Aqueça Você Mesmo: Guia Prático para Portugueses Manterem-se Quentes nos Dias Frios

Aquece tu

Rosa Simões pousou a panela de caldo verde em cima da mesa e lançou um olhar ao marido. Mário Nogueira já estava sentado, o telemóvel escancarado como se fosse janela para outro mundo, completamente alheio ao barulho da cozinha.

Não há colher disse ele, sem levantar os olhos do ecrã.

Estão no suporte, como sempre.

Eu vejo que lá estão. Dá-me uma.

Lá foi Rosa buscar-lhe uma colher e pô-la junto ao prato dele. Ele não agradeceu. Jamais agradecia. Em trinta e um anos de casamento, ela já nem esperava ouvir a palavra obrigado. Mas naquele dia, qualquer coisa dentro dela encolheu-se de forma diferente. Não foi aquela dor costumeira, mas sim uma pontada afiada, breve. Como se um cubo de gelo alojado cá dentro começasse a derreter.

O caldo verde está frio protestou Mário, encostando o telemóvel.

Está acabado de sair do fogão.

Estou a dizer-te que está frio. Ou achas que não sei o que digo?

Rosa nada respondeu. Aproximou-se da janela. Lá fora, chovia à séria. Grossa, vagarosa, tipicamente de dezembro. No dia 31, tinha sempre a sensação de que o tempo mudava só para assinalar o fim do ano tudo ficava mais solene, mais sereno, como se até o ar soubesse que alguém ia fechar e abrir um ciclo.

Aquece resmungou ele lá de trás.

Ela virou-se. O Mário já estava de novo mergulhado no telemóvel.

Podes muito bem meter no micro-ondas, se quiseres quente.

Silêncio. Tenso e longo, o tipo de silêncio em que se distinguem os ponteiros do relógio do corredor, o tilintar de loiça na casa dos vizinhos e o estrondo da porta do prédio a fechar-se, lá em baixo.

O que é que disseste?

Disse que podes aquecer tu mesmo. Carregas no início, esperas dois minutos. És capaz de lidar com isso.

O Mário finalmente ergueu o olhar, com uma expressão como se acabasse de ouvir a notícia mais absurda do século.

Rosa.

Sim?

Sentes-te bem?

Sinto-me óptima.

Ficaram a olhar-se mais uns segundos. O olhar dele, aquele típico olhar de quem verifica o stock do armazém tudo no sítio, nada partido.

Vai lá aquecer o caldo verde.

Rosa ficou um momento à janela. Depois voltou-se, acendeu o fogão e pôs a panela a reaquecer. Porque trinta e um anos de hábito falam mais alto do que o susto matinal no peito. Percebia isso. Só que o tal cubo de gelo continuava a derreter.

Conheceram-se quando Rosa tinha vinte e dois. Trabalhava na contabilidade de uma fábrica pequena, ele era o chefe da produção. Alto, seguro, sempre a sorrir de lado, como quem anuncia eu é que sei. Rosa, ingénua, achou que aquele sorriso era de confiança demorou anos até perceber que era arrogância, puro direito de mando. Percebeu tarde, tarde demais.

Os primeiros anos foram banais até. Depois nasceu o Daniel, e o Mário foi transferindo, sem ninguém notar, tudo para os ombros dela: o filho, a casa, a comida, a roupa, os pais, os aniversários, as maleitas, as reuniões escolares. Ele trabalhava. Trabalho era trunfo em qualquer discussão. Estou o dia todo a moer, e tu ainda queres que lave a loiça? A Rosa também trabalhava, mas isso não qualifica para troféu.

Há muito que tinha deixado de chamar aquilo de relacionamento. Aquilo era vida. Vida de todos os dias, uma lista interminável de tarefas: fazia sopas, limpava, passava, fazia compras, visitava a sogra, ia buscar o neto à escola quando a nora precisava. Mas, no meio disso tudo, Rosa desenrascava algum tempo só para ela: livros, a amiga Paula, telefonemas à noite sempre que o Mário se instalava em frente à televisão.

A Paula era a sua verdadeira confidente, era amiga desde o oitavo ano. Casou-se tarde, já com trinta e oito, com um viúvo simpático. Rosa invejava-lhe discretamente a sorte. Não era ciúme mau, mas sim aquele tipo de inveja serena, que compreende: conseguiu o que eu não consegui, paciência.

