Cavalheiro de 67 anos convidou-me para jantar. Após investigar o meu passado, a sua filha de 30 anos fez uma pergunta indiscreta… ele ficou sem palavras… e eu fugi imediatamente.

Olha, tenho que te contar o que me aconteceu, vais rir (ou chorar, já nem sei). Então, imagina a Dona Beatriz Maria, uma senhora de sessenta e tal anos, com aquele charme maduro que só os anos sabem dar, cheia de histórias e serenidade no olhar.

Ela já estava viúva há cinco anos. A dor já era apenas uma memória, os filhos um rapaz e uma rapariga já tinham as suas vidas, famílias e casas. E a nossa Beatriz passava os seus sessenta anos sozinha num T2 em Benfica, bem arranjadinho, cheio de plantas e livros, daquele jeito caseiro que só uma portuguesa sabe ter. Olha, nem se queixava. Ia nadar nas Piscinas Municipais, visitava o Museu de Arte Antiga, até aprendera a fazer pastéis de nata em versão gourmet, daqueles que só se vê nas montras da Baixa.

Mas a verdade é que, por mais ocupada que andasse, faltava-lhe companhia. Alguém com quem comentar as notícias, refilar do trânsito, ou simplesmente ver uma telenovela ao lado num silêncio bom.

Foi quando apareceu o Sr. Joaquim dos Santos. Parecia saído de um filme antigo da RTP Memória. Cruza caminho com ela num baile sénior em Campo de Ourique. Ele, todo alinhadinho, camisas bem passadas, bigode arranjado, convida-a para um slow, sem tropeçar-lhe nos pés (milagre!), e aquela noite encheu-a de corações no rosto, como há muito não tinha.

O homem já tinha 67 anos, cabelo grisalho, ar de senhor respeitador de antigamente. Trabalhador de engenharia, viúvo também, morava com a filha e família em Alvalade.

Ó Beatriz, é uma senhora de mão cheia dizia ele, à porta dela. Não há assim muitas já nos dias de hoje.

A coisa avançou rápido, mas de maneira castiça: passeios pelo Jardim da Estrela, cafés em esplanadas, gelados na Ribeira, aquelas conversas longas ao telefone à moda antiga. O Joaquim era um amigo querido, nunca lamentava maleitas, nunca pediu esmolas isso, para a Beatriz, valia ouro.

Lá pelo fim do mês, veio o convite que ela esperava, nervosa e vaidosa: jantar em casa dele, na presença da filha.

A minha filha, Matilde, anda mortinha por lhe pôr a vista em cima segredou Joaquim. Falei-lhe tanto de si! Venha cá jantar, vai ver que vai ser bonito.

Beatriz parecia uma miúda de liceu: lavou cabelo, vestiu o melhor vestido, perfume a preceito.

Chega ao prédio antigo em Alvalade, cheio de pé direito alto, cheirinho a livros, aquela sensação de história e um leve nervosinho no ar.

A porta abriu-se e aparece Matilde. Trinta anos teria, mas o ar era de quem traz o mundo às costas robusta, queixo altivo, olhar de quem avalia peixe fresco na praça.

Boa noite, disse ela, seca, sem meio sorriso sequer. Entre. O meu pai está para ali, a ver qual gravata leva, já vai na terceira hora.

Beatriz entregou-lhe o bolo de laranja que fez desde manhã. Matilde apanhou aquilo como se fosse um gato morto, e desapareceu na sala.

A mesa, ó amiga, estava um brinco! Copos de cristal, saladas, bacalhau no forno via-se que houve esforço. Joaquim saiu do quarto, abençoado de tão contente, fez logo sala à Beatriz:

Sente-se ao pé de mim, menina. Matilde, serve à senhora o arroz de pato!

Ao início, conversa normal: tempo, preços do supermercado, futebol. Matilde quase só mastigava (devagar!), lançando olhares de raio-X à Beatriz.

Beatriz começou a sentir-se uma mercadoria em leilão.

Já pro meio do jantar, quando estavam no chá, Matilde pousa o talher, limpa a boca e, de repente, crava os olhos nela:

Dona Beatriz, diga-me, a sua casa é de quê?

