Bagagem Perdida
A mala pesava diferente do habitual.
Matilde percebe isto logo à chegada à passadeira de recolha. Os habituais doze quilos transformaram-se subitamente em algo diferente mais pesado, mais denso, com o centro de gravidade deslocado. Mas o corpo cinzento parecia igual: plástico, quatro rodas, um risco no canto esquerdo. Pegou na pega e seguiu para a saída.
O aeroporto do Porto cheirava a café e chão molhado. Lá fora, a chuva de março caía fina, longe do cenário de férias, e Matilde recordou-se de que a conferência sobre espaços verdes urbanos era, de facto, uma boa razão para voar de Lisboa ao Porto. Mas não propriamente uma razão para se sentir entusiasmada.
Trinta e um anos. Investigadora júnior num Instituto de Urbanismo, estúdio arrendado de vinte e oito metros quadrados, livros empilhados junto à parede. A mãe em Viseu ligava sempre ao domingo e perguntava o mesmo: “Então, novidades? Namorado, nada?” E Matilde respondia sempre: “Mãe, tenho muito trabalho.” Como se isso justificasse tudo.
O táxi até ao hotel demorou vinte minutos. O taxista perguntou se vinha de férias. Matilde respondeu: “Em trabalho.” Ele acenou, como se a resposta fosse a mais esperada.
O quarto revelou-se pequeno, mas limpo, com vista para uma nesga cinzenta do Atlântico. Na janela, uma flor de plástico gerânio que nunca foi gerânio. Matilde pousou a mala em cima da cama, abriu os fechos e levantou a tampa.
E parou, imóvel.
Dentro estavam roupas de homem.
Uma camisola de lã grossa verde-escura, com um aroma a folhas e relva, nada de perfumes. O tamanho? Muito maior do que o seu: ombros largos, quase uma vez e meia maior. Calças de ganga. Uns ténis dentro de um saco, tamanho quarenta e três. Carregador de telemóvel que não reconhecia. Um saquinho de sementes legenda noutra língua, qualquer coisa botânica. E um caderno. Grosso, capa de pele, elástico gasto.
Aquilo não era a sua mala. Matilde sentou-se na beira da cama, a olhar para objectos alheios. Corpo cinzento, quatro rodas, risco no mesmo canto. Mas aquela mala pertencia a outra pessoa. Alguém ficara com as suas coisas livros, o vestido do congresso, portátil com a apresentação, foto da mãe na moldura. E ela ficara com as dele.
Durante cinco minutos não fez nada, sem saber por onde começar. Depois telefonou para o aeroporto. O atendedor automático pediu-lhe que aguardasse. Matilde ficou onze minutos à espera, depois transferiram-na. Uma funcionária registou o voo, o número da etiqueta e pediu que aguardasse. Iriam contactar. Prometeram que iriam mesmo contactar.
Matilde pousou o telemóvel e voltou a olhar para a mala aberta. O caderno estava no topo, como se tivesse sido pousado ali de propósito. Capa de couro gasta, elástico frouxo.
Sabia que não podia. Mexer em pertences de outra pessoa, espreitar vida alheia, ler pensamentos alheios. É como escutar conversas atrás de portas, espreitar janelas acesas à noite. Não é correcto. Matilde levantou-se, andou no quarto, tirou água do garrafão. Bebe. Torna a olhar para o caderno.
O ombro esquerdo, sempre descaído dos anos a carregar o portátil, projectou-se sozinho para a frente. As pontas dos dedos, lisas do uso do touchpad, roçaram a capa. O couro era macio, quente.
Abriu o caderno.
***
A caligrafia era invulgar. Letras inclinadas para a esquerda, redondas, prolongadas em caudas nos p e g. Não apressada pensada. Quem assim escreve, deve falar devagar.
A primeira página não tinha data.
“Lisboa. De manhã subi a pé ao Miradouro de Santa Catarina. Cidade lá em baixo como um grande jardim meio selvagem. Árvores entre prédios, trepadeiras nas varandas. Desenhei um plátano à entrada do elevador da Bica. O tronco parecia um mapa de um país exótico: manchas claras, ilhas escuras. Estive ali três horas até enregelarem os dedos.”
Matilde virou a folha.
