Tenho dois filhos adultos e não recebo qualquer ajuda deles. Eles aparecem cá em casa como se fosse um retiro de férias, prontos apenas para descansar. E eu, parece que sou empregada: recebo-os, dou-lhes casa, alimentos, limpo e ainda cuido deles. Nem um gesto de auxílio me oferecem, quanto mais uns euros.
O meu filho chama-se Duarte e tem dois filhos. A minha filha, Leonor, tem um filho por enquanto. Vivo numa casa antiga na aldeia, por isso vem cá toda a família muitas vezes. Mas, de ano para ano, sinto que estas visitas se tornam cada vez mais exigentes.
Sempre foi tradição na família portuguesa receber os filhos e netos com mesa farta e muito conforto. A minha mãe, Maria das Dores, também assim fazia: quando eu e a minha irmã éramos novas, percebíamos o quanto lhe custava atender tudo sozinha. Por isso, dávamos uma mãolavávamos a loiça, cuidávamos dos miúdos, fazíamos limpezas profundas e até íamos comprar o pão e outros mantimentos. Ela nunca nos pediu nada; fazíamos porque víamos o seu esforço.
Agora, com os meus filhos, mal limpam o prato que usaram. Ginete e nora, são convidados, não lhes cobro nada. Mas entristece-me ver que a Leonor e o Duarte não têm noção de como podiam ajudar. Chegam, comem, vêem televisão ou deixam os netos comigo para irem passear. Fico a limpar toda a casa, a preparar almoços e jantares, a lavar a loiça e a arrumar tudo, numa casa que fica cheia de gente e ainda com crianças para cuidar.
Cada vez me custa mais. As costas doem-me, já não tenho força para ficar tanto tempo atrás dos tachos e panelas. Mas a minha educação tradicional não me permite virar costas ou fazer-me de indiferente. Aqui, em Portugal, há o costume de receber como deve ser. Passo a semana exausta, depois do fim de semana com a casa cheia.
Bem sei que preciso de ajuda, mas custa-me pedir. Tenho receio de que os meus filhos se sintam ofendidos ou pensem que não me sinto satisfeita com eles. Claro que os amo, mas é difícil carregar este peso todo sozinha. Há tarefas que já não consigo fazer, só que não tenho coragem de pedir. E ainda penso que, como trabalham, não devem ter de trabalhar mais para mim.
Sinto-me de mãos atadas e desgastada. A educação antiga diz que devemos aguentar e não pedir ajuda, que quem tem mãos, não espera por outros. Fui ensinada a ser independente e a não incomodar ninguém. Mas sofro por dentro, sem conseguir superar este sentimento. Não me parece um drama, mas também não é justo. Não entendo como os meus filhos não percebem que já não tenho vinte anos nem energia infinita. Ninguém se magoa, mas fico magoada por dentro.
Talvez um dia compreendam que só juntos conseguimos realmente viver bem. Na família, a ajuda partilhada não é vergonha, antes é demonstração de amor e respeito. E, por vezes, pedir não diminui ninguématé aproxima. Assim é que se vive em paz e com coração.







