Parte 1
Há muitos anos, nos recantos de Lisboa, um bilionário perdido em pensamentos avistou, certa manhã, uma menina de ar triste a chorar encostada a uma parede envelhecida. Ao pescoço, ela trazia um colar antigo, longamente desaparecido e que há anos assombrava os seus sonhos. Sobressaltado, correu até à pequena, apontando com as mãos trémulas: Onde encontraste isto?, questionou com voz embargada. A menina, Beatriz, segurou o colar com força e recuou: Não lhe toque! É do meu pai, este colar.
O homem ficou paralisado. O peito apertou-se, e por um momento pareceu-lhe que o tempo parou completamente. O colar do pai. Quem seria esta criança e como teria ela conseguido algo que, até onde sabia, era exclusivamente dele?
Anos atrás, Inês era uma jovem bela e de coração afável. Morava num pequeno quarto arrendado com a amiga de sempre, Madalena. A vida tinha-lhes sido madrasta. Inês lutava diariamente para conseguir trabalho estável e, não raro, adormecia de barriga vazia. No entanto, recusava-se a ceder ao desespero. Repetia sempre: Um dia, a minha sorte vai mudar.
Numa manhã clara e luminosa, Inês acordou com uma esperança renovada no peito. Tinha uma entrevista num conhecido hotel. Madalena deu-lhe um abraço apertado e benzeu-a, pedindo ao céu pelo seu sucesso. Vai e brilha, querida Inês. Vais conseguir este emprego.
Trajando a melhor roupa que tinha, dirigiu-se à entrevista. Respondeu a todas as perguntas e, no final, escutou o veredicto: Parabéns, o emprego é seu. Lavada numa súbita alegria, regressou a casa e desfê-la em abraços felizes.
Nessa noite, Madalena convenceu-a a celebrar: Vamos ao Bairro Alto, por favor! Hoje mereces. Só por diversão. Inês hesitou, mas acabou por aceder. Vestiram-se cuidadosamente e dirigiram-se a um bar conhecido da baixa lisboeta.
O ambiente era de risos, luzes cintilantes e música alta. Noutra parte da cidade, naquele mesmo instante, Afonso, um milionário de 33 anos, estava sozinho a chorar no carro. Tinha tudo dinheiro, prestígio, um rosto bonito mas sentia-se arrasado. O sócio traíra-o, desviando todo o capital da empresa e deixando Afonso responsável por tudo. Desorientado, entrou num bar e começou a beber, tentando aliviar a dor.
Mais tarde, os colegas ajudaram-no a subir à suite reservada por cima do bar. Mal se aguentava. Tinha os olhos vermelhos e o pensamento nublado.
Cá em baixo, Inês, mal vestida de negro, começou a sentir-se mal. Horas antes tomara comprimidos fortes para uma dor de cabeça, e agora a fraqueza tomava conta dela. Avisou Madalena: Preciso de me deitar, sinto-me tonta.
Subiu, então, à procura de onde descansar. Encontrou uma porta entreaberta, julgou o quarto desocupado, deitou-se na cama e adormeceu imediatamente, sem imaginar que estava na suite de Afonso.
Minutos depois, Afonso entrou, embriagado, e ao ver Inês na cama, achou que alguém a tivesse mandado para o consolar. Nem trocaram palavras. Na confusão, cansaço e embriaguez, tornaram-se íntimos.
Na manhã seguinte, Inês acordou com um turbilhão na cabeça. O quarto estava vazio e silencioso. O desconhecido partira. Levantou-se atordoada. Junto à almofada, repousava uma corrente de ouro, robusta e cara, gravada: A. Valente. Sem saber quem ele era, guardou o colar instintivamente. Sobre a mesa, havia ainda umas notas de euro. Envergonhada, murmurou para si: O que me aconteceu esta noite?
Vestiu-se à pressa e voltou a casa. Madalena, preocupada, abraçou-a em silêncio; Inês nada conseguiu dizer e só chorou nos braços da amiga.
Um mês depois, sentia-se cada vez mais fraca e enjoada. Foi a uma clínica do bairro. Após exames, a enfermeira sorriu-lhe docemente: Parabéns, está grávida de um mês.
O mundo deixou de rodar. O quê? murmurou Inês.
Sim, está grávida.
Completamente perdida, regressou a casa e lançou-se ao chão, chorando em desespero. Como vou cuidar desta criança, se nem sei quem é o pai? Nunca lhe cheguei a ver o rosto! Colocou a mão no ventre. Senhor, porquê eu? Não tenho dinheiro, nem família. Acabei de começar um trabalho porquê?
Madalena entrou e, vendo o seu sofrimento, ajoelhou-se ao lado: O que se passa?
Estou grávida, sussurrou Inês.
Madalena ficou estupefacta. E Inês explicou-lhe tudo a ida à festa, o mal-estar, o estranho quarto, o colar, o dinheiro. Mostrou-lhe o colar com a inscrição A. Valente.
Depois de uma longa pausa, Madalena sugeriu: Temos de voltar ao bar. Alguém há de saber algo.