A Beatriz engasgou-se, tossiu o chá. Aquela pergunta caiu como um tijolo. Estava a espera de tudo, menos disso.

Peço desculpa? devolveu, incrédula.

A sua casa repetiu a Matilde, fria. É de sua propriedade? Qual a área? Fica em que bairro? E é em que andar?

O Joaquim ficou minúsculo, só olhava para a chávena como se ali estivesse o segredo da vida.

Bem… é um T2 em Benfica respondeu Beatriz, atrapalhada. Mas isso tem que ver com o quê?

Matilde cruzou os braços, recostou-se, e respondeu como quem fala de orçamentos:

Com tudo. Não queiramos andas com romantismos. Temos de ser claros. Quero saber como se vive.

Como assim? Beatriz olhou para o pai dela, mas Joaquim preferiu continuar a estudar a tolha porque parecia encontrar nas rendas ali algum mistério cósmico.

As condições, minha senhora. O meu pai vai ficar ao seu cuidado, quero garantir que vai ser bem tratado, que o bairro é sossegado, centro de saúde a jeito. O meu pai precisa de descanso e comida saudável.

Beatriz pousou a chavena, fez barulho de propósito.

Mas ao meu cuidado? Quem é que disse que eu queria isso?

A Matilde, pasmada, levantou as sobrancelhas:

Como não? Veio a jantar connosco. O meu pai não fala de outra coisa. São um casal, faz sentido viverem juntos, não?

Está bem, mas um mês para se mudar é coisa pouca. E onde é que está escrito que o seu pai tem de ir para minha casa?

Ora essa! começou ela, numa de check-list. Em nossa casa somos quatro, mais os meus dois miúdos, aquilo é uma algazarra. O meu pai precisa de sossego. A sua casa é só para si, ideal portanto.

Falava como quem deixa o gato na vizinha para as férias.

Pensei que ia ficar contente continuava ela Um homem em casa, companhia, ainda ajuda com os arranjos. E eu respiro um pouco: menos sopa para fazer, menos roupa, menos trabalhos de casa.

O meu pai é um senhor calmo, só precisa de repouso, a reforma dele ninguém lhe toca. E ainda lhe sobra dinheiro.

Beatriz olhou então para Joaquim:

Ó Joaquim e tu que dizes? Achas mesmo que sou um depósito para facilitar a vida à Matilde?

Ele só suspirou, olhos de cão triste:

Oh Beatriz ela fica preocupada. Fica tudo mais fácil assim.

Por dentro, a Beatriz fervia. Ela achava que ia viver uma história de romance mas afinal era só uma entrevista para cuidadora não paga.

Pronto, olha obrigada pelo jantar, estava ótimo disse ela, erguendo-se.

Mas já vai? Matilde franziu o sobrolho. Ainda não combinámos nada. Quando é que o meu pai leva as coisas? Ele só traz a poltrona dele, não custa nada!

Beatriz olhou bem ela nos olhos:

Desculpe Matilde, eu procuro homem para ser feliz, não para resolver os problemas domésticos de ninguém. Não sou lar de idosos.

E ao Joaquim:

E tu, já agora, devias saber que quem se deixa arrumar pela filha assim também não serve para mim.

Mas Beatriz começou o Joaquim, mas Matilde logo o calou:

Já chega, pai! Não faltam mulheres sozinhas por aí, outras vão querer!

A Beatriz saiu dali a abanar, mal apertou o casaco, tão nervosa que estava. E lá de dentro ainda ouvia a Matilde:

Eu bem dizia, só querem é diversão e dinheiro, nenhuma quer responsabilidades. Olhe, vou ligar à Dona Otília do 5º andar, está mortinha pelo meu pai!

E Beatriz foi apanhar o metro, a pensar: Ainda bem que isto ficou já claro, assim não perco nem tempo nem afeto.

O problema das casas, como dizia a minha avó, estraga muita gente. Os filhos querem viver descansados, mandam o pai para uma senhora boa. É prático, dá jeito mas não é vida.

E quantos aceitam, por medo de ficar sós? É pena. Diz-me tu, achas que a Beatriz fez bem em ir-se embora? Era de ter pena do Joaquim, ou estava mesmo na altura de dizer basta?

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