Parte 1
Um bilionário está absorvido em pensamentos quando vê uma menina a chorar na rua. Ao pescoço da criança brilha o seu colar há muito desaparecido, uma peça que julgava perdida há anos. Corre para ela, apontando com as mãos trémulas. Onde arranjaste isto? pergunta, aflito. A menina, Matilde, agarra-se ao colar e recua. Não lhe toque! É o colar do meu pai.
O bilionário estaca. O peito dói-lhe e por um instante sente que o mundo parou. O colar do pai. Quem é esta criança? Como é que tem algo que lhe pertencia só a ele?
Anos antes, Leonor era uma jovem bonita e de coração ternurento. Partilhava um quarto alugado com a sua melhor amiga, Benedita, em Lisboa. A vida não lhes tinha sido fácil; Leonor mudava constantemente de emprego e por vezes deitava-se com fome. Ainda assim, recusava render-se ao desespero. Dizia sempre a Benedita: Um dia, a minha sorte vai mudar.
Certa manhã cheia de luz, Leonor acorda cedo e cheia de esperança. Ia a uma entrevista num hotel. Benedita abraça-a com força e deseja-lhe sorte. Vai brilhar, Leonor. Vais ver que consegues o trabalho.
Vestida com a sua melhor roupa, Leonor chega à entrevista. Depois de responder a várias perguntas, ouve: Parabéns, o lugar é seu. Entre o alívio e a alegria, depois de tantas tentativas falhadas, regressa a casa e abraça Benedita longamente.
Nessa noite, Benedita insiste em celebrar. Vamos hoje até ao Bairro Alto, sugere. Só um pouco de diversão. Mereces. Leonor hesita, mas acaba por aceitar. Vestem-se cuidadosamente e seguem para um dos bares populares da cidade.
O bar está cheio de música, luzes e risos. Noutra zona de Lisboa, naquele mesmo serão, Gonçalo, empresário de 33 anos, chora sozinho no carro. É rico, bem-sucedido, respeitado e bonito, mas está profundamente magoado. Um sócio roubara fundos da empresa e fugira, deixando Gonçalo a arcar com as consequências. Perdido de desgosto, acaba por entrar num bar e bebe demasiado, tentando afogar as mágoas.
Mais tarde, os colegas levam-no até a uma suite privada no hotel acima do bar. Mal se aguenta de pé. Os olhos estão vermelhos, os pensamentos turvos.
No andar de baixo, Leonor, de vestido preto simples, começa a sentir-se mal. Antes de sair, tinha tomado um comprimido forte para a dor de cabeça e agora sente-se tonta e fraca. Encosta-se a Benedita. Preciso de descansar. Sinto-me estranha.
Com cuidado, sobe ao andar de cima à procura de um sítio calmo. Vê a porta de um quarto entreaberta. O quarto está em silêncio. Supõe que está vazio, entra, deita-se na cama e adormece rapidamente. Não sabe que entrou no quarto de Gonçalo.
Minutos depois, Gonçalo entra cambaleante. Ao ver Leonor deitada, pensa que alguém a mandou para o reconfortar. Nenhum dos dois fala. Entre confusão, embriaguez e fadiga, tornam-se íntimos.
Na manhã seguinte, Leonor acorda com a cabeça a andar à roda. O quarto está silencioso. O homem já não está. Entre choque e medo, levanta-se. Ao lado da almofada, encontra um colar de ouro maravilhoso, com a inscrição: G. Sousa. Não sabe quem é o homem, mas, por instinto, leva o colar. Em cima da mesa vê dinheiro em notas de euro. Com lágrimas nos olhos, murmura: O que me aconteceu ontem?
Veste-se depressa e corre para casa. Benedita esperava por ela, ansiosa. Leonor mal consegue falar; apenas abraça a amiga e chora.
Um mês depois, Leonor sente-se cansada e enjoada quase todos os dias. Assustada, vai a uma clínica do bairro. Após vários exames, a enfermeira sorri-lhe docemente. Parabéns. Está grávida de um mês.
Leonor fica imóvel. Desculpe?
Sim, vai ter um bebé.
Sobrecarregada, regressa a casa e desfaz-se em lágrimas no chão. Vou ser mãe, repete. Como cuido de uma criança se não sei quem é o pai? Nem vi a cara dele.
Coloca a mão na barriga e chora. Meu Deus, porquê eu? Mal tenho dinheiro. Já não tenho pais. Acabei de arranjar trabalho. Porquê agora?
Benedita entra de rompante, vê o seu desespero e ajoelha-se junto dela. O que se passa?
Estou grávida, murmura Leonor.
Benedita fica boquiaberta. Devagar, Leonor conta-lhe tudo: a festa, o bar, a tontura, acordar num quarto estranho, o colar, o dinheiro. Mostra à amiga o colar de ouro com G. Sousa.
Depois de um longo silêncio, Benedita diz baixinho: Temos de voltar lá. Alguém conhece este colar.
Sem saber o que esperar, Leonor concorda. No dia seguinte, voltam ao bar. De dia é tudo silencioso. Falam com o gerente e mostram-lhe o colar. Ele observa e encolhe os ombros. Parece caro, mas nunca o vi.
