Casei com uma mulher divorciada aos 41 anos, com uma filha. O meu pai avisou: “Pensa bem, Francisco”. Só dois anos depois percebi que ele tinha razão. Queres saber o que aconteceu comigo?
Olha, eu tinha 34 anos na altura. Dois anos antes, casei-me com a Paula, que tinha 41. Ela já tinha passado por um divórcio e tinha a Carlota, uma filha de oito anos. Logo após dar a notícia do casamento, fui à cozinha com o meu pai ele não foi de rodeios:
Ó Francisco, pensa bem no que vais fazer. Uma mulher com uma filha de outro não é só criar uma família. Tu entras numa vida que já vinha de trás. E não tens a certeza se alguém lá queria que entrasses.
Eu ri e sacudi o assunto com a mão:
Deixa lá isso, pai. Nós apaixonámo-nos. A Carlota é uma miúda porreira, vamo-nos dar bem. Vai tudo correr bem.
Ele só abanou a cabeça:
Depois não digas que não avisei.
Nem queria ouvir. Achava que comigo e com a Paula tudo era de verdade. Que íamos construir uma família, que a miúda me ia aceitar, e que as coisas iam ser como nos filmes sem ser perfeito, mas com jeito e calor.
Enganei-me.
O primeiro mês, ainda na ilusão
Casámos em junho. Mudei-me para o apartamento da Paula nada de especial, um T2 nos subúrbios de Lisboa, simples mas acolhedor. A Carlota vivia connosco. O pai dela pagava pensão de alimentos e levava-a um fim de semana por mês.
Desde o início tentei criar ligação. Sugeria jogos de tabuleiro, ajudava nos trabalhos de casa, convidei-as a ir ao cinema. A Carlota ora aceitava, ora virava costas, respondia pouco, sempre desconfiada, a manter distância.
A Paula tentava acalmar-me:
Dá-lhe tempo, Francisco. Ela está a habituar-se.
Tentei esperar. Mas as semanas passavam e o habituar-se cada vez mais distante pior, a tensão aumentava.
Se fazia o jantar: Isso não como. Se ligava a TV: Desliga, está-me a incomodar. Bastava abraçar a Paula e logo se ouvia: Mãe, vamos embora daqui.
E a Paula, invariavelmente do lado da filha:
Não leves a mal, Francisco. Ela é só uma criança.
Não levava. Mas sentia-me cada vez mais um estranho naquela casa. Nem dono, nem igual mais um figurante.
O momento em que percebi que pagava por uma filha que não era minha… e ainda era o “mau da fita”
Ao fim de três meses, o dinheiro tornou-se tema. A Paula trabalhava numa clínica, ganhava para aí mil e duzentos euros. Eu, engenheiro numa fábrica, recebia uns três mil. Mais a pensão que o ex-marido dava.
O problema? Os gastos disparavam. Fardas para a escola da Carlota, aulas de dança, explicadora de inglês, depois ainda precisava de um telemóvel novo.
A Paula, sempre meiga:
Francisco, compreendes que a miúda precisa disto. Não te importas de ajudar, pois não?
Fui ajudando, mês após mês. Metade do meu ordenado ia para despesas da Carlota. O resto? Compras, contas da luz, arranjos cá de casa. Ao fim do mês, zero.
Um dia, tentei sugerir uma partilha:
Paula, se calhar devíamos dividir melhor as despesas. Também podias contribuir com um pouco mais.
Ela não gostou:
Francisco, o meu ordenado é baixo. E criei a Carlota sozinha durante oito anos. Sabias ao que vinhas quando casaste comigo.
Sabia, mas não pensei que ficasse tudo em cima de mim.
E quem devia aguentar? O pai dela? Ele paga a pensão e já está. Tu és o padrasto, tens obrigação de ajudar.
A palavra obrigação bateu-me como um estalo. Percebi ali: eu estava ali não por amor, nem por ser necessário era o garante, o suporte do dinheiro.
Quando entrou o ex-marido ficou claro quem mandava ali
Meio ano depois do casamento, apareceu o ex, o Nuno. Quarenta e cinco anos, empresário, carro topo de gama, sempre seguro de si. Chega cá a casa, traz à Carlota uma bicicleta nova e para aí umas dez bonecas.
A miúda delirava. Agarrou-se a ele, beijava-o. A Paula a olhar para ele com um sorriso doce, quase ternurento. Eu, encostado à porta, não era da família. Era o porteiro!
O Nuno cumprimentou-me com entusiasmo:
Então Francisco, a manter a casa em ordem? Bom homem, assumiste a responsabilidade.
Assenti, sem saber o que dizer.
Lá toma conta delas, que eu trabalho muito e nem sempre posso vir. Mas vejo que desenrascas-te bem.
Ele foi-se embora. A Paula, radiante a noite toda. Eu fiquei na cozinha a pensar: “O que é que estou a fazer aqui?”
Num dia, já farto, perguntei:
Paula, porque é que o Nuno anda a falhar a pensão? Já lá vão dois meses sem dinheiro.
Ela desvalorizou:
Tem tido problemas no negócio. Depois compensa.
Mas para bicicletas e bonecas arranjou dinheiro.
Ela olhou-me séria:
Francisco, não comeces. É a filha dele, pode dar-lhe o que quiser.
Mas não devia também pagar a pensão?
Discutimos. A Carlota ouviu tudo, chorou. No fim, fui eu o culpado por traumatizar a criança.
O ponto sem retorno quando já só era obrigação
Na primavera, deu-se o desfecho. Estávamso no aniversário da mãe da Paula. A minha sogra já com uns copos, aproximou-se:
Francisco, tu és homem! Tens de perceber: a Paula precisa de apoio e a Carlota de um pai. Assumiste a responsabilidade, agora leva até ao fim.
Perdi a cabeça, ali mesmo:
Eu não devo nada a ninguém! A Carlota tem pai o Nuno! Que ele assuma o papel, não eu!
Silêncio absoluto. A Paula pálida. A miúda chorava. A sogra seca:
Para isto é que te aceitámos na família?
A Paula levantou-se, pegou na Carlota:
Vamos para casa da minha mãe. Precisamos pensar.
Uma semana depois, veio a papelada. A Paula pediu o divórcio. Exigiu metade do carro e pensão para a Carlota até aos 18 anos como padrasto de facto.
O advogado foi direto:
Francisco, se provarem que sustentaste a miúda, podes ser obrigado a pagar pensão.
Ali, no carro, liguei ao meu pai:
Pai, desculpa. Tinhas razão.
Filho, não te vou dizer bem te avisei. Aprende a lição e segue em frente. Vais conseguir.
O que aprendi e do que me arrependo
Agora o tribunal está a tratar do divórcio. Vou vender o carro para resolver os bens. A Paula há-de receber a parte dela. E talvez ainda fique a pagar pensão.
Arrependido? Sim. Não do casamento. Arrependi-me de não ter ouvido o meu pai. De ter tentado salvar uma história alheia e perdido a minha.
Nem toda a mulher divorciada procura dinheiro, mas se ela quer só apoio financeiro e se a filha te vê como inimigo foge. Logo de início. Não penses que melhora.
Eu esperei Custou-me dois anos de vida e metade do que era meu.
E agora? Achas que um homem deve sentir-se obrigado a criar o filho de outro, ou é só uma escolha?
E a mulher, tem direito a esperar esse apoio, ou é apenas aproveitar-se?
Enfim, se te cruzas com uma mulher divorciada com filha cuidado, amigo. Cada caso é um caso, mas há decisões que mudam a vida. E às vezes, mais vale escutar quem te quer bem, antes de mergulhares sem colete.






