distraído, misturando o quotidiano com pinceladas surreais de Lisboa. Era como se passeasse pelos corredores de um prédio em Alfama, onde as paredes murmuravam fados tristes e azulejos mudavam de cor quando desviava o olhar. Nessa Lisboa onírica, todos falavam sobre Clotilde, a rapariga de olhos de azeitona, a quem colegas e amigas sussurravam inveja, porque conquistara um homem muito mais velho, conhecido na cidade o poderoso senhor Afonso, diretor de uma empresa que parecia funcionar dentro de um elétrico antigo e parado no tempo.

Mal entrou aqui já vai casar, sopram as vozes entre dentes encostadas ao café pingado.

Da aldeia para o trono, riposta alguém, fazendo tilintar euros na chávena.

Clotilde não gostava das línguas afiadas, não queria contar do seu namoro. Só ela sabia que conhecera Afonso antes até de se candidatar ao estranho trabalho onde, nos corredores, os relógios andam para trás nas tardes de nevoeiro. Foi um encontro improvável: uma manhã em que o sol nascia quadrado nos telhados, ele passou-lhe com o carrinho das compras por cima dos sapatos de camurça, mesmo junto à secção de bacalhau numa loja mini-preço no Chiado, e ralhou-lhe como se fosse vendedora de lotaria.

Ela, com voz doce, devolveu-lhe a moeda que caiu do carrinho. Ele, embaraçado, pagou-lhe as compras de pastel de nata e foi atrás dela até ao Rossio, pedindo desculpa mil vezes, quase de joelhos sob a estátua de D. Pedro IV.

Desculpe, minha senhora foi o vento, foi um dia longo, deixe-me ao menos ajudar com os sacos

Não é preciso, obrigada, vim de metro e trato-me sozinha, mentiu Clotilde.

Mas Lisboa dobra ruas como fitas, e o Alfa Romeo verde de Afonso interceptou Clotilde à paragem de autocarro. Teimoso, bloqueou a passagem e até a peixeira incentivava: “Menina, entre só, deixe passar!”

Acabou por entrar e, desse dia estranho, nasceu algo improvável. Mais tarde, Clotilde começou a trabalhar naquela empresa feita de corredores labirínticos e papéis dançando ao som do vento de Belém, sem saber que Afonso era quem mandava em tudo.

Mas Lisboa é pequena para grandes segredos. Num passe de mágica onírico, todos sabiam da ligação que dançava entre o viúvo e a morena. Afonso, ainda chorando Mariana, sua falecida esposa e antiga proprietária do negócio do elétrico, deixava as senhoras da Baixa encantadas:

Oh, tão fiel, um verdadeiro cisne, diziam, abanando leques com fechas de sardinha.

Afonso não era galã, antes homem de contas recheadas e coração atascado. Mas Clotilde jurava que o amava, ainda que até hoje, ao lembrar, os sinos das igrejas repicavam ao contrário.

Ela apreciava o modo como Afonso olhava para ela, o apartamento no bairro alto com varandas viradas para o Tejo, o carro importado viam tudo como promessa, mas, no fundo, eram sombras suspirando no soalho antigo.

A mãe de Afonso, Dona Sofia, ficou a fazer parte desse quadro, submissa e silenciosa, usando aventais de linho, cozinhando caldeiradas e engomando camisas como se ainda esperasse pela filha morta.

A harmonia tremia como um eléctrico a ranger na curva. O baque deu-se quando Clotilde notou no dedo dele a antiga aliança de ouro baço.

Ainda sinto a Mariana, está aqui comigo, confessava ele, com voz de trovão que queria ser mar.

Clotilde não aceitou. Pediu que Afonso tirasse o anel, porque não podia ser sombra de ninguém nem beijar dedos de morte.

Quando decidiu pedir-lhe em casamento, Afonso sacou de um pequeno cofre de família escondido até então e no restaurante mais poético serviu-lhe, mergulhado no fundo do copo de vinho do Porto, o mesmo anel da falecida. Clotilde sentiu o sangue gelar, as velas tremelicaram, e quase se engasgou no rubi escuro.

Casa comigo, pediu Afonso, num tom onde o fadista e o banqueiro se misturavam.

Não. A palavra caiu como pedra sobre a mesa.

Mas é uma joia única! Não fazes ideia de quanto vale flamejava ele, a voz misturada com o som longínquo dos eléctricos a chiar.

Não quero vestir alma velha, nem carregar energia alheia no dedo. E não quero que tu uses o passado como escudo, sussurrou, sentindo nas veias as ruas estreitas do Alfama a bifurcarem-se.

Só não deito o passado fora porque o futuro me assusta, murmurou ele, olhando para o Tejo lá longe.

A noite desfez-se em notas desafinadas, e Clotilde saiu, deixando para trás o prato quente e os sonhos de família. Recolheu-se à velha casa dos pais em Sintra, onde o musgo cresce nas paredes, e lá ouviu conselhos: “Deslarga esse viúvo, Clotilde, olha-te, bonita e nova, para quê esse fado repetido?”

Os dias passavam, nuvens bailavam em sentido contrário; Clotilde adoeceu de tanto indeciso silêncio. Por Lisboa, corriam rumores: a empresa cheirava a tristeza, Afonso andava lúgubre, desforrando-se nos papéis e no café frio. Dona Sofia, mãe cuidadora, tentava falar com ele, mas os teatros sempre acabavam em silêncio a casa ecoava a pratos partidos e lençóis frios.

Dona Sofia, preocupada, decide ir falar com Clotilde aparece sem aviso, com cheiro a alecrim e bolo acabado de fazer.

Clotilde, filha, volta lá, o meu Afonso anda de olhos vazios, a casa gela sem ti.

Foi o anel, Dona Sofia não me peçam para ser espectro de ninguém, tudo tem energia.

A senhora assentiu, as rugas a dançarem ao ritmo do fado que ecoava do rádio. Concordou: “Não se constrói um lar sobre escombros.”

Dias depois, Clotilde retorna ao trabalho para entregar o pedido de demissão, empacotando sonhos e fotos no envelope de papel pardo. Afonso assina, e os olhares esbarram silenciosos no dedo dele o anel brilha, nostalgia e apego.

Adulto e tão menino, murmura Clotilde, indo embora pelo corredor ondulado.

Nunca ninguém me disse não, atira ele, ficando feito pedra nas margens do sonho.

Clotilde sente finalmente o peito leve larga a empresa, o homem, o anel, e o nome antigo da cidade confunde-se entre si e Sintra em miragens impossíveis. Percebe que fez bem. O eléctrico parado na rua volta a andar e o sonho dissolve-se entre tuk-tuks e rolinhas, sambando numa Lisboa líquida, onde tudo se repete e nunca é igual.

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Colegas e amigas sentiam inveja de Svetlana — ela conquistou um homem mais velho e bem-sucedido. André, quinze anos mais velho do que ela, era o diretor da empresa onde trabalhava.