Casei-me com uma mulher divorciada de 41 anos com uma filha. O meu pai dizia: “Pensa bem, Máximo.” Dois anos depois percebi — ele tinha razão. Eis o que me aconteceu…

Casei-me com uma mulher divorciada de 41 anos, que já tinha uma filha. O meu pai avisou-me: “Tem juízo, Afonso”. Só ao fim de dois anos percebi ele tinha mesmo razão. Eis o que me aconteceu

Tenho trinta e quatro anos. Há dois anos casei-me com Rosalina ela tinha quarenta e um, um divórcio às costas, e uma filha de oito anos chamada Guiomar. Lembro-me ainda da voz do meu pai naquela manhã enevoada na cozinha, a olhar-me nos olhos, sem rodeios:

Afonso, pensa bem. Uma mulher com uma filha de outro não é uma família simples. Vais entrar no meio de uma história que não te pertence. Não esperes que estejam todos à tua espera de braços abertos.

Puxei de um sorriso cansado e disse-lhe:

Ó pai, deixa lá isso. Amamo-nos verdadeiramente. A Guiomar é uma miúda tranquila, não vai haver problemas em dar-me bem com ela. Vai correr tudo bem.

O meu pai encolheu os ombros e abanou a cabeça:

Olha, depois não digas que não te avisei.

Ignorando a sua voz cheia de maresia e saudade, atirei-me de olhos fechados ao que acreditei ser o começo de algo genuíno. Pensei que seríamos uma família aos tropeções, mas verdadeira, como um filme francês passado num bairro de Lisboa: imperfeita, mas calorosa.

Estava enganado.

O primeiro mês enquanto as ilusões ainda dançam

Casámos em Junho. Fui viver para a casa da Rosalina um típico apartamento T2 nos Olivais, sem luxos, acolhedor, cheirando a café ao acordar. A Guiomar vivia connosco, e o pai biológico dela, Arlindo, um rosto sumido mas presente, pagava a pensão de alimentos e vinha buscá-la um fim de semana por mês.

De início tentei criar pontes: propus jogos de tabuleiro, ajudava nos TPC, combinei idas ao cinema, tardes de parque e até tentei aprender os gostos dela. A Guiomar aceitava uma vez, rejeitava três, respondia em palavras de pedra, e olhava-me sempre como se eu fosse um estranho, mantinha-me à distância como quem se protege de um vento frio.

Rosalina susurrava à noite, já sem maquilhagem nos olhos:

Dá-lhe tempo, Afonso. Ainda está a ajustar-se.

Esperei. Mas os dias passavam e o tal ajuste parecia cada vez mais remoto, como um país estrangeiro. A tensão só aumentava.

Quando eu fazia o jantar, a Guiomar torcia o nariz: Não gosto disto. Se ligava a televisão: Desliga, não quero ouvir!. Se abraçava Rosalina na cozinha, logo vinha um apelo: Mãe, anda comigo para a sala.

Rosalina defendia sempre a filha:

Oh Afonso, não leves a mal. É só uma criança.

Não levava a mal, mas percebia cada vez mais: naquela casa era uma presença a mais. Nem chefe de família, nem companheiro a sério só um figurante de telenovela.

A gota de água quando pagava por quem não era meu

Três meses depois, vieram as conversas sobre dinheiro. Rosalina trabalhava numa clínica privada, ganhava uns mil euros. Eu era engenheiro numa fábrica, ganhava uns três mil. Juntava-se a pensão que o Arlindo mandava. Mas os gastos só disparavam. Agora era preciso farda nova para a Guiomar. Depois ballet. Depois explicadora de inglês. Agora um telemóvel novo os colegas dela já têm todos.

Rosalina dizia sempre de mansinho, como quem não quer discussão:

Tu percebes, Afonso, para a menina isto é importante, não te importas de ajudar, pois não?

Ajudava. Todos os meses metade do meu vencimento sumia na Guiomar. O resto em supermercado, contas da EDP, arranjos de canalização. No fim, ficava sem ver tostão.

Um dia, tentei sugerir:

Rosalina, que tal repartirmos isto mais equilibrado? Também podes colaborar um pouco mais

Ficou com cara fechada:

Não sou eu que ganho três mil euros por mês. E durante oito anos criei a Guiomar sozinha. Sabias para o que vinhas quando te casaste.

Sabia. Só não pensei que ia aguentar isto sozinho.

