Cheguei de surpresa ao marido e percebi na hora por que ele fica até tarde no trabalho

Cheguei de surpresa ao marido e logo percebi porque ele ficava a fazer serão no trabalho

Durante vinte e três anos, Eugénia Brás cozinhara caldeiradas, passara camisas, engolira em seco a presença da sogra e o seu refrão predilecto: «o Pedrinho em pequeno comia papas de milho com gosto». Durante vinte e três anos acreditara que o marido fazia horas extra por necessidade. É natural. Relatórios trimestrais. Reuniões. Emergências. Tudo normal, tudo explicável.

Mas depois, algo estalou. Não foi de repente. No início era só: não atende. Bem, está ocupado. Depois, o jantar arrefecia pela terceira vez na noite. Surgiu um novo perfume floral, leve que Eugénia nunca lhe ofereceu.

Eugénia não era de cenas. Não era dessas que esbracejam por ninharias. Era das que olham o tecto às duas da manhã por semanas, até que de repente se levantam, vestem o sobretudo e vão.

Foi o que fez.

No caminho ligou à amiga Rosinda:

Eugénia, para quê ires? O que vais ver só te vai magoar mais.

Não pode ser pior do que isto, respondeu Eugénia, desligando em seguida.

O escritório do Pedro era no terceiro piso de um edifício de escritórios chamado Adamastor, tão vistoso quanto pretensioso. Conhecia bem aquele lugar: tinha estado lá duas vezes, numa festa de Natal e noutra para levar ao Pedro o crachá esquecido. O segurança, da última vez, olhou para ela com respeito: mulher do chefe de secção.

Agora passavam das sete, o parque estava meio vazio, a maioria das janelas escuras.

Excepto uma.

Eugénia ficou parada junto ao carro, de olhos fixos lá no alto. Terceiro piso, última janela à direita o gabinete de Pedro. Luz acesa, dois vultos moviam-se atrás do vidro.

Imóvel, Eugénia olhava.

Tirou o telemóvel e ligou-lhe.

Chamadas. Uma. Duas. Três.

Lá dentro, o vulto mais pequeno aproximou-se do outro.

Quatro. Cinco.

O número que marcou não está disponível…

Eugénia guardou o telemóvel. Avançou para a entrada.

O segurança, de olhar perdido no ecrã, fitou-a como se ela lhe mostrasse um mandado de busca.

A quem se dirige?

Pedro Brás. Terceiro piso.

Está agendada na lista?

Eugénia olhou-o como se encara uma parede prestes a ser deitada abaixo.

Sou a esposa.

O António digeriu a informação. Premiu algo no painel. Esperou.

Não atende.

Eu sei, respondeu Eugénia. Mas ele está lá.

Hesitação. Dentro dele, António pesou: seguir o regulamento ou deixar entrar a esposa do chefe. Regulamentos são regulamentos, mas esposas… quem as enfrenta depois?

Se faz favor… murmurou ela, e havia algo no tom dela que fez António afastar a mão do torniquete.

Eugénia subiu ao terceiro piso. Corredor forrado a alcatifa cinzenta, portas iguais, cheiro a limpeza recente. Pensou que devia ter ido ao café, beber um galão, acalmar-se antes de subir. Mas já não havia volta.

No fundo do corredor, a porta do gabinete encostada, uma fatia de luz. Vozeirões.

Eugénia parou a dois passos.

Risada feminina, leve, aérea, como quem acabou de ouvir algo irresistível.

E a seguir, a voz de Pedro. Eugénia ouviu. Trinta segundos. Um minuto. As mãos estavam gélidas, as faces ardentes.

Empurrou a porta.

Pedro sentado na beira da secretária, não na cadeira, mas em pose de quem domina o espaço. Explicava qualquer coisa a uma jovem mulher, papéis nas mãos. Uma trintona simpática, cabelo preso em cima.

Ambos olharam.

Ficaram em silêncio, daqueles que dizem tudo.