“Sevilha. Desenhei um baobá no jardim botânico. Não era baobá a sério era um bonsai. Mas as raízes pareciam querer fugir do vaso. Uma árvore grande em escala de criança. Será que eu sou assim?”
Sorria. Pela primeira vez naquele dia.
Folheou outra e mais outra.
As entradas sucediam-se: Barcelona, Marrakech, Guimarães, Aveiro. Sempre sobre o lugar e as árvores. A pessoa viajava, desenhava árvores e conversava com o papel. Nunca sobre hotéis, restaurantes ou monumentos. Só plantas. Arbustos, troncos, copas, raízes. No meio, esboços rápidos, certeiros, tão vivos: ramo com três folhas, raiz enrolada numa pedra.
Marrakech. No mercado, uma laranjeira cresce entre bancas. Penduraram sacos e preços nos ramos. Mas ali está ela. Calcula-se, duzentos anos. Viu mercados e mercadores desaparecerem. Desenhei como consegui. Mãos a tremer por causa do calor.
Guimarães. As glicínias pendem na Rua de Santa Maria e roçam nas cabeças de quem passa. Portugueses desviam-se. Turistas tiram fotos. Fiquei a olhar: eis uma árvore que ignora limites. Vai onde quer. Queria ser assim.
Matilde percebeu que lia havia mais de quarenta minutos. Lá fora já era noite. O som da chuva nos vidros, persistente.
Virou mais algumas folhas.
Aveiro. Entrei num antigo parque. Tílias do tamanho de três pessoas, as raízes a rasgarem o alcatrão. Houve um tempo em que ali passeava gente, agora só árvores. E eu. Desenhei uma tília. Parada, firme, nem uma folha se mexia. Pensei: assim é a lealdade. Esperar sem sair do sítio, até alguém voltar.
Percebeu: em cada entrada, o autor falava com árvores como outros falam com amigos. Francamente. As árvores eram a sua companhia. E Matilde sentiu vontade de perceber porquê.
Depois uma página que a deixou parada, a olhar a parede.
“Coimbra. Dois anos depois da separação. Catorze anos com a Marta desde os tempos do ISCTE até ao último dia. Ela disse: ‘Gostas mais das plantas do que das pessoas’. Talvez tivesse razão. Talvez nunca soube gostar de gente da forma certa. Já não acredito que vá encontrar. Não uma árvore uma pessoa. Que entenda porque desenho raízes.
Matilde fechou o caderno. Pousou-o na mesa de cabeceira. Levantou-se e ficou à janela.
A chuva não parava. O mar era escuro e plano, nem um barco à vista. Ao fundo, ouviu-se uma porta e risos vozes jovens, alegres, alheias à sua noite.
Trinta e um anos. Estúdio arrendado. Livros. Então, novidades?… nada? O último romance acabara há mais de um ano e meio, e Matilde já nem se lembrava de quando deixara de procurar. Um dia chegara do trabalho, sentara-se à mesa da cozinha e descobrira que estava bem sozinha. Ou não bem mas habituada. E o hábito substitui a felicidade, se não se pensar muito nisso.
Deu por si a arrumar cuidadosamente as coisas na mala alheia. Só então se lembrou.
A carta.
Aquela que começou a escrever no avião, por aborrecimento. O voo atrasou, ela tirou um bloco e uma caneta só para passar o tempo. Não era diário, nem nota uma parvoíce que uma adulta não devia escrever. “Querido desconhecido, gostava de encontrar…” Não acabou. Enterrou o papel no bolso da mala e esqueceu.
Agora esse papel estava na sua mala verdadeira. E um estranho ficara com tudo incluindo o esboço da sua carta.
Matilde sentou-se na cama. Estava corada.
***
De manhã, voltou a ligar para o aeroporto.
Serviço de bagagem extraviada, Fátima, a voz soa cansada, ao fundo ruído de papel de embrulho.
Ontem deixei um pedido. Voo Lisboa Porto, etiqueta número
Um minuto. Silêncio. Aqui está. O seu processo está em análise. Entramos em contacto.
Quando?
Por ordem de chegada. Três a dez dias úteis, normalmente.
Dez?
Dias úteis. Mas pode ser antes. Fique atenta.
Matilde pousou o telefone e olhou para a mala. Precisava de roupa. A conferência começava daqui a dois dias. O vestido apropriado, o portátil com o PowerPoint, os sapatos tudo na mala de um desconhecido.
