As circunstâncias não acontecem por acaso. Elas são criadas pelas pessoas. Você criou o momento em q…

As circunstâncias não acontecem por acaso. São criadas pelas pessoas. Foste tu quem criou as condições para abandonar um ser vivo na rua. E agora queres mudá-las, porque te convém.

Recordo aquele inverno em Lisboa, há muitos anos. As ruas vestidas de cinzento e um frio que entrava até aos ossos. Na altura, eu, Alexandre Costa, voltava para casa, à noite, da fábrica do Barreiro. Tudo era tão monótono que parecia coberto por uma manta de tédio. E ao passar em frente à mercearia do senhor Joaquim, vi um cão sentado. Rafeiro. Castanho avermelhado, o pelo desgrenhado. Os olhos ah, esses olhos! pareciam de uma criança perdida.

Que queres tu aqui? resmunguei, mas acabei por parar.

O cão ergueu o focinho e olhou-me. Não pediu nada, apenas esperou, imóvel.

Deve esperar pelos donos pensei, voltando a caminhar.

No outro dia, porém lá estava ele, igualzinho, no mesmo local. E no dia seguinte também. Como se aquele recanto já fosse casa. Comecei a reparar: alguns vizinhos passavam, uns atiravam-lhe um pouco de broa, outros davam bocados de chouriço.

Porque ficas aqui? perguntei uma tarde, ajoelhando ao seu lado. Onde estão os teus donos?

O cão aproximou-se devagar, tocou-me na perna com o focinho.

Fiquei paralisado. Há quanto tempo não fazia uma festa a alguém? Desde a separação já lá iam três anos. O apartamento vazio. Só trabalho, televisão, frigorífico.

Marília, minha querida murmurei, sem saber de onde vinha o nome.

No dia seguinte, levei-lhe salsichas.

Ao fim de uma semana, publiquei um anúncio na Internet: Cão encontrado. Procura-se dono.

Ninguém ligou.

Passou um mês. Numa noite, regressando da empresa onde trabalhava por turnos às vezes ficava o dia e a noite inteira a supervisionar máquinas encontrei uma multidão frente à mercearia.

Que aconteceu? perguntei à senhora Amélia, do prédio ao lado.

Foi aquele cão foi atropelado. O que andou aqui este mês inteiro.

Senti o chão fugir-me dos pés.

Onde está ele?

Levaram-no à clínica veterinária da Avenida de República… Mas pedem rios de dinheiro E para um cão sem dono, quem se importa?

Não disse nada. Voltei-me e corri.

Na clínica, o veterinário abanou a cabeça:

Tem fraturas graves, hemorragias internas. O tratamento é muito caro. Não sei se vai sobreviver.

Faça tudo o que possível disse eu. Pago o que for preciso.

Quando a Marília teve alta, levei-a para casa.

E, pela primeira vez em três anos, o meu apartamento encheu-se de vida.

A rotina mudou. Radicalmente.

Já não acordava com o despertador, mas com um focinho húmido a roçar-me na mão. Era a Marília a dizer: Hora de levantar, dono. E eu levantava-me. A sorrir.

Antes, a manhã começava com café e jornais. Agora, com passeios no Jardim da Estrela.

Vamos, menina, apanhar ar fresco? perguntava-lhe, e Marília abanava a cauda com alegria.

Na veterinária, tratei de todos os papéis. Passaporte, vacinas, tudo em ordem. Era oficialmente minha cadela. Fotografei cada documento nunca se sabe.

No trabalho, os colegas estranhavam:

Alexandre, parece que rejuvenesces-te! Estás cheio de energia!

Era verdade. Sentia-me útil. Pela primeira vez em anos.

Marília revelou-se inteligente, de uma perspicácia surpreendente. Percebia o que eu dizia, às vezes sem precisar de palavras. Quando eu atrasava, esperava-me à porta, com um olhar capaz de dizer: Preocupei-me contigo.

Ao entardecer, andávamos juntos no parque. Fosse chuva ou sol. Eu contava-lhe sobre trabalho, sobre a vida. Patético? Talvez. Mas ela escutava com atenção; fitava-me, por vezes gemendo baixinho como resposta.