Eugénia? chamou Pedro. Naquele nome cabia o espanto, o medo e, pior ainda, o incómodo de quem é apanhado.

Boa noite, disse Eugénia.

A rapariga deu um passo atrás. Depois outro. Arranjou maneira de olhar pela janela.

Vieste sem ligar? Pedro saltou da secretária, tentou disfarçar, pose normal. Fracassou.

Liguei. Não recebeste.

Estava ocupado, como vês.

Vejo, assentiu Eugénia.

E via mesmo. Via o botão da camisa desabotoado. Os dois copos de chá, um manchado de baton. Via a rapariga que mudava os papéis de mão, de um lado para o outro.

Esta é a Vera, nova gestora do projecto, explicou Pedro, com voz de quem nada tem a esconder. É esse o tom de quem esconde.

Prazer, disse Eugénia.

Vera pousou os papéis, acenou, sorriu. Uma simpatia neutra, nada de mais. Eugénia não a culpava. Não fizera promessas a Pedro.

Vou sair, disse Vera.

Faça favor, anuiu Eugénia.

Vera saiu. Boas maneiras.

Pedro e Eugénia ficaram a sós. O silêncio dançava entre os néons dos carros lá em baixo, do lado de fora.

Para que vieste soltou Pedro. Não era pergunta, era censura.

Eugénia olhou o copo com baton. Depois encarou-o.

Queria perceber porque não atendes.

Estava ocupado, já expliquei.

Explicaste.

Silêncio.

Eugénia, não faças uma tragédia disto. Estávamos a trabalhar. Pura conversa de trabalho.

Às sete da noite.

Sim! O projecto não espera, sabes o que isso é?!

Pedro falava alto, com fervor. Assim falava ele quando queria substituir argumentos por volume de voz. Eugénia conhecia-lhe as manhas. Vinte e três anos de experiência.

Ficou calada. Fitava-o.

Aí Pedro vacilou. Ela, antes, já teria chorado, pedido desculpa, ido embora. Agora, só olhava. Clínica, silente.

Vamos para casa falar melhor, pediu ele, voz descaída.

Vamos, anuiu Eugénia.

Foi ela quem saiu primeiro. Percorreu o corredor em direcção ao elevador, a cabeça estranhamente leve.

Uma claridade. Fria, transparente.

Vira tudo. Faltava decidir o que fazer com aquilo.

Foram calados para casa.

Pedro conduzia absorto na estrada. Eugénia olhava pelas janelas: luzes, chão húmido, varandas alheias com amarelos quentes. Atrás de cada janela, um universo. Uma cozinha, um marido, outras Eugénias. E, talvez, outra Vera. Ou não. Ou já foi.

No elevador, Pedro carregou no cinco. Eugénia pensava: quando entrarmos, ele vai explicar. Longo, detalhado, com desculpas de cansaço. Sempre soube justificar-se.

Entraram. Pedro acendeu a luz do hall, pendurou o sobretudo, sempre arrumadinho aquilo irritava-a desde sempre, agora ainda mais.

Eugénia, ouve…

Estou a ouvir.

Ela foi até à cozinha. Pedro seguiu, encostou-se à parede, mãos nos bolsos.

Eugénia, não aconteceu nada.

Pronto.

Estávamos apenas a trabalhar.

Está bem, Pedro.

Não acreditas em mim.

Não acredito.

Ele não esperava. Esperava lágrimas, talvez gritos, copos partidos (mas não, ela nunca destruiu nada). Mas aquele «não acredito» sereno, nunca.

Porquê?

Porque vi a tua cara quando entrei. Olhaste-me como se eu fosse um incómodo.

Não é verdade.

Pedro. Virou-se para ele. Conheço-te há vinte e três anos. Sei quando estás feliz por me ver. E hoje não estavas.

Silêncio.

Eugénia, estás a imaginar coisas.

Talvez. Deu de ombros. Também imaginei o teu perfume novo? O que usas há três meses?