Saiu para a rua. O centro comercial ficava a quinze minutos a pé. Comprou calças, camisa, roupa interior, carregador novo para o telefone. A funcionária, à caixa, comentou:
Perdeu a mala?
Trocaram. Por engano.
Aqui no Porto é frequente. As malas parecem todas iguais. Cinzentas.
Matilde acenou. Não era caso único. Reconfortou-a um pouco.
Passou numa farmácia para comprar escova e pasta de dentes, depois sentou-se numa pastelaria bebeu um galão ao balcão enquanto os lugares junto às mesas estavam ocupados por casais. No regresso, telefonou à mãe.
Já chegaste? Como está o tempo?
Chove.
E levaste guarda-chuva?
Mãe, perdi a mala.
Santo Deus. Roubaram?
Trocaram no aeroporto. Fiquei com uma que não é a minha.
A mãe ficou em silêncio. Depois disse:
Alguém anda com as tuas coisas. Que pensará dos teus livros?
Oh mãe.
Digo-o a sério. Levas sempre uma biblioteca contigo.
Matilde não mencionou o caderno com desenhos de árvores. Nem o estilo da letra. Nem a entrada de Coimbra. Só disse: Vai correr bem, mãe e desligou.
Depois, de volta ao quarto, abriu novamente a mala.
Não para o caderno. Procurava uma pista nome, contacto, qualquer pista. Vasculhou os bolsos internos. Num deles, fechado, encontrou um cartão de visita.
Tomás Ramos. Arquitectura Paisagista. Projectos, requalificação, consultoria.
E um número de telemóvel.
Matilde digitou no WhatsApp. Escreveu:
Bom dia. Parece que trocámos as malas no aeroporto do Porto. Tenho a sua. Cinzenta, com risco. Dentro está um caderno e o seu cartão. Aqui tem o meu contacto.
A resposta chegou nove minutos depois.
Olá. Só hoje abri a sua mala. Livros, um caderno, um vestido. Lamento imenso. Também estou no Porto. Podemos encontrar-nos para trocar?
Matilde leu de novo. Livros. Caderno. Vestido. Ele vira o conteúdo da sua mala.
Claro. Onde prefere?
Na esplanada Solar do Norte, na Foz. Amanhã, às dez? Levo a sua mala.
Combinado. Lá estarei.
Pousou o telefone. Voltou a pegar nele: Livros, caderno, vestido. Viu o caderno onde apontava notas para artigos. Viu a fotografia da mãe na moldura sempre consigo nas viagens.
Possivelmente, viu a carta.
Fechou os olhos. Imaginou-o sentado, talvez no seu quarto de hotel, talvez num terraço ao sol, com a sua folha nas mãos. Papel pautado, canto dobrado, caligrafia apressada. A ler frases que nunca pensou mostrar a ninguém.
Abriu os olhos. Apanhou o caderno da mesa de cabeceira e voltou à página de Coimbra.
Já não acredito que vá encontrar.
Mas ela começara a carta com querido desconhecido, gostava de encontrar. E ele agora tinha esta folha e aquele desejo, talvez tão impossível como desenhar raízes.
Coincidência. Absurda coincidência de malas iguais, do mesmo tamanho.
Ou talvez não.
Matilde sentou-se à secretária e abriu o caderno nas últimas páginas. Depois de Coimbra, ainda havia mais algumas entradas.
Braga. Primavera. A varanda parece uma selva, os vizinhos queixam-se. Conto 114 plantas. A Marta diria: És doido. Mas Marta já cá não está. Só o ficus é que ouve. O ficus nunca reclama. Companheiro ideal.
E última anotação:
Vou ao Porto. Jardim Botânico. Quero ver a árvore-do-tulipeiro dizem que tem mais de cem anos. Férias. As primeiras em dois anos que não são para trabalho. É estranho ir sem ter motivo.
Matilde fechou o caderno. Arrumou-o cuidadosamente. Fechou a mala.
Ele foi ao Porto por causa de uma árvore. Ela, por uma conferência sobre espaços verdes. Ele desenhava plantas de cidades alheias. Ela escrevia sobre devolver as plantas à cidade. Entre estas vidas, as duas malas cinzentas trocaram de mãos.