Sabes, Marília, achava que ser sozinho era mais fácil. Ninguém incomoda, ninguém exige nada. Mas afinal acariciei-lhe a cabeça afinal, era só medo de voltar a amar.

Os vizinhos acostumaram-se a nós. Dona Teresa do rés-do-chão guardava sempre um osso para ela.

É uma cadela tão bonita Vê-se que é estimada.

Meses passaram.

Cheguei a considerar criar uma página nas redes sociais, para publicar as fotos da Marília. Tinha uma beleza curiosa, o pelo acobreado alumiado pelo sol.

Então, numa dessas tardes de passeio, aconteceu algo inesperado.

Marília farejava arbustos, eu distraído no banco, folheando as notícias no telemóvel.

Dulcineia! Dulcineia!

Levantei a cabeça. Aproximava-se uma mulher de aspecto elegante, uns trinta e poucos anos, loura, bem vestida.

Marília encolheu-se, deitou as orelhas para trás.

Desculpe, a senhora está enganada. Esta é a minha cadela expliquei.

A mulher travou, colocou mãos nas ancas.

Que dizes? Eu não sou cega! Essa é a minha Dulcineia! Perdi-a há meio ano!

O quê?

Exactamente! Ela fugiu do prédio, procurei-a por toda a parte! E tu encontraste, mas ficaste com ela!

O chão pareceu tremer debaixo de mim.

Espere. Como assim perdida? Eu recolhi-a ao pé da mercearia. Esteve um mês ali, sem donos!

Estava ali porque se perdeu! Eu adoro-a! Comprei-a para mim e para o meu marido, é de raça!

De raça? olhei para Marília. Mas é rafeira.

É uma mestiça! Custou-me muito dinheiro!

Levantei-me. Marília encostou-se às minhas pernas.

Se for sua, mostre os documentos.

Que documentos?

O passaporte veterinário. Certificados das vacinas. O que tiver.

A mulher hesitou:

Estão em casa! Mas não interessa reconheço-a! Dulcineia, vem cá!

Marília não se moveu.

Dulcineia! Anda já aqui!

Ela encostou-se ainda mais a mim.

Vê? murmurei. Não o reconhece.

Só está magoada, por ter perdido! Mas é a minha cadela! Exijo que ma devolva!

Eu tenho documentos respondi com calma. Certidão da clínica, depois de a tratar do acidente. Passaporte em ordem. Facturas de comida, brinquedos.

Não me interessam os seus papéis! Isto é roubo!

Os transeuntes começavam a olhar.

Quer resolver legalmente? Chamo a polícia.

Chame! bufou ela. Tenho testemunhas!

Que testemunhas?

Os vizinhos viram-na fugir!

Disquei o número. O coração aos saltos. E se fosse verdade? E se a Marília fosse dela?

Mas por que esperou tanto tempo ao frio, junto à mercearia? Por que não procurou ir para casa?

E, principalmente, porque treme agora, escondida junto a mim?

Alô? Polícia? Preciso de ajuda

A mulher sorriu torvamente:

A justiça vai falar. Devolva-me a minha cadela.

Mas Marília ficou colada a mim.

Foi aí que percebi lutaria por ela. Até ao fim.

A Marília deixou de ser apenas uma cadela. Tornou-se família.

O agente da PSP chegou passado meia hora. O Sargento Oliveira, homem calmo e ponderado. Conhecia-o dos assuntos do condomínio.

Contem lá a história pediu, abrindo o bloco.

A mulher falou depressa: confusa.

É minha! Dulcineia! Custou-me cinco mil euros! Fugiu há meio ano, procurei por todos os lados! Este homem apanhou-a!

Não apanhei, achei corrigi, sereno. Ao pé da mercearia. Estava há um mês ali, sem comer.

Porque estava perdida!

Oliveira olhou para Marília. Continuava junto a mim.

Existem documentos?

Tenho aqui tirei a pasta. Por sorte, não os tinha levado para casa depois do último check-up.

Aqui está o atestado da clínica, depois do atropelamento. O passaporte. Vacinas em dia.

O agente folheou os papéis.

E a senhora tem algum?

Estão em casa! Faz diferença? É a minha Dulcineia! gritou.

Explique melhor como a perdeu.