E quem havia de aguentar? O pai dela? Ele manda o que pode de vez em quando, só isso. Agora és tu o padrasto, tens é de ajudar.

Aquela palavra tens é de foi como um abanão. Ali percebi: não estava ali pelo que sentia. Fui promovido a função. A almofada financeira invisível.

O regresso do ex-marido o verdadeiro protagonista

Meio ano depois do casamento, apareceu o Arlindo: quarenta e cinco anos, empresário das reparações, com carro novo, sorriso largo. Trazia bicicleta e montes de brinquedos para a Guiomar.

Ela correu a abraçá-lo, pendurou-se no pescoço dele e nem olhou para trás. Rosalina sorria-lhe, doce, com olhos menos opacos do que os que fazia para mim. Eu fiquei a olhar à varanda, como quem não pertencesse ali.

O Arlindo veio até mim, deu-me uma palmada nas costas:

Então, Afonso, está a correr bem? Bom homem, assumires assim a responsabilidade.

Assenti, sem saber se devia rir ou fugir.

Cuida bem delas, está bem? Eu, com o trabalho, sabes como é. Mas vejo que fazes tudo.

Ele foi-se embora e Rosalina ficou em estado de graça. Senti-me uma sombra na cozinha. Perguntei tarde à noite:

Rosalina, porque é que o Arlindo anda a atrasar a pensão? Há dois meses não transfere nada.

Encolheu os ombros:

Está com problemas no negócio. Mais tarde paga.

Mas para a bicicleta e bonecas teve dinheiro…

Ela olhou para mim como se eu fosse pó:

Afonso, tem juízo. É pai dela, pode dar presentes.

Mas não devia antes pagar o que deve?

Discutimos. A Guiomar ouviu, chorou. No fim, fui eu o mau da fita traumatizei a criança.

O fim: quando ser obrigado me desfez

Na primavera, aconteceu o desfecho. Era aniversário da mãe da Rosalina. Após alguma ginjinha, ela sentou-se ao meu lado e disse:

Ouve, rapaz, homem que é homem protege a mulher e a criança. Assumiste um compromisso, agora leva-o até ao fim.

Perdi o controlo ali mesmo, diante de todos:

Eu não devo nada a ninguém! A Guiomar tem pai, que seja ele a assumir alguma coisa!

O silêncio caiu sobre a sala. Rosalina ficou lívida. Guiomar desatou a chorar. A sogra apertou os lábios:

Devíamos era nunca ter-te deixado entrar, rapaz.

Rosalina levantou-se de rompante, pegou na filha pela mão:

Vamos embora. Para casa da minha mãe. Preciso pensar.

Uma semana depois chegaram cartas: divórcio. Pedidos: compensação pelo carro comprado em conjunto, e pensão para a Guiomar até aos dezoito anos como se eu fosse padrasto por lei.

O advogado foi taxativo:

Se provarem que sustentaste a miúda, podes mesmo ser obrigado a pagar pensão.

Sentei-me no meu carro, liguei ao meu pai:

Pai desculpa. Tinhas razão.

Ó filho não quero dizer bem te avisei. Agora aprende. Levanta a cabeça e continua.

O que ficou só lamento não ter ouvido

O tribunal arrasta-se. Já pus o carro à venda para liquidar as contas. Rosalina vai buscar a parte dela. E talvez fique ainda de pagar pensão.

Se estou arrependido? Sim. Não do casamento do erro de meter-me numa história que não era minha. Do que mais lamento é não ter ouvido o meu pai quando falou com aquela sabedoria que só os velhos pescadores têm.

Nem toda a mulher divorciada é problema. Mas se ela vê em ti uma carteira e a filha te olha como inimigo, foge logo. Não aches que o tempo tudo cura.

Acreditei e paguei com dois anos da minha vida e metade do meu património.

Um homem como eu devia mesmo pagar pela filha de outro, só porque casou-se com a mãe? Ou devia ter isso claro desde o início?

Será que uma mulher que procura apoio financeiro ainda procura um parceiro ou só estabilidade para o ninho?

No fim de contas: se um homem casa-se com uma mulher divorciada com filha, deve ele sustentar a criança como um pai, ou devíamos todos ser honestos e admitir que não é uma obrigação, mas uma escolha?

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Casei-me com uma mulher divorciada de 41 anos com uma filha. O meu pai dizia: “Pensa bem, Máximo.” Dois anos depois percebi — ele tinha razão. Eis o que me aconteceu…