Deitou-se, mas demorou a adormecer. Pensava na estranheza da vida: trabalha-se, faz-se malas, voa-se para congressos e de repente, uma casualidade ínfima revela outra pessoa, como nenhum ano de convivência faria.
***
A esplanada Solar do Norte ficava mesmo acima do mar, entre palmeiras e candeeiros. Paredes de vidro, mesas de madeira, aroma de pão e canela. A empregada, avental com golfinhos, dispunha chávenas e pires.
Matilde chegou vinte minutos antes da hora. Não tinha pressa, apenas não conseguia ficar no quarto. Escolheu uma mesa junto à janela, colocou a mala ao lado e pediu chá. As mãos tremiam ao abrir o menu. Que disparate. Apenas ia trocar uma mala. Nada mais.
Mas havia mais: um caderno inteiro de vida alheia lida, estranho como um vizinho que se torna íntimo sem se perceber.
Reconheceu-o de imediato.
Apareceu pontualmente, mala cinzenta pela mão. Alto, casaco verde-escuro, igual à camisola da mala. Na cara e no nariz, uma marca de bronzeado, traço escuro de óculos de sol usados com frequência. Parou à porta, olhou, viu a sua mala. Aproximou-se.
Matilde? A voz calma, uma pausa antes do nome, sumida mas segura.
Sim. Tomás?
Assentiu e sentou-se de frente. Pôs a mala dela encostada à sua. Dois gémeos cinzentos.
É estranho, disse. Juro que conferi a etiqueta.
Eu também.
Devem ter trocado as etiquetas. Ou somos distraídos.
Ou as malas conspiraram.
Sorriu de lado, só o canto da boca. Matilde pensou que sorria como escrevia contido, mas genuíno.
Tenho de pedir desculpa, disse Tomás.
Porquê?
Abri a sua mala. Achei que era a minha. Depois vi os livros.
Também abri a sua. Só percebi depois.
Silêncio. Girava a colher entre os dedos. Mãos grandes, de quem trabalha na terra.
Li o seu caderno, confessou, voz baixa. Notas para artigos. Sobre jardins urbanos, praças verdes. Fiquei curioso. Não devia, mas…
Eu li o seu diário, disse Matilde.
Elevou o olhar.
Todo?
Todo.
Silêncio. Lá fora, ondas contra o paredão, um miúdo a dar pão às gaivotas.
Então sabe de Lisboa, disse Tomás.
E de Sevilha, do baobá-bonsai.
E de Aveiro.
E da tília, símbolo da lealdade.
Baixou os olhos.
E Coimbra.
Matilde acenou. Não precisava dizer mais. Ele percebeu.
Sabe sobre mim mais do que conto normalmente, disse ele.
E o Tomás sobre mim?
Silenciou. Depois, tirou do bolso da gabardine uma folha de papel pautado, dobrada. Matilde reconheceu-a logo. Aquela.
Encontrei isto na sua mala, disse ele. Li. Não devia, mas li.
Ela encarou o papel, corando.
É disparate, murmurou. Escrevi por aborrecimento, no avião.
Querido desconhecido, citou Tomás, sem ler, como se decorado: gostava de encontrar alguém com quem possa estar em silêncio. Não porque falte conversa, mas porque mesmo calados nos entendemos. Cansei-me de explicar quem sou. Queria que alguém olhasse para as minhas estantes e percebesse. Queria que alguém
Chega, pediu, baixinho.
Fica assim: Queria que alguém disse Tomás. Não acabou a frase.
Não sabia o que queria dizer.
Sei eu, respondeu. Porque teria escrito igual. Só mudava livros por árvores.
Matilde olhou-o bem: a marca de sol no nariz, as mãos grandes, os olhos calmos.
Sabe da minha mãe em Viseu, disse ela.
A foto na moldura. Bonita senhora. Parecem-se.
Da minha profissão.
Artigos sobre jardins urbanos. Sou arquitecto paisagista. Interesso-me profissionalmente e agora pessoalmente.
Sabe que estou sozinha.
Sei que veio para conferência só com um vestido. E trouxe cinco livros para quatro dias. Que guarda a fotografia da mãe na mala, não no telemóvel, porque gosta das coisas reais. Que escreve à mão, mesmo usando computador. E que escreveu uma carta para alguém que não existe.
Matilde calou-se.
