— Aquela mulher está a manipular o meu marido! — desabafava Inês, enquanto sentia a raiva a crescer …

Aquela mulher só manipula o meu marido indignava-se Matilde.

Lembro-me bem do rosto da Matilde naquela noite. Olhava para o velho telemóvel, já gasto, e sentia-se a ferver por dentro, dominada por aquela irritação tão familiar de quem já perdera a conta às vezes.

Henrique ligava pela terceira vez nesse serão.

Matilde, minha querida, perdoa-me tinha aquela voz cansada, cheia de desculpa e tão conhecida. Eu sei que tínhamos combinado o teatro, mas Bem, a Olinda acabou de me dizer que o Dioguinho está com febre alta. Ela está sozinha, não se desenrasca. Entendes, não

Matilde entendia.

Até demais.

Henriques, já comprámos os bilhetes respondeu ela, segurando a raiva dentro. Passámos um mês e meio à espera desta peça!

Eu sei, meu raio de sol. Prometo compensar-te, prometo mesmo. Mas é o miúdo não consigo deixá-lo assim.

Quando desligou, Matilde pegou no telefone e ligou à amiga.

Leonor, ouve-me bem! dizia ela, caminhando de um lado para o outro e gesticulando vivamente. Outra vez! Terceira vez só este mês! Ora é o filho, ora é o carro da ex a avariar, ou outra coisa qualquer!

Matilde, às tantas o Dioguinho está mesmo doente, não? arriscou Leonor, cautelosa.

Ó Leonor, claro que está! As crianças adoecem, faz parte! Mas estranho é que a Olinda só liga ao Henrique! Não terá ela pais? Amigas?

Pois, mas

Pois?! Matilde deteve-se de súbito. Ela faz de propósito! O Henrique é bom demais, nem repara. Ela sabe que ele larga tudo para acudir. E aproveita-se!

Do outro lado, Leonor suspirava.

E tens a certeza que o problema é ela?

Então quem mais seria?! Matilde ficou sem palavras por um segundo.

Não sei, pensa lá. Se ela liga sempre ao ex-marido e ele vai, sempre quem é que está a ser usado?

Matilde calou-se. Sentiu um nó por dentro, uma pontada desagradável.

Leonor, não digas disparates ripostou ela, ríspida. O Henrique é um pai responsável. Não ia deixar o filho.

Está bem, está bem cedeu Leonor rapidamente. Eu dizia só por dizer.

Mas esse só por dizer ficou-lhe como farpa.

Henrique apareceu tarde em casa, desfeito, com ar de menino acabado de ralhar.

Desculpa, minha parva disse abraçando-a por trás, encostando o nariz ao pescoço dela. Eu compro-te outros bilhetes, para os lugares melhores, prometo!

Matilde limitou-se a olhar pela janela. Quantas vezes já ouvira aquelas promessas? Cinco? Dez? Vinte? E sempre o mesmo: Tu compreendes, não é?

Sim, Matilde compreendia. Só não sabia bem o que era que compreendia.

Depois começaram a surgir pequenos pormenores. Primeiro, quase invisíveis, como pó que se acumula sem notar mas basta passar o dedo e lá está ele. Uma camada cinzenta no móvel.

Dei por mim a reparar que o Henrique disfarçava o telemóvel. Antes, deixava-o por todo o lado agora, andava sempre com ele. Até quando ia à cozinha buscava água, levava o telefone atrás.

Henrique, para que levas o telefone até à casa de banho? tentei perguntar certa vez, de tom leve.

Hã? Ah, é só hábito No trabalho estou sempre em chamadas, percebes?

Pronto.

Depois, vi por acaso o calendário dele. Quis marcar lá o novo teatro e topei: Ir buscar Dioguinho ao jardim de infância às 16h, Entregar papéis do carro à Olinda, Telefonar a O. por causa da vacina.

O. era Olinda.

Henrique, sabes quando é a minha defesa de tese? perguntei a mexer o chá, sem pressa.

Ele levantou os olhos do prato.

Da tese? Eh em maio, não?

Em março. Daqui a duas semanas.