No dia seguinte, voltaram ao local. À luz do dia, o bar era outro mundo. Falaram com o gerente e mostraram-lhe o colar. Ele admirou a peça, mas abanou a cabeça: Isto deve valer uma fortuna, mas nunca o vi.
Procuraram por entre os empregados, sem resultado. Desiludidas, foram embora.
Não sei quem é o teu pai, murmurou Inês ao seu ventre. Mas juro que te amo e protegerei. Hei de criar-te sozinha.
Continuou a trabalhar no hotel, mesmo disfarçando o sofrimento. Entretanto, Afonso na sua mansão continuava sem saber que perdera não só o colar, mas deixara crescer uma filha no ventre de uma jovem pobre.
Certa manhã, Afonso, aprontando-se para sair, percebeu o colar de família desaparecido. Vasculhou gavetas, revirou lençóis e questionou a empregada, Maria, mas sem sucesso. Deixou o assunto e seguiu para o escritório, alheio ao que tal objeto viria a significar.
À medida que a gravidez avançava, Inês ia ficando mais debilitada. Um dia, desmaiou enquanto limpava um quarto. O hóspede queixou-se. Chamaram-na ao gabinete do gerente. Já não precisamos dos seus serviços.
Inês regressou de cabeça baixa e chorou nos braços de Madalena. Com uma filha a caminho, o medo era imenso, mas não desistiu.
Cinco anos passaram.
Inês, já com 29 anos, sobrevivera a toda a adversidade. Depois de perder o trabalho no hotel, lavava loiça num pequeno restaurante da Graça. O ordenado era pouco, mas alimentava-a a ela e à filha, Beatriz, de 4 anos. Beatriz era espevitada e bela, com os olhos e o brilho da mãe.
Uma noite, a menina perguntou: Mãe, onde está o meu pai? Os meus amigos falam sempre dos pais deles.
O coração de Inês doeu. Pegou na corrente dourada e mostrou-lha: Este colar era do teu pai, querida. Foi tudo o que deixou.
Os olhos de Beatriz brilharam quando a mãe lho colocou ao pescoço. Não deixes ninguém tocar-lhe, sim?
Prometo, mãe.
Noutra parte da cidade, Afonso conversava com o pai, o Senhor Valente, sobre casamento. Afonso ponderava casar com Carla, a namorada ambiciosa, mas sentia sempre um vazio inexplicável. O pai recomendou-lhe: O casamento preenche-nos, filho.
Carla ansiava por ser Sra. Valente. Desabafou com a amiga Sara, lamentando o atraso do pedido. Sara admitiu ter fingido gravidez para assegurar o noivo. Tentada, Carla decidiu fazer o mesmo.
Em breve, procurou Afonso e anunciou: Vou ser mãe.
Afonso ficou em êxtase e decidiu apressar o noivado. Ignorava que a sua filha verdadeira exibia no recreio o seu colar perdido.
Numa tarde escaldante de verão, Inês adoeceu. Fraca e febril, pediu à filha para comprar remédios. A pequena Beatriz, de lágrimas nos olhos e o colar junto ao peito, caminhava pela rua quando um carro preto abrandou. Afonso, perdido em pensamentos acerca de Carla, reparou na menina e nos olhos marejados.
Parem o carro, mandou.
Aproximou-se delicadamente. Porque choras?
A minha mãe está doente. Estou a comprar remédios, respondeu ela.
Então, Afonso reconheceu o colar. Ficou petrificado. Onde arranjaste esse colar?
Não toque! respondeu Beatriz com firmeza. É do meu pai.
As mãos de Afonso tremiam. Mas quem é o teu pai?
Não sei. A mãe deu-me o colar.
Como se chama a tua mãe?
Inês.
Afonso mandou o motorista comprar a medicação e pediu à menina para o levar até casa. De mão dada com a pequena, seguiu por ruas humildes, a mente num turbilhão.
Chegando a uma casa modesta, Inês estava deitada, pálida. Olhou surpreendida ao vê-lo entrar.
Encontrei a tua filha a chorar, explicou, gentil.
Depois de garantir que Inês tomava os medicamentos, Afonso mantinha os olhos no colar. Por fim, perguntou como o tinha conseguido.
Inês relatou, nervosamente, aquele acidente há 5 anos a noite da festa, o quarto estranho, o despertar ao lado do colar, a gravidez inesperada.
Afonso ficou lívido. Esse colar era meu.
O silêncio encheu o quarto.
Estive no Bar Solar nessa noite, murmurou. Estava perdido, traído, bebi. Entrei no quarto, vi-te achei que tivesse sido tudo combinado A voz falhou-lhe. Não sabia quem eras.
Inês chorava baixinho. Então eras tu.
Afonso ajoelhou-se junto à criança. És minha filha, Beatriz.
Sobrecarregado de emoção, pediu a Inês uma oportunidade de cuidar delas. Nessa noite, o carro de Afonso trouxe-as para a moradia dos Valente.
Pela primeira vez, Afonso sentiu uma paz que há muito não conhecia, contemplando Inês e Beatriz sob o seu teto, em casa.