É meu.

Tu nunca usaste isso. Fui sempre eu que te comprei os perfumes. Este é outro.

Pedro calou-se.

Aí, sim, ficou desconfortável.

Eugénia, garanto que não passa de um mal-entendido.

Não passa de um. Repetiu devagar. Mas passou por alguma coisa.

Eu não disse isso!

Acabaste de o admitir.

Pedro esfregou o rosto entre as mãos. Esse gesto era-lhe familiar; fazia-o quando as coisas corriam mal ou sentia vergonha. Quase sempre vergonha.

Eugénia, murmurou eu nem sei explicar. Com ela é fácil, fala-se de tudo. Ela olha para mim de outro modo. Sei que parece tolice.

Parece sincero, respondeu Eugénia.

Nada aconteceu. Verdade.

Mas podia ter acontecido.

Ficou calado. O silêncio falou mais que mil palavras.

Eugénia assentiu, como quem risca uma lista invisível.

Percebi, disse ela.

Eugénia, não tires conclusões precipitadas.

Pedro, a voz dela era límpida, como uma banca fria de mármore. Não estou a tirar conclusões precipitadas. São conclusões decantadas em três meses. Enquanto usavas perfume estranho, não atendias e olhavas para mim como se eu fosse parte do mobiliário.

Ele ficou mudo. Olhava para a mesa.

Quero dizer-te algo, continuou Eugénia. Peço-te que escutes até ao fim. Depois, diz o que quiseres. Está bem?

Pedro assentiu.

Não vou fazer escândalos. Nem gritar, nem chorar, nem deitar pratos ao chão. Pausou. Quero que percebas: nunca mais vou fingir que está tudo bem quando não está. Vinte e três anos sem perguntas para não te irritar. Chegou ao fim.

Pedro levantou os olhos.

Isto não é um ultimato. É só a verdade. Decide o que é importante para ti. Agora.

Pedro ficou longo tempo calado. Depois, sussurrou, quase sem som:

Eugénia. Fui um parvo.

Pois foste, confirmou. Mas isso não responde à questão.

Eugénia foi para casa da Rosinda nessa mesma noite.

Fez a mala sem drama, rápida. Pedro ficou encostado ao umbral do quarto, naquela vigília silenciosa.

Por quanto tempo?

Não sei.

Eugénia…

Pedro. Fechou o fecho da mala. Precisas pensar. E eu também. Vamos pensar separados.

Ele não insistiu. Isso, mais do que palavras, disse tudo.

Rosinda abriu-lhe a porta, viu-lhe a expressão, a bagagem, e não fez perguntas. Só pôs água para chá ao lume. Por isso Eugénia a adorava há vinte anos.

Ficaram na cozinha até às duas. Rosinda ouvia, às vezes dizia umas palavras não conselhos, só aquilo que impede o peso do silêncio.

Pedro ligou ao terceiro dia. Sem desculpas nem choradeiras. Disse só:

Eugénia, quero que voltes. Percebi umas coisas.

Que coisas?

Que fui um parvo. Mas já disse isso muitas vezes, as palavras começam a perder valor. Tenho de o mostrar.

Eugénia ficou em silêncio.

Está bem, respondeu apenas.

Voltou a casa numa sexta-feira à hora de jantar. Na cozinha, tacho com caldeirada de bacalhau já quase desfeita. Pedro sempre deixava cozer demais por medo de sair crua. Ao lado, ramo de flores, torto, precipitado.

Eugénia pousou a mala. Olhou a caldeirada. Depois , as flores.

Deixei cozer de mais, disse Pedro atrás dela.

Estou a ver.

Mas está comestível.

Logo se vê, disse Eugénia.

E foi lavar as mãos. A vida é assim. Às vezes a caldeirada passa do ponto, outras vezes não. O importante é distinguir e não ficar calada vinte e três anos.

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Cheguei de surpresa ao marido e percebi na hora por que ele fica até tarde no trabalho