Era passeio. Largou-se da trela e fugiu. Procurei, colei avisos.

Onde a passeava?

No parque, aqui perto.

E mora onde?

Avenida da República.

Estremeci.

Espere. Isso fica dois quilómetros da mercearia onde a achei. Como foi lá ter?

Perdeu-se, suponho!

Os cães geralmente encontram o caminho de casa.

A mulher corou.

O que sabe de cães você?!

Sei disse baixo. Sei que não se deixa um animal que se ama passar fome e frio durante um mês. Procuram os donos.

Uma dúvida interrompeu Oliveira. Disse que colou avisos, mas por que não avisou as autoridades?

Nunca pensei nisso.

Meio ano sem cão, cinco mil euros gastos e não contactou a polícia?

Achei que a encontrava sozinha!

Oliveira franziu o cenho:

Mostre-me sua identificação e confirme morada, por favor.

A mulher remexeu na bolsa, mãos a tremer.

Aqui está o cartão.

Oliveira conferiu:

Confere. Morada na Avenida da República, n.º 78, apartamento 10.

Certo. E a data da perda?

Em janeiro, dia vinte ou vinte e um.

Saquei do telemóvel:

Eu encontrei-a a 23 de janeiro. E já ali estava quase há um mês

O que significa que se perdeu ainda antes.

Talvez me engane com a data! disse ela, nervosa.

Subitamente, desabou.

Está bem! Fique com ela! Mas, acredite, eu amei-a muito!

Silêncio.

Porque fez isso? perguntei suavemente.

O meu marido queria mudar para outro apartamento, não aceitavam cães. Não consegui vendê-la, não era de raça pura. Então deixei-a na mercearia pensei que alguém a quisesse

Senti tudo virar-se dentro de mim.

Abandonou-a?

Não abandonei! Só a deixei Achei que alguém ia levar.

E agora, porque quer levá-la de volta?

Ela choramingou:

Separei-me do meu marido, ele foi embora. Estou tão só. Queria recuperar a Dulcineia Eu amava-a!

Fitei-a, atónito.

Amei-a? repeti lentamente. Não se abandona quem amamos.

Oliveira fechou o bloco.

Está claro. Legalmente, o animal pertence ao Senhor Costa. Ele tratou-a, registou-a, cuida dela. Não há dúvidas.

A mulher chorou:

Mas mudei de ideias! Quero-a novamente!

É tarde para arrependimentos respondeu o agente, seco. Quem abandona, abandona.

Ajoelhei ao lado da Marília, abracei-a.

Pronto, menina. Está tudo bem.

Posso ao menos acariciá-la? Só esta vez?

Olhei para Marília. Escondeu-se atrás de mim, orelhas caídas.

Vê? Tem medo de si.

Não foi de propósito. São as circunstâncias da vida

Sabe levantei-me, as circunstâncias não acontecem. Nós é que as criamos. Deixou-a na rua, e quer voltar atrás quando lhe dá jeito.

Ela chorava:

Compreendo Mas estou tão só.

E ela, como esteve? Sentada à sua espera, durante tanto tempo?

Silêncio.

Dulcineia murmurou, a última vez.

O cão permaneceu imóvel.

Virou as costas e foi-se embora. Sem olhar.

Oliveira bateu-me no ombro:

Fizeste bem. Nota-se que ela te pertence agora.

Obrigado. Pela compreensão.

De nada. Eu próprio sou dono de um cão, sei bem o que é.

Após a polícia partir, fiquei a sós com Marília.

Pronto disse, acariciando-a. Ninguém mais nos separa. Prometo.

Marília olhou-me. E vi não só gratidão, mas um amor canino sem limites.

Amor.

Vamos para casa?

Ela latiu, feliz, correndo a meu lado.

No caminho, pensei: aquela mulher dizia verdade numa coisa. As circunstâncias podem mesmo mudar podemos perder o trabalho, a casa, o dinheiro.

Mas há coisas que não se podem perder. Responsabilidade, amor, compaixão.

Em casa, Marília deitou-se no tapete preferido. Preparei um chá e sentei-me junto dela.

Sabes, Marília murmurei. Talvez tudo tenha acontecido para melhor. Agora sabemos: precisamos um do outro.

E Marília suspirou, satisfeita.

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