Avó Margarida, está sozinha?
Sozinha, Tiaguinho, sozinha.
E o seu filho? O meu pai diz que estas são coisas de homem.
O meu filho ele anda a resolver grandes assuntos na cidade, Tiaguinho. Ele faz falta lá…
Margarida Fernandes estava sentada nos degraus de madeira da sua velha casa, apertando um telemóvel já bem gasto entre os dedos.
O ar estava carregado do perfume das flores de cerejeira e da terra molhada, mas a senhora nem dava conta.
Ainda ouvia, como um trovão, a voz do filho ao telefone:
Ó mãe, isso das hortas já não faz sentido nenhum! Estou cheio de reuniões, tenho um contrato importante para fechar, a vida na cidade não pára! Para quê sujar as mãos na terra? Compramos batatas no supermercado, não se preocupe com isso
Calmamente, guardou o telemóvel no bolso do avental.
As mãos, marcadas por rugas profundas, tremiam levemente. No quintal, já se viam as estacas com cordel, dividindo a horta em quadrados perfeitos.
A enxada esperava pacientemente ao lado do barracão.
Mas o dono não veio.
Então, Margarida, o teu senhor doutor está muito ocupado outra vez? A voz da vizinha Hortência apareceu do nada, assustando Margarida.
Hortência, como de costume, aproveitava-se do muro baixo para saber das novidades, apoiada na sua enxada.
Não é contigo, Hortência, respondeu Margarida, tentando parecer firme. O Rui tem um cargo importante, gere muita gente. Isto não é só arrancar ervas como fazes no teu quintal.
Pois, dirige, dirige E à mãe, quem a ajuda? Lembras-te de quando andavas com ele ao colo, depois do Manuel falecer? Foi esta horta que vos deu de comer. Se não fosse a terra e a vaca, não sei como tinham sobrevivido. E agora, de gravata, já não quer saber da terra…
Margarida não respondeu.
Cada palavra de Hortência doía-lhe por dentro como sal numa ferida.
Lembrava-se de tudo: dos Invernos frios em que vendia legumes no mercado, dos tostões que guardava para comprar um fato ao Rui para o baile de finalistas.
Tinha orgulho dele, do sucesso, da casa em Lisboa, da mulher Leonor sempre elegante, cheirando a perfume caro, que nunca quis sujar os sapatos na terra.
Mas hoje, o orgulho parecia-lhe amargo como fel.
No dia seguinte, Margarida levantou-se antes do nascer do sol. Calçou as botas de borracha, atou o lenço à cabeça e foi para o campo.
A terra estava pesada e húmida depois da chuva noturna. Cada vez que cravava a enxada no chão, sentia uma dor surda nas costas.
Duas horas depois, já tinham passado apenas duas filas da horta.
O coração batia rápido, como um pássaro preso.
Sentou-se no chão, a respirar com dificuldade; o mundo parecia cinzento e desfocado.
Avó Margarida, está sozinha?! O pequeno Tiago, neto da vizinha, apareceu junto ao portão com a sua rede para apanhar borboletas, olhando curioso para a senhora cansada.
Sozinha, Tiaguinho. A terra não espera, respondeu, limpando o suor da testa com as mãos sujas.
E o seu filho? O meu pai diz que trabalhar na horta é coisa de homem. Ele está a ajudar o tio Manel, já lavraram tudo.
O meu Rui faz trabalhos importantes lá na cidade, Tiago. Faz mais falta lá do que aqui.
O rapaz deu de ombros e foi atrás de uma borboleta. Margarida ergueu-se com esforço.
Não podia parar.
Já não era só pela batata era a última ligação à vida e à família.
Se desistisse da horta, teria de aceitar que era velha, inútil, e que já nada a ligava à sua terra e aos seus.
Ao fim da tarde, já tinha cavado metade do terreno.
As mãos cheias de calos, as pernas pesadas como chumbo.
Ao chegar a casa, caiu no sofá, sem forças para preparar um chá.
O telemóvel permanecia mudo.
Apesar de língua afiada, Hortência tinha um bom coração. Estranhando que não acendesse a luz em casa de Margarida ao anoitecer, correu a ver.
Encontrou a vizinha semi-inconsciente.
Oh Margarida, o que fazes a ti própria?! gritou, correndo ao armário para buscar medicamentos. Estás branca como cal.
Passa, foi só o cansaço murmurou Margarida.
Mas Hortência não lhe deu ouvidos.
Pegou no telemóvel e encontrou o número do Rui.
Olá, Rui? Daqui fala Hortência, a vizinha. Larga os teus papéis e vem ao campo se queres ver a tua mãe! Está à morte de cansaço por causa daquela terra!
Rui veio a correr durante a noite.
O brilho dos faróis do seu carro novo cortou a escuridão e assustou os cães do caminho.
Entrou em casa a correr, nem tirou os sapatos.
Mãe, o que lhe aconteceu? Por que não chamou o médico?
Margarida, agora mais aliviada após os comprimidos que a vizinha lhe deu, olhou para o filho, distante.
Porque vieste? Não tens lá reuniões importantes?… Aqui só há terra, nada de especial.
Rui sentou-se, sentindo o calor subir-lhe à face.
A camisa engomada parecia-lhe agora demasiado apertada, a gravata sufocante.
Mãe, pensei que era só um capricho. Podia pagar, contratavas alguém dava-te dinheiro, era mais fácil
Dinheiro? Margarida fixou nele o olhar pela primeira vez naquela noite. Rui, esta horta não tem preço. Quando o teu pai morreu, esta terra era a nossa esperança. Só queria que viesses, não para cavar, mas para estares aqui. Para sentires o cheiro da terra, para lembrares de onde vieste. Fico feliz pelo teu sucesso, mas perdeste as raízes. E uma árvore sem raízes seca, por muito ouro que tenha à volta.
O sol nasceu e encontrou Rui sentado nos degraus.
Olhava para a horta a meio caminho, para as árvores que em tempos ajudou a plantar com o pai.
Entrou em casa, encontrou a velha roupa de trabalho do pai que a mãe ainda guardava.
Cheirava a tempo e memórias, mas era real.
De manhã, Margarida acordou com um som diferente.
Foi à janela e ficou sem palavras.
Rui estava na horta.
De calças sujas, com a enxada nas mãos.
Cavava, com dificuldade, sem prática mas com uma teimosia e humildade que ela não via há anos.
Rui! Que fazes? Vais sujar-te todo e amanhã tens um compromisso! gritou, saindo porta fora.
Ele parou, limpou a testa com o antebraço e deixou escorrer um risco de terra.
Que esperem as reuniões, mãe. A terra não espera. Tinhas razão esqueci o que era importante. Pensei que comprar batatas era igual a colhê-las. Enganei-me.
Ao cair da noite, o terreno estava pronto.
Rui sentia cada músculo doer, mas havia uma paz nova no seu coração.
Os sapatos caros ficaram estragados para sempre, mas não se importou.
Amanhã plantamos as batatas, disse ao entrar em casa. A Leonor também vem. Convenci-a. Vai aprender como sabe o cheiro da vida.
Margarida serviu-lhe um copo de leite fresco, em silêncio.
Olhava para o filho tão crescido e respeitado e via nele o menino que prometeu protegê-la de tudo um dia.
Semanas passaram, a horta encheu-se de verde.
Rui passou a voltar todos os fins de semana.
Leonor, no início pouco à vontade, aprendeu a gostar daqueles dias no campo.
Descobriu que trabalhar na terra acalma a alma mais do que qualquer terapia cara.
Margarida via-os trabalhar juntos da janela, e o orgulho já não lhe feria o peito.
Compreendeu que, por vezes, só no limite os que amamos ouvem finalmente a nossa voz.
Maio tornou-se o começo de uma nova etapa.
As hortas deixaram de ser símbolo de pobreza ou passado.
Tornaram-se símbolo de família de raízes, de cuidado, de chão comum.
Quando, no Outono, recolheram a colheita, Rui pegou numa grande batata suja de terra e sorriu:
Sabes, mãe, isto vale mais que tudo o que já tive. Não por dinheiro, mas pelos serões juntos aqui.
Margarida assentiu.
Agora sabia: o filho não perderia nunca o caminho de volta.
Porque esse caminho agora era tecido de respeito pela terra e pela mãe que lhe deu a vida.
O sol pôs-se, dourando a aldeia.
Na horta reinava paz. Cada um no seu lugar.
E você, também sente este apego à horta, às plantas que cultiva com as próprias mãos?
Como se fosse um pequeno reino, onde é rei e assiste ao nascer de nova vida que si próprio cuida.
Mas porque será que os pais se apegam tanto à horta, e os filhos se esquecem das raízes?
Não será que a alma descansa e o coração se recorda de quem somos, quando pisamos a terra do nosso sangue?
E será justo pedir aos filhos adultos para voltarem a ajudar?
Talvez o mais importante seja nunca esquecer a terra que nos fez crescer porque, sem raízes, nem o mais alto ramo encontra céu.






