— Avó Milú, está sozinha? — Estou, Leandro, estou sozinha. — E o seu filho? O meu pai diz que isso é trabalho de homem. — O meu filho… ele está na cidade a tratar de coisas grandes, Leandro. Ele lá…

Avó Matilde, está sozinha? Sozinha, Tiaguinho, sozinha. E o seu filho? O meu pai diz que isso é trabalho de homem O meu filho ele está a tratar de coisas importantes na cidade, Tiaguinho. Ele faz falta lá…

Matilde Fernandes estava sentada nos degraus gastos do alpendre, apertando um telemóvel antigo e já bem riscado entre as mãos calejadas.

O cheiro a flores de laranjeira e à terra húmida pairava no ar, mas ela mal dava por isso.

Ainda sentia nos ouvidos, como se ecoasse um trovão, a voz do filho:

Oh mãe, mas que canteiros? Tenho apresentações importantes, reuniões de negócios, mil coisas para resolver! Estás presa ao passado com essas batatas. Para quê tanto esforço? Compramos-te um saco no Pingo Doce, deixa-te disso

Matilde pousou devagar o telemóvel no bolso do avental. As mãos, marcadas por anos de trabalho, tremiam como ramos batidos pelo vento. Diante da casa, já se via a marcação da horta pequenas estacas e cordel a dividir a terra em quadrados perfeitos.

Ali ao lado, a enxada, já pronta desde a noite anterior, esperava pelo dono.

Mas o dono não veio.

Então, Matilde, o teu menino da cidade está atarefado outra vez? O comentário da vizinha Fausta veio tão rápido que Matilde até estremeceu.

A Fausta, como sempre, espreitava por cima da cerca, apoiada na enxada.

Isso não te diz respeito, Fausta, respondeu Matilde tentando pôr firmeza na voz. O Rodrigo tem um cargo importante. É chefe de departamento, as pessoas contam com ele. Não é só arrancar ervas daninhas.

Pois, pois, chefe sim resmungou Fausta. Mas a mãe é que fica com a terra por cultivar! Bem me lembro de ti a arrastares o Rodrigo miúdo por esses canteiros, quando o Américo se foi esta terra salvou-vos. Se não fossem as batatas e a cabra, não sei o que teria sido. Agora anda de fato e gravata, mas não quer sujar as mãos

Matilde ficou calada. As palavras da Fausta eram como sal numa ferida antiga.

Ela lembrava-se bem das noites frias, de vender legumes no mercado, de guardar cada cêntimo para poder comprar ao Rodrigo um fato digno para o baile final de liceu. Sempre se orgulhou dele do sucesso, do apartamento em Lisboa, da esposa, Inês, que cheirava a perfume caro e nunca pisava a terra com as suas sandálias finas.

Mas naquele dia o orgulho parecia-lhe amargo.

Na manhã seguinte, Matilde levantou-se ainda antes do sol dispersar o nevoeiro do rio.

Vestiu as botas de borracha, atou o lenço à cabeça e saiu para a horta.

A terra estava pesada, cheia de água da chuvada da véspera. Cada vez que espetava a enxada era uma dor surda nas costas. Passaram-se duas horas.

Só tinha cavado dois canteiros quando o coração começou a bater-lhe no peito como um pardal em pânico. Sentou-se mesmo ali, na terra, a ofegar. O mundo à volta rodava devagar, tingido de cinzento.

Avó Matilde, está mesmo sozinha? Do outro lado da cerca, apareceu Tiago, o neto da Fausta, de férias na aldeia. Trazia na mão uma rede para apanhar borboletas, a olhar com curiosidade para ela.

Sozinha, Tiaguinho, sozinha. A terra não espera, limpou o suor da testa com a mão suja de terra.

E o seu filho? O meu pai diz que cavar é trabalho para homens. Ele já ajudou o tio Manuel, já ficou tudo pronto lá em casa.

O meu filho… Ele faz coisas importantes na cidade, Tiago. Lá é que faz falta.

O rapaz encolheu os ombros e foi atrás de uma borboleta, enquanto Matilde se levantava devagar. Parar não podia.

Não se tratava apenas de batatas era tudo o que ainda lhe dava algum sentido, algum fio à vida.

Se não lançasse a semente, era sinal de velhice, sinal que o laço à terra e à família finalmente se tinha partido.

Ao anoitecer, já tinha virado praticamente metade do terreno.

As mãos estavam cheias de calos, as pernas pesadas como pedras. Ao chegar a casa, deixou-se cair no sofá sem forças para fazer um chá.

O telemóvel, esse, estava silencioso.

A Fausta, apesar de língua afiada, tinha bom coração. Notando que a casa de Matilde estava às escuras, não aguentou entrou para ver como estava.

Encontrou-a à beira do desmaio.

Ó Matilde, mas o que é isto? Vais matar-te à força de trabalhar! gritou, remexendo no armário de medicamentos. Olha que estás branca como farinha!