Rosa, há limites! bufava Paula ao telefone. É o quinto caldo verde sobre queixas deste mês. Tudo caldo verde, minha rica!

Mas as histórias são diferentes…

Não! Rose, são sempre as mesmas histórias, só mudam os ingredientes. Ouves a diferença?

Rosa ouvia. Só não sabia o que fazer com isso. Com cinquenta e três anos e trinta de experiência em família tóxica, como dizia Paula, não era coisa de simplesmente mudar de vida. Para onde ir? Para quem? O filho estava casado, com casa e vida feita. O apartamento era dos dois, Rosa e Mário. Ainda havia o trabalho era contabilista numa empresa de construção pequena, o patrão valorizava os seus relatórios e dizia, com frequente orgulho: Rosa, sustenta a contabilidade toda sozinha. Soava bem. Soava verdadeiro.

Mas hoje era diferente. Sentia-o no corpo, como um aviso no tempo. O tal cubo gelado derretia-se rápido, e no peito ficou apenas um latejar quente, estranho. Era calor desconhecido.

O Daniel ligou a seguir ao almoço.

Mãe, vens passar a passagem do ano connosco?

Não sei ainda, filho.

Como assim não sabes? Já é dia trinta e um! A Joana está a fazer rissóis, a preparar a mesa… Venham!

Falo com o teu pai.

Mãe… Ele fez pausa. Mas estás bem?

Estou sim.

Rosa espreitou a chuva pesada pela janela.

Estou mesmo murmurou, e desligou.

O Mário estava deitado no sofá. O telejornal falava do frio nos distritos lá para cima. Rosa entrou e ficou no meio da sala.

O Daniel convidou-nos para o ano novo.

Aquilo fica longe.

São quarenta minutos de metro.

Depois é tarde para voltar.

Podemos dormir lá.

Onde? No chão? O miúdo dorme no sofá-cama.

Dizem que compraram uma poltrona que abre.

Não vou. Dói-me a coluna.

Rosa acenou. A coluna do Mário só doía quando era para ir a casa dos filhos ou dar uma mão. Para ir à pesca, nunca doía. Para pescar, ia todo o verão e regressava sempre revigorado.

Pronto. Eu vou.

O quê?

Vou sozinha. Ficas tu, se te dói a coluna.

Mais uma pausa. Esburacada pelo olhar velho de costume.

Sozinha, como assim? Passagem de ano, Rosa!

Pois. Quero passá-la com o Daniel e o neto. Vens se quiseres.

Foi ao hall, tirou a mala do cimo do armário. As mãos tremiam um pouco, mas não era fraqueza. Era outra coisa. Coragem, talvez.

Estás maluca, Rosa?

Ele encheu a porta, grande, com o ar zangado e os braços a fazer barricada.

Não respondeu ela, sem se virar. Estou óptima.

Vais abandonar o marido na passagem de ano? Sozinha?

Vou para o meu filho. Não é a mesma coisa.

Rosa!

Ela virou-se. Olhou-o de frente. Trinta e um anos a olhar para aquela cara, a inventar-lhe sentimentos que nunca ali estiveram. Via cuidados onde só havia hábito; amor onde só havia posse. Agora, via só um homem envelhecido, magoado, habituado a que tudo girasse à sua volta.

Volto amanhã. Ou depois. Ainda não sei.

Vestiu o casaco, põe o cachecol, pega na mala. O Mário continuou a bradar lá atrás: egoísmo, idade, vergonha, sempre igual. Rosa conhecia essas palavras de cor, como se fossem versos de um poema antigo que já perdera o sentido.

Abriu a porta e saiu.

A chuva abraçou-a logo. Suave, cheirava a frio e a clementinas algum vizinho trazia sacos carregados. Rosa parou no patamar, levantou a cara ao céu. As pingas geladas derretiam rapidamente nas bochechas.

Não se lembrava da última vez em que tinha parado assim, a sentir apenas o tempo a passar. Sem ter de fazer nada. Sem ser para ninguém.

Paula atendeu ao terceiro toque.

Rosinha? Que se passa?

Nada. Vou ao Daniel para a passagem de ano. Sozinha.

Longo silêncio.

Sozinha?

O Mário ficou. Dores nas costas.

Rosa havia alegria tímida na voz da amiga. É verdade mesmo?

É.