Ah, pois é! Desculpa, isto anda tudo baralhado cá dentro.

Baralhado. Mas as coisas da Olinda nunca esquecia. Ao minuto.

Havia também a questão dos euros.

Por acidente, Matilde viu um extracto bancário em cima da mesa. Três transferências de 500 euros cada. Destinatária: O. Marques.

Henrique, podes explicar isto? perguntou Matilde, mostrando o papel.

Nem ficou embaraçado. Suspirou apenas.

Ajudei a Olinda. A mãe dela adoeceu, precisaram para os remédios. Depois o Diogo, para atividades do ATL. Ela está sozinha com o rapaz.

Mil e quinhentos euros em três meses, Henrique.

E depois? É o meu filho! Queres que fiquem a passar mal?

Matilde devolveu o papel calmamente.

Não, claro que não. Só estranhei nunca teres mencionado.

Não disse, porque sei que ias reagir assim!

Esse assim soou a acusação: Matilde, a neurótica, ciumenta, mesquinha.

Outra vez, no carro, Matilde encontrou um desenho infantil no banco de trás. Uma casa, flores, sol. E três pessoas: o pai, a mãe, o Diogo.

Ela pegou no desenho, viu atrás: Para o papá, do Diogo. A nossa família.

Henrique chamou baixinho.

O que foi?

Este desenho veio de onde?

Henrique olhou.

Ah, o Dioguinho fez. Giro, não é? Menino cheio de jeito.

Matilde mirou o papel, olhou para Henrique, voltou ao desenho.

Aqui diz a nossa família.

Pois. Ele ainda é pequeno. Para ele, família somos eu, Olinda e ele. As crianças vêm o mundo assim. É normal.

Matilde pousou o desenho. Sentou-se em silêncio e foi assim a viagem inteira.

A Olinda começou a aparecer em pessoa. Primeiro, para ir buscar as coisas do Dioguinho que estavam cá. Depois, para falar das férias grandes. Por fim, de passagem, decidi passar.

Era simpática, educada, sempre a sorrir.

Olá, Matilde! dizia, como quem cumprimenta uma vizinha de anos. Desculpa o incómodo, o Henrique está por aí?

Sempre que Olinda vinha, Henrique ficava distraído, distante. Respostas curtas, olhar perdido.

O que tens? perguntava Matilde.

Nada, só cansado…

Eu comecei a sentir-me a outsider. Aquela que só estava ali a incomodar.

Um dia, ouvi sem querer uma conversa ao telefone. Henrique achou a porta bem fechada na casa de banho, mas ficou entreaberta.

Olinda, não chores Eu vou ajudar, claro que vou Sabes que estou sempre aqui.

A voz dele era baixa, meiga. Quase íntima.

Matilde afastou-se e sentou-se na sala, em silêncio. E ali compreendeu: não era só a Olinda a manipular.

Ele é que deixava. Porque lhe era confortável.

Matilde aguentou mais três dias calada.

Sem dramas. Limitava-se a ver. Como quem observa um animal raro no microscópio fria, atenta.

Henrique sabia os horários da Olinda melhor do que os de Matilde. As rotinas do jardim de infância, médicos, ATL tudo no seu calendário. Mas esquecia-se da defesa de tese de Matilde.

O telemóvel vibrava. Henrique agarrava logo, lia, respondia depressa e ficava com ar terno, culpado. Como quem vive um segredo.

Uma noite, tomou banho e o telefone tocou. Matilde olhou para o visor.

Olinda.

Por instinto, atendeu.

Henrique? a voz da Olinda era baixa, trémula. Henrique, podes vir? Sinto-me tão mal. Não sei a quem recorrer.

Matilde não disse nada.

Henrique? Estás aí? Preciso de ti. Sempre estiveste ao meu lado

Matilde desligou. Pousou o telefone, sentou-se e riu-se, sozinha.

Como foi ingénua durante tanto tempo.

Henrique saiu da casa de banho de toalha, pingando.

A Olinda ligou, disse Matilde com serenidade.

Ele ficou suspenso.

Atendeste?!

Sim. Estava a chorar. Disse que estava mal, que sempre pudeste acudir-lhe.