Passa, só estou cansada, balbuciou Matilde.

Mas Fausta nem queria ouvir.

Pegou no telemóvel, procurou o número do Rodrigo.

Rodrigo! Olha que é a Fausta, a vizinha. Larga esses papéis e vem cá, se ainda queres ver a tua mãe Ela quase desmaiou na horta, coitada!

O Rodrigo apareceu de madrugada.

Os faróis do carro reluzente cortaram o silêncio da aldeia, até os cães ficaram assustados.

Entrou pela casa adentro, nem tirou os sapatos.

Mãe! O que se passa? Porquê não chamaste o médico?

Matilde, que já se sentia melhor depois dos comprimidos da Fausta, olhou-o sem muita expressão.

Para que vieste? Não tens as tuas reuniões, os negócios? Aqui são só canteiros, nada importante.

Rodrigo deixou-se cair numa cadeira, a suar dentro da camisa branca impecável e gravata, agora apertada demais.

Mãe, pensei que era só um capricho. Podias pagar a alguém, eu sempre poderia dar dinheiro.

Dinheiro? pela primeira vez naquela noite, olhou-o nos olhos. Rodrigo, esta terra não tem preço. Foi a nossa salvação. Quando o teu pai se foi, estes canteiros é que nos deram de comer. Não venhas cá só para cavar, vinha para sentires como a terra respira, para te lembrares das tuas raízes. É bom que tenhas sucesso, fico feliz. Mas perdeste o pé, filho. Uma árvore sem raízes seca, mesmo plantada em vaso de ouro

O sol nasceu e encontrou Rodrigo no alpendre.

Olhou para o campo, para as árvores de fruto, as mesmas que tinha ajudado a plantar em miúdo.

Entrou, procurou no sótão a roupa de trabalho do pai, cuidadosamente dobrada por Matilde.

Cheirava a pó e a tempo, mas era verdadeira.

Matilde acordou com um barulho estranho.

Espreitou à janela e ficou boquiaberta.

No meio da horta estava o filho, de calças sujas e enxada na mão.

Estava a cavar. Atabalhoado, cansado, mas tão teimoso como era em miúdo.

Rodrigo! O que fazes aí? Vais sujar-te, ainda tens reunião amanhã! exclamou, saindo para o quintal.

Ele parou, limpou a testa no braço, deixando uma marca de terra escura.

Que esperem as reuniões, mãe. A terra não espera. Tinhas razão esqueci-me do que era importante. Pensava que era o mesmo comprar as batatas ou plantá-las. Estava enganado.

Quando o sol se pôs, o terreno estava pronto.

Rodrigo ficou no meio dos canteiros, a sentir todos os músculos doridos mas, ao mesmo tempo, uma estranha paz.

Os sapatos caros estavam irremediavelmente manchados de terra, mas o coração tranquilo.

Amanhã plantamos as batatas, disse ao entrar em casa. A Inês também vem, já lhe liguei. Vai aprender o que é a verdadeira vida.

Matilde serviu-lhe um copo de leite fresco, em silêncio.

Via no filho, no gestor bem-sucedido, o mesmo rapaz que um dia prometeu protegê-la de tudo.

Nas semanas seguintes, a horta começou a vestir-se de verde.

O Rodrigo passou a vir todos os fins-de-semana.

Ao princípio, a Inês não sabia como lidar com aquilo. Depois rendeu-se descobriu que trabalhar na terra acalma mais do que tanta terapia na cidade.

Matilde espreitava-os da janela. O coração já não doía.

Percebeu: às vezes é preciso ir ao limite para os nossos se lembrarem de nos ouvir.

Aquele mês de Maio foi um recomeço.

A horta deixou de ser símbolo de pobreza ou passado. Passou a ser sinal de família de cuidado, trabalho e chão partilhado.

No Outono, enquanto celebravam a colheita, Rodrigo segurou na mão uma batata grande, ainda suja.

Sabes mãe disse isto é o que mais valeu a pena alguma vez ter nas mãos. Não pelo dinheiro, mas pelos serões juntos, aqui ao lado.

Matilde fez que sim com a cabeça.

Agora, sabia que o filho nunca ia esquecer o caminho de volta.

Porque a estrada estava feita não só de palavras, mas do respeito pela terra e por aquela mulher que lhe deu a vida.

O sol punha-se devagar, a vestir a aldeia de ouro.

Lá fora, na horta, tudo estava em paz. Finalmente, cada um estava onde devia estar.

Sabes, também sentes esse chamamento da terra, das plantas que cuidas com as tuas próprias mãos?

Aquela sensação de sermos donos de um pequeno reino, onde vemos nascer uma vida nova?

Porque será que os mais velhos ficam tanto com a terra, e os mais jovens se afastam?

A vida não pede, às vezes, para pararmos e lembrarmos as nossas raízes, ali mesmo, de pés na terra do nosso povo?

E, afinal, será que os pais têm o direito de cobrar aos filhos quando estes não ajudam?

Fica a pensar.

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