Todas as terças-feiras
Hoje foi um dia estranho. Apressei-me no metro, apertando nas mãos um saco de plástico vazio, símbolo da minha frustração. Duas horas de voltas pelas lojas no Colombo e nem uma ideia decente de presente para a afilhada, filha da minha amiga. A Mia, já com dez anos, trocou os unicórnios por estrelas e planetas agora só quer saber de astronomia. E eu, claro, não consegui encontrar um telescópio de jeito, dentro de um orçamento meio apertado. O dinheiro não abunda neste mês, e cem euros por um telescópio decente é pedir demasiado.
O final da tarde já se fazia sentir nos subterrâneos de Lisboa. A exaustão típica do entardecer arrastava-se no ar enquanto eu me desviava das multidões para alcançar as escadas rolantes. Foi nessa altura que, mesmo sem querer, captei um retalho de conversa atrás de mim um fragmento emotivo, vibrante, que se destacou no ruído da estação.
…nunca pensei vê-lo outra vez, acredita, mas agora todas as terças pega nela ao fim do dia. Ele próprio. Vem no carro dele e vão juntos ao jardim das Amoreiras, nem imaginas
Imóvel, deixei-me ir pelas escadas, virando-me discretamente. A rapariga uma mulher vibrante num casaco vermelho vivo, olhos brilhantes de emoção; a amiga, escutando atenta e solidária. Todas as terças-feiras.
Houve um tempo em que também eu tinha um dia assim. Não era a segunda aflita, nem a sexta esperançosa. Era a terça-feira, o eixo em torno do qual girava o meu mundo.
Todas as terças, às cinco em ponto, largava a escola onde ensinava Português e Literatura, e corria, quase em voo, até ao outro lado da cidade. Era no Conservatório, no velho prédio de azulejos perto do Príncipe Real, que ia buscar o Martim o meu sobrinho, não filho. O Martim, com sete anos feitos, sempre tão sério e reservado, abraçado à sua viola maior do que ele. Era filho do meu irmão, o António, que morreu tão subitamente num acidente de viação, já lá vão três anos.
Nos primeiros tempos depois da tragédia, aquelas terças-feiras serviam de salvação. Para o Martim, fechado no silêncio e na sua dor miúda. Para a mãe dele, a Olga, caída numa apatia profunda. E também para mim. A sentir-me pilar, âncora, a pegar nas migalhas da nossa vida e tentar colar outra vez, com o equilíbrio possível de quem ampara um dia de cada vez.
Lembro-me de tudo. De como o Martim saía da aula, cabeça baixa, a fugir aos olhares. De como pegava na caixa da viola, silencioso, e me entregava. De como fazíamos juntos o percurso até ao metro, e eu falava de qualquer coisa duma piada dos meus alunos, do corvo atrevido que roubou uma merenda de pão com chouriço no recreio.
Uma tarde, em novembro, com chuva a rodos, o Martim saiu-se com um: Tia Rita, o pai também detestava chuva? Respondi-lhe, contida de dor e ternura: Odiava. Corria sempre para o primeiro abrigo! Então, ele agarrou-me a mão. Forte, como se fosse já homem crescido. Não para ser guiado, mas como quem tenta fixar uma presença prestes a desfazer-se. Não era apenas a minha mão era o pai, a memória viva. E nesse aperto cabia toda a saudade e toda a certeza: o pai existiu, corria à chuva, não estava apenas num retrato ou num suspiro longínquo. Estava ali, naquele novembro, naquele passeio de árvores despidas.
Três anos da minha vida se dividiram em antes e depois. E o grande marco desses dias era sempre a terça. Os outros dias passavam, tudo se ia preparando para esse momento: o sumo de maçã que o Martim adorava, uma aplicação com desenhos animados para o caso do metro estar insuportável, temas novos para as nossas conversas.
Com o tempo, a Olga começou lentamente a erguer-se de novo. Arranjou trabalho. E um novo amor. Decidiu recomeçar fora de Lisboa, em Braga, longe de todos os fantasmas. Ajudei-os a empacotar a casa, protegi a viola do Martim num estojo macio, e despedi-me no comboio, sem chorar, dizendo: Escreve, liga. Estou sempre aqui!
Os primeiros tempos, o Martim ligava-me todas as terças, pontualmente às seis. E eu voltava a ser a Tia Rita, rápida nos recados, perguntas e conselhos: a escola, a viola, os amigos novos. Era um fio ténue, a atravessar os quilómetros.
Depressa as chamadas passaram a quinzenais. O Martim cresceu, vieram mais atividades, os trabalhos de casa e os videojogos da moda. Tia, desculpa, na terça passada esqueci-me, tive teste de Matemática, dizia pelo WhatsApp, e eu: Está bem, querido, como correu? As terças passaram de chamadas esperadas a mensagens que às vezes se faziam esperar e quando não vinham, era eu quem escrevia.
Depois, só em datas especiais: aniversário, Natal. A voz dele mais confiante, as respostas mais contidas, de adolescente Tudo bem, Vai-se andando, Estou a estudar. O padrasto, Sérgio, revelou-se boa pessoa. Nunca quis tomar o lugar do António, mas esteve sempre lá. Era o que interessava.
Há pouco nasceu-lhe a irmã, a Carolina. Na foto do Instagram, o Martim segura-a, desajeitado mas terno. A vida, com a sua mescla de dor e maravilha, avança. Espalha bálsamo sobre as cicatrizes, ocupa os dias com tarefas novas, leva-nos a sonhar novamente. Para mim, restou uma pequena cada vez mais pequena janela, a da tia de antigamente.
Hoje, neste vaivém ruidoso do metro, aquela frase roubada ao acaso todas as terças-feiras não me pareceu um lamento nem inveja, mas antes um eco. Um aceno à Rita de há três anos, que carregava uma responsabilidade e um amor quase insuportáveis, que foi farol, pilar, o elo vital no dia de um menino perdido. Eu era precisa. Na verdade, sabia bem quem era e o que fazia: existia pela presença certa no momento certo.
A mulher do casaco vermelho ali também tinha a sua dor e os ajustes necessários entre passado e presente. Mas aquele compasso todas as terças é uma língua universal. A da presença, que diz: Estou aqui. Conta comigo. És importante agora. Esse idioma que já fui fluente a falar, e agora quase esqueci.
O comboio avançou, vi o meu reflexo na janela escura e endireitei as costas.
Quando cheguei à minha estação, já tinha decidido: amanhã encomendo dois telescópios idênticos económicos, mas bons. Um para a Mia, outro para o Martim, com entrega direta em casa dele em Braga. Assim que o receber, escrevo-lhe: Martim, é para podermos ver o mesmo céu, mesmo à distância. Que dizes, terça-feira às seis, se estiver limpo, olhamos juntos para a Ursa Maior? Vou pôr o despertador. Um beijinho, da tia Rita.
Subi o último lance de escadas para o frio e a brisa fresca de Lisboa. A próxima terça já não estava vazia voltava a ser marcada. Não como um dever, mas como um pacto bom, entre pessoas ligadas por memórias, gratidão e aquela linha delicada, forte, do amor de família.
A vida segue. No meu calendário ainda restam dias que podem ser dedicados. Dias de pequenos milagres como olhar sincronizado ao céu. Para memórias que finalmente não magoam, mas aquecem. Para um amor que aprendeu a atravessar distâncias e assim ficou mais baixo, mais sábio e impossível de quebrar.