Ele ficou a matutar, procurando palavras, tentando explicar.

Olinda passa uma fase difícil. Não tem ninguém. Só eu. Não posso abandoná-la.

Abandoná-la? Matilde sorriu. Separaram-se há quatro anos. Não é tua mulher, é a tua ex. Já a deixaste.

Mas temos um filho

Então significa que deves correr sempre que te chama? Que transferes dinheiro às escondidas? Que conheces os compromissos dela à risca?

Estás a exagerar!

Eu?!

Matilde sentiu algo a quebrar. Pegou na mala. Começou a juntar as suas coisas.

Sabes, Henrique, durante muito tempo convenci-me de que a culpa era dela. Que usava o filho como desculpa. Que era incapaz de seguir em frente.

Interrompeu-se.

Mas a verdade é outra. És tu que permites. E, mais: tu gostas. Porque assim tens duas vidas. Uma ex-mulher que precisa e uma mulher atual que aguenta. E não escolhes, porque assim é mais fácil.

Não vás, Matilde!

Não vou fugir, disse baixo. Estou a sair. A sair deste triângulo em que o meu lugar é sempre o terceiro. Não luto contra a tua ex-mulher. Saio da vossa dança.

Henrique ficou ali plantado encharcado, acabado.

Matilde, espera, pelo menos para conversarmos.

Não há nada para conversar. Vestiu o casaco. A tua escolha foi feita há muito. Só eu fui burra de não ver antes. Mas agora vejo. Nítido.

Abriu a porta.

Adeus, Henrique. Diz à Olinda que agora pode ligar-te à vontade.

A porta fechou-se num sussurro.

Depois, veio o tempo da solidão. Um mês depois, Matilde estava num café com a Leonor.

E então, como estás? perguntou a amiga.

Estou bem. Matilde sorriu. A sério, Leonor.

E era verdade. Custou a primeira semana aquele buraco no peito, aquela vontade de telefonar e voltar. Mas resistiu. Arrendou um T0, arranjou trabalho, defendeu a tese com distinção.

Henrique ligou. Muitas vezes. Escreveu mensagens longas, cheias de promessas.

Matilde, perdoa-me. Percebi tudo. Tinhas toda a razão. Vamos recomeçar.

Matilde não respondeu. Sabia que seria inútil. Porque o problema não era da Olinda era dele. E enquanto ele não percebesse, nada mudava.

E ele, como está? quis saber Leonor.

Quem?

Henrique.

Ah. Matilde deu de ombros. Não sei. Não temos contacto.

Leonor ficou a pensar.

Olha, não te arrependes?

Matilde ponderou. Arrependeu-se? Não. Senti outra coisa: leveza. Como quem pousa finalmente uma mochila pesada.

Foi a escolha certa. Matilde acabou o café. Por mim e por ele.

Leonor sorriu.

Fizeste bem.

Não foi coragem, foi crescer riu-se Matilde.

Henrique ficou sozinho.

Olinda, curiosamente, depressa deixou de ligar. Sem Matilde na equação, o jogo perdeu graça. E quando Henrique tentou voltar ao que era dantes levou uma recusa gelada.

Foste tu que a escolheste disse Olinda. Agora vive com isso. A minha vida está bem resolvida. Não preciso de ti.

Henrique ainda procurou Matilde. Foi ao prédio dela, esperou-lhe à saída do trabalho, escreveu cartas compridas. Mas ela manteve-se firme.

Henrique, deixa-me. Deixa-te também. Nós não combinamos. Tu queres duas vidas ao mesmo tempo. Eu quero uma só. Mas verdadeira.

Matilde caminhava sozinha pelas ruas de Lisboa ao fim da tarde. Pensava como tudo era estranho. Passara tanto tempo a temer estar sozinha, a temer perder Henrique. E afinal, ao perdê-lo, não perdera nada.

Porque quem não sabe escolher, nunca poderá dar nada de verdadeiro.

E ela, no fundo, só queria o que era verdadeiro. E merecia.

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— Aquela mulher está a manipular o meu marido! — desabafava Inês, enquanto sentia a raiva a crescer …