Perguntam a empregadas e funcionários, mas ninguém sabe dar informações. Cansadas, vão embora, de cabeça baixa.
Não sei quem é o teu pai, murmura Leonor ao bebé que cresce, mas prometo amar-te e proteger-te. Vou criar-te sozinha.
Continua o trabalho no hotel, a esconder o sofrimento. Entretanto, na sua mansão, Gonçalo nem imagina que perdeu o colar e que uma criança crescia em segredo no ventre de Leonor.
Certa manhã, Gonçalo arranja-se diante do espelho e repara que falta algo. O colar de ouro gravado com o seu nome de família sumiu. Revira gavetas, procura nos lençóis e questiona a empregada, Maria, mas ninguém sabe nada. Frustrado, desiste e vai trabalhar, ignorando o quanto o colar importa.
A barriga de Leonor cresce e ela sente-se cada vez mais fraca. Andava sempre tonta e esgotada. Um dia, adormece enquanto limpava um quarto. Um hóspede queixa-se. Chamam-na ao escritório do gerente, que a despede de imediato: Está despedida.
Desfeita, Leonor volta para casa e conta tudo a Benedita. Sem rendimento e grávida, o receio aumenta. Todavia, resiste.
Passam-se 5 anos.
Leonor, agora com 29 anos, suporta provações mas sobrevive. Após perder o emprego no hotel, arranja trabalho num pequeno restaurante. O salário é pouco, mas chega para ela e para a filha, Matilde, agora com 4 anos. Matilde é esperta, tem os olhos e a inteligência da mãe.
Uma tarde, Matilde pergunta: Mamã, onde está o meu pai? Os meus amigos falam dos pais deles.
O coração de Leonor aperta-se. Vai ao fundo de uma gaveta e tira o colar de ouro. Este colar é do teu pai, diz com ternura. Foi a única coisa que deixou.
Os olhos de Matilde brilham. Leonor coloca-lhe o colar ao pescoço. Nunca deixes ninguém mexer nele, avisa.
Prometo, mamã, responde Matilde.
Do outro lado da cidade, Gonçalo conversa com o pai, Sr. Sousa, sobre casamento. Gonçalo pensa em pedir Ana Luísa em casamento, mas sente um vazio inexplicável. O pai sugere que o matrimónio pode preenchê-lo.
Ana Luísa, bonita e ambiciosa, sonha em ser a Sra. Sousa. Contando à amiga Marta da sua frustração por Gonçalo não a pedir em casamento, ouve-a admitir que fingiu uma gravidez para conseguir o seu próprio noivo. Tentada, Ana Luísa decide fazer o mesmo.
Pouco depois, visita Gonçalo e anuncia, Estou grávida.
Radiante, Gonçalo abraça-a e afirma que vão casar. Sente-se emocionado por ser pai, sem saber que a sua verdadeira filha exibe o colar dele noutra ponta da cidade.
Numa tarde quente, Leonor adoece. Fraca e com febre, manda Matilde comprar um remédio à farmácia. Matilde corre, de lágrimas nos olhos, agarrada ao colar, pela rua movimentada. Um SUV preto abranda ao pé dela. Gonçalo está lá dentro, a pensar na notícia de Ana Luísa. Mas há algo nas lágrimas da criança que o toca.
Pare o carro, ordena.
Aproxima-se de Matilde devagar. Porque choras, pequenina?
A minha mãe está doente. Vou comprar-lhe o remédio, responde.
De repente, Gonçalo repara no colar. O coração dá-lhe um salto. Onde arranjaste esse colar?
Não lhe toque, responde Matilde, de olhar firme. É do meu pai.
As mãos de Gonçalo tremem. Quem é o teu pai?
Não sei. A minha mãe deu-me.
Como se chama a tua mãe?
Leonor.
Gonçalo pede ao motorista para comprar o remédio e pede a Matilde que o leve a casa. De mão dada com ela, segue pela rua estreita e humilde, o coração aos pulos.
Chegam finalmente a uma casa modesta. Lá dentro, Leonor está deitada e fraca. Olha surpreendida para Gonçalo quando entra. Ele não a reconhece logo.
Vi a tua filha a chorar, diz em tom suave.
Depois de lhe dar o remédio, Gonçalo não consegue tirar os olhos do colar. Finalmente, pergunta onde o arranjou.
Leonor conta-lhe a noite de há 5 anos: a festa, a tontura, acordar ao lado do colar, saber que estava grávida.
Gonçalo fica lívido. Esse colar é meu.
O silêncio cai na sala.
Estive no Bairro Alto nessa noite, confessa, devagar. Estava de rastos. Quando entrei no quarto e te vi pensei A voz falha-lhe. Não percebi.
As lágrimas correm pela cara de Leonor. Então eras tu.
Gonçalo acena, carregado de remorsos. Não posso mudar o passado, mas quero compensa-las. A Matilde é minha filha.
Ajoelha-se junto da criança. Eu sou o teu pai, Matilde.
Comovida, Leonor ouve Gonçalo a implorar uma oportunidade de cuidar de ambas. Nessa noite, o SUV leva-as até à mansão Sousa.
Pela primeira vez, Gonçalo sente-se em paz ao ver Leonor e Matilde em sua casa.