Eu, continuou Tomás, desenho árvores, divorciei-me há dois anos e tenho 114 plantas na varanda porque não sei falar com pessoas de modo a ficarem. Agora já sabe.
Sei.
Então lemos a vida um do outro através das coisas. Encontrámo-nos já a conhecer-nos. Como se saltássemos os primeiros encontros e fôssemos diretos ao terceiro.
Matilde riu de surpresa, curta. Tomás também sorriu, desta vez largo.
Conheço-a melhor do que queria, brincou. E você a mim. Não é justo. Ou então é o mais honesto que já vivi.
Porque não escolhemos o que mostrar?
Exactamente. A mala é o retrato da vida. Não arrumamos para impressionar. Levamos o que precisamos. E pelas coisas percebe-se quem somos.
Matilde olhou para as duas malas alinhadas. Cinzentas, com riscos iguais.
Quer passear? perguntou Tomás. O Jardim Botânico é perto. Vim pelo tulipeiro.
Sei. É o que diz na última entrada do diário.
Sorriu. Acabou o café. Levantou-se.
Deixamos as malas aqui? apontou ela.
Que fiquem juntos. Têm muito que conversar.
Saíram. A chuva estancara de manhã. As palmeiras mexiam ao vento e Matilde lembrou-se da tília: firmeza, espera, lealdade.
Conte-me algo que não tenha no diário, pediu ela.
Tenho pavor a pombos, revelou ele, sério.
Pombos?
Em menino, um entrou-me na janela, pousou-me na cabeça. Fiquei traumatizado.
Matilde soltou uma gargalhada. Ele sorriu, cúmplice.
E você? devolveu. Algo ausente da mala.
Falo com os meus livros. Em voz alta. Reclamo quando o autor escreve disparates.
E quem ganha?
O autor. Mas insisto.
Caminharam junto ao mar, uma estranheza boa de andar ao lado de alguém que se conhece pelos rabiscos, notas e árvores, mas que nunca se viu. Era como ler um livro e conhecer o autor no fim.
No diário escreveu que deixou de acreditar que vai encontrar, lembrou ela.
Lembro.
Achou a minha mala.
E você a minha.
Ficaram em silêncio, mas era o silêncio bom, o tal em que se entende tudo.
O Jardim Botânico aparecia logo ao virar da esquina grade de ferro, copas elevadas.
O tulipeiro é aquele, apontou Tomás. Vê? Tronco grosso como um pilar. Centenário. Já viveu três guerras, duas revoluções.
E continua em pé.
E a florir, todos os maios.
Pegou num caderninho, não o da mala, um outro pequeno. Lápis. Começou a desenhar.
Matilde observou a mão. Linhas firmes e rápidas. Tronco, ramos, contorno das folhas. O sol incidia no rosto dele.
Posso perguntar? disse ela.
Força.
Quando leu a minha carta, o que pensou?
Sem levantar a cabeça:
Pensei que queria saber como acabava.
Eu própria não sabia o fim da frase.
Talvez agora saiba.
Matilde não respondeu. Mas também não se afastou. Luzinhas de sol pingavam-lhe na cara como sardas.
Três horas. Percorreram caminhos, pararam nos troncos. Tomás falava, não como guia, mas como quem apresenta amigos antigos. Desenhava, Matilde partilhava lutas no trabalho transformar pátios de cimento em jardins, convencer autarcas, um velhote teimoso que plantou vinte e três macieiras junto ao prédio e travou guerra com a administração.
Vinte e três macieiras? admirou Tomás.
Cada uma com nome de mulher. Dizia que lhe faziam melhor companhia que os vizinhos.
Percebo-o, sorriu Tomás. Tenho um ficus chamado Amadeu. Sobreviveu à separação.
Amadeu?
Tem cara disso. Sério, torto, mas resistente.
Matilde riu. Em todo o último ano, ninguém lhe falara assim, sem esforço, sem preocupação. Apenas dois desconhecidos a falar de árvores com nome próprio.
Sentaram-se num banco sob o tulipeiro, meio metro entre os dois. Ninguém avançou.
Tem conferência amanhã, lembrou ele.
Sim. Às doze é a minha vez.
Tema?
Importância dos espaços verdes para o bem-estar psicológico. Ninguém liga muito.
Para mim é interessante.
Matilde olhou-o.
Quer ir?
A conferências técnicas?
