CASAMENTO POR CONVENIÊNCIA
Senhor António, posso falar consigo? à porta do gabinete surgiu a cabeça loira de Leonor. Habitualmente difícil e barulhenta, a jovem hoje mostrava-se, de forma suspeita, educada e serena.
O que é que queres? o homem afastou-se da secretária e lançou um olhar severo à enteada.
Tenho um grande pedido para lhe fazer, Leonor não esperou sequer por um convite para entrar. Passou a fronteira do gabinete com atrevimento, fechou a porta atrás de si e sentou-se em frente ao homem atónito.
Nem penses! Não te vou aumentar o ordenado! disse António, com firmeza, quase como se já soubesse ao que a jovem vinha. Nem peças! Não tens cumprido nada do que te compete. Chegas sempre atrasada, falhas prazos, dificultas a vida a mim e aos outros. Já te avisei várias vezes, Leonor, que tens de crescer. O teu comportamento e os conflitos com os colegas são de mais! António já tinha tido várias conversas com a enteada sobre a incapacidade dela se responsabilizar. Nunca gostou das intrigas que levantava contra os colegas ou do seu feitio conflituoso.
Durante meses, pensou em despedir a jovem problemática, mas faltava-lhe coragem. Leonor era filha da mulher que mais amou na vida. Conheceu Helena há quinze anos. Casaram-se e foram felizes enquanto puderam, até que a doença a levou. Helena morreu há dois anos, e agora António tinha pena da enteada impulsiva que, tanto em aparência como em feitio, lhe lembrava a esposa.
Quanto ao ordenado, já percebi tudo há muito, Leonor bufou, descontente. Não venho falar disso.
Então de que é? António arqueou uma sobrancelha, interessado, e inclinou-se para a frente.
Senhor António o senhor sabe como custou perder a minha mãe. Era a única pessoa neste mundo que realmente me amava e apoiava
E por isso davas-lhe cabo dos nervos dia sim, dia não, não era? interrompeu António, franzindo o sobrolho. Lembrava-se bem da relação entre Helena e Leonor. Amava muito a filha, mas nunca conseguiu controlá-la. Mas conta lá, o que queres realmente? Não tenho tempo para rodeios.
Gostava de saber se me pode ajudar financeiramente. Quero tentar o meu próprio negócio, mas preciso de dinheiro para formação.
Nem pensar. António cortou logo a hipótese. Com a tua postura, não ias aprender nada, quanto mais ter um negócio. Já te disse mil vezes: Leonor, está na altura de crescer! Mas nunca mudas.
Juro-lhe, se me ajudar a começar, prometo que mudo de vida. Estou cansada desta instabilidade, quero ser como as outras pessoas: trabalhar, construir uma carreira, casar e ter filhos
Hum, António, céptico, analisou a enteada. Tens alguém? Um namorado?
Nem por isso, Leonor encolheu os ombros. Se tivesse, nem estava aqui. Com um parceiro, tudo é mais fácil.
Isso é verdade, mas há parceiros para tudo António tamborilou com os dedos na mesa, nervoso, como se hesitasse em dizer algo. Ouve, tenho uma proposta para te fazer Pode resolver a tua vida.
Proposta? Leonor ficou intrigada. Não percebeu logo.
Dou-te o dinheiro, mas com uma condição, António sorriu misteriosamente e recostou-se na cadeira.
Que condição? Leonor ficou alerta. Nem nos seus piores pesadelos imaginava do que se tratava.
Casa comigo e terás tudo o que sempre quiseste, declarou António, entrelaçando as mãos e lançando-lhe um olhar sério.
Casar consigo?! Leonor ficou sem fala, depois engasgou-se numa gargalhada. O senhor só pode estar a brincar!
Não estou a brincar, António respondeu sem um sorriso. Ficou claro que falava a sério. Somos ambos adultos. Sei que posso ser mais velho, mas podemos ser felizes.
Felizes? O senhor podia ser meu pai! Porquê eu? Leonor explodiu. António tinha quarenta e cinco anos, mantinha-se bem, mas ela nunca o vira como homem. Além do mais, não compreendia como, entre tantas mulheres, o padrasto escolheria logo ela.
Deves saber que quero expandir o negócio e firmar um contrato com uma grande empresa, não sabes? António percebeu o espanto da jovem e decidiu explicar. O parceiro exige que esteja casado. Consideram que um homem de família inspira mais confiança.
Mas porquê eu? Não pode casar com outra pessoa?
Em primeiro lugar, conhecemo-nos há muitos anos, sabes do meu respeito pela tua mãe. Em segundo, tenho a certeza que não ias andar a dizer a toda a gente que o nosso casamento é de fachada. Por fim, sei que precisas de dinheiro. Se aceitares, eu dou-te um negócio, António expôs a proposta como faria a um sócio.
Está a falar de um casamento de conveniência? Sem relações? Leonor já não parecia tão irritada.
Exatamente. E então, aceitas? perguntou António de forma objetiva.
Preciso pensar.
Pensa, António fez um gesto para a porta.
Quando Leonor saiu, António arrependeu-se momentaneamente de tudo. Sabia bem do temperamento dela. Era capaz de aceitar e, na hora da verdade, fugir. Mas a proposta estava feita, não havia volta a dar.
Leonor nunca olhara verdadeiramente para António. Também nunca o vira como pai, até porque ele nunca a adotou. Sempre foram distantes.
Mas algo mudou nela depois desta conversa. Aos poucos, começou a reparar: António era inteligente, carismático, interessante e, principalmente, era um homem de posses.
No fim, Leonor aceitou. Ficou decidido: casar-se-iam apenas pelo registo, cada um vivendo na sua casa.
Logo depois do casamento, António cumpriu tudo. Deu-lhe um apartamento espaçoso em Lisboa, disponibilizou dinheiro para investir no novo negócio, pagou a formação e garantiu estabilidade financeira.
Leonor também cumpriu a sua parte, acompanhando o marido às reuniões empresariais e mostrando-se sempre feliz ao lado dele.
A partir do casamento, Leonor abandonou completamente a sua vida desregrada. Ganhou maturidade e, com o tempo, passou a ver António de outra forma. Já não lhe parecia apenas o padrasto sério da mãe, mas alguém especial, atento, generoso e com uma presença marcante. Entendeu, finalmente, o que a mãe viu nele.
Depois de um ano, Leonor não tinha qualquer arrependimento.
Passado esse ano, decidiram divorciar-se. António já tinha assinado o contrato que precisava, não era necessário manter a fachada. Mas entretanto a ligação entre eles era diferente. António já não via Leonor como apenas a enteada conflituosa do passado e ela tinha-se habituado à presença dele de tal forma que não queria separar-se.
Obrigado, penso que agora podes continuar sozinha. Como prometido, dou-te a tua liberdade, disse António.
Tens mesmo certeza que queres o divórcio? perguntou Leonor, já à porta da conservatória.
E tu? questionou António, ao notar a sinceridade dela.
Não quero, confessou Leonor.
Nem eu, respondeu António, sorrindo antes de a abraçar. Mas se ficarmos juntos, é a sério.
Concordo.
Acabaram por não entrar na conservatória. Deram meia-volta, decididos a ficar juntos de verdade.