Orgulhosa de ti, mulher!

Falas como se tivesse ganho a Volta a Portugal.

Ganhaste! Pelo menos, a Volta a Ti Mesma.

O metro estava apinhado, toda a gente vestida de festa, sacos e caixas, narizes vermelhos com frio e olhos brilhantes de expectativa. Rosa nunca gostou particularmente da passagem do ano. Não porque o calendário lhe dissesse algo de mau, mas porque aquele dia, para ela, era só mais um com obrigações: pôr a mesa, cortar salada, sorrir aos convidados, ouvir o marido largar a piadola que lhe estragava o humor.

No ano passado, ele disse à amiga Vera: Então, Vera, ainda à espera de príncipe?. Vera sorriu, mas Rosa viu-lhe o desconforto. Pediu-lhe para parar com aquelas piadas. Ele respondeu: Era só para brincar, não tens sentido de humor.

Pois. Dos tais, é melhor nem rir.

A Joana abriu-lhe a porta jovem, olhos enormes de sono mal dormido, farinha nas mãos.

Dona Rosa! Ainda bem que veio! E o senhor Mário?

Não pôde. Vim sozinha.

A Joana olhou-a um segundo, rápido mas sincero. Depois abraçou-a, leve e demorado.

Entre! Está tudo em caos, mas é o caos bom.

O neto Martim, cinco anos, veio disparado do quarto e atirou-se-lhe aos joelhos.

Avó! Avó chegou! Olha, escrevi ao Pai Natal!

Escreveste? E o que pediste?

Um kit de montar, daquele que faz casas a sério. Com motor!

Muito bem pensado.

E escrevi para ele te trazer aqui. Viste? Funcionou!

Rosa riu-se, a sério. Riu porque sim, não porque ficava bem.

Dinis saiu da cozinha de avental ao ombro.

Mãe! abraçou-a como em pequeno. Correu bem a viagem?

Sim. Não andava de metro em dias de festa há séculos. Tanta gente bem-disposta que até parece outro mundo.

Vem, faço-te um café. Ou prefiras chá? Joana, a mãe quer chá ou café?

Café, se faz favor disse Rosa, ousando um sorriso. Dos fortes.

Sentaram-se na cozinha, enquanto a Joana dava voltas à panela e o Martim corria pela casa aos berros com uma nave de Lego. O Dinis fitava a mãe, atento de uma maneira que ela não conhecia.

Mãe, fala-me sincero. Está tudo bem?

Martim, não corras aqui que levas com a esquina! respondeu, desviando o olhar para o neto.

Mãe

Dinis, não olhes assim para mim.

Assim como?

Como se eu fosse precisar de tradução simultânea para cada pergunta.

Dinis calou-se. Mexeu a chávena.

Quero só que sejas feliz.

Sei disso.

És feliz?

Rosa espreitou outra vez a chuva persistente.

Ainda só estou a pensar nisso respondeu. Mas já não é mau.

O serão foi dos bons. Daqueles reais. A Joana revelou-se mestra nos salgados, os rissóis arrancaram-lhe um pedido de receita. O Martim adormeceu deitado no sofá agarrado ao novo kit de montagem, o presente que o Dinis safou da prateleira mesmo antes da meia-noite. Quando soaram as doze badaladas, ergueram todos copos de vinho espumante sem álcool, Isca de Prata, e Rosa fechou os olhos para fazer um pedido. Pela primeira vez em muitos anos, o pedido era só para ela.

Voltou a casa no segundo dia do ano. O Dinis queria que ficasse mais tempo, a Joana insistiu, o Martim montou uma cena dramática* avó, fica para sempre!* Mas Rosa voltou. Fugir não é a solução. Não para sempre. Só mudar faz sentido.

O Mário recebeu-a de braços cruzados no corredor cara de ofendido, mas com ar de quem não quer admitir que se sentiu sozinho.

Apareceste.

Apareci. Como estás?

Como achas? Passei a passagem do ano sozinho, não?

Eu sugeri irmos juntos.

Doíam-me as costas.

Eu sei.

Foi para o quarto, pousou a mala, a arrumar as coisas devagar. Ele, parado à porta.

Não vais pedir desculpa?

Desta vez ela demorou a responder. Primeiro pendurou o casaco, depois tirou os sapatos. Só então virou-se.

Desculpa de quê, Mário?