A uma aborrecida sobre árvores.
Passei a vida em reuniões aborrecidas de árvores. É a minha praia.
Ambos riram. Como numa entrada do diário: simples, honesto. Nada de querer impressionar.
Voltaram devagar. Tomás contou histórias de Braga, da varanda selva, de vizinha a regar as plantas, do pós-divórcio lento e dos voos comprados ao acaso.
Já desenhava?
Sempre desenhei. Mas em Lisboa comecei a escrever. Até então, só linhas. A certa altura, surgiram as palavras.
Matilde percebeu. Chega um momento em que o que se sente precisa de ser expresso em letras, não só em desenhos.
À porta do Solar do Norte ficaram os dois. As malas esperavam. Cada um pegou na sua finalmente, a certa.
***
À noite, Matilde tomou chá frio, sentada no quarto. A mala ali, sua, finalmente, com livros, vestido de conferência, computador. Abriu-a, confirmou tudo: carregador, fotos, caderno, livros. Só não estava a folha da carta.
Na cadeira ao lado, um desenho.
Tomás entregou-lho antes de se despedirem. Uma folha bem arrancada do caderno. Ali, uma árvore. Não um tulipeiro, nem baobá. Uma invenção dele: copa densa, raízes a ramificar como raios.
O que é? perguntou Matilde.
Uma árvore para uma cidade sem árvores, disse Tomás. Inventeia. Ainda não existe, mas você trabalha em urbanismo. Pode plantá-la.
E desapareceu, sem se voltar. Matilde notou que ele hesitou no canto, quase a olhar para trás.
Com o desenho nas mãos, ela percebeu: talvez, o verdadeiro silêncio partilhado seja com quem o silêncio significa mais que as palavras. E esse homem ali acabara de desaparecer da vista, com a sua carta no bolso.
Matilde pegou no telemóvel.
Obrigada pela árvore. Vou plantá-la.
A resposta chegou logo.
Falo a sério. Se fizer um projeto de espaço verde, envia-me para rever como cientista?
Sim.
Então preciso da sua morada em Lisboa, para enviar por correio. Ainda gosto de mandar tudo em papel.
Matilde sorriu. Escreveu o endereço. E rematou:
Nota: a caixa do correio é pequena. Projetos grandes, terá de entregar pessoalmente.
Resposta quase imediata:
Ficou combinado.
Pousou o telemóvel. Na parede ao lado, o som abafado da televisão de outro quarto. Uma noite trivial de hotel mas agora, tudo parecia diferente. Matilde deu-se conta de que estava a sorrir sem razão. Ou antes, havia razão mas demasiado absurda para contar à mãe. Troquei de mala e conheci alguém. Parece tirado de um mau filme.
Abriu a mala, tirou uma folha lisa do bolso lateral, o mesmo que guardara a carta inacabada. A que agora estava com Tomás.
Matilde sentou-se à secretária. Escreveu:
Querido desconhecido, gostava de encontrar alguém com quem possa estar em silêncio. Não por faltar conversa, mas porque mesmo sem falar nos entendemos. Cansei de explicar quem sou. Queria que alguém olhasse para as minhas estantes e percebesse. Queria que alguém
Parou. Olhou para o desenho da árvore, já pendurado na parede.
E completou:
Tomás.
Dobrou cuidadosamente a folha e guardou no bolso da mala. Como se fechasse o círculo.
Lá fora, o mar batia suave. O Porto cheirava a terra molhada e a uma primavera ainda por vir, mas prometida já pelo céu limpo sobre o oceano.
Desligou a luz. Amanhã, seria dia de conferência, no vestido passado dois dias noutra mala, a falar de espaços verdes. Na audiência, talvez um homem que desenha árvores para cidades onde faltam árvores.
Depois de amanhã, passeio. Ele prometeu mostrar-lhe o carvalhal na outra margem do rio. No outono, as folhas fazem um corredor dourado, escrevera ele. Vai gostar, como cientista. E não só.
Depois, Lisboa. E Braga. Cidades, vidas separadas. Mas agora, entre elas, uma planta desenhada, um endereço de correio, uma carta finalmente escrita.
A mala contra a parede, cinzenta, com um risco no canto esquerdo. Igual a ontem. Mas o mundo à sua volta já não o mesmo.
A bagagem encontra-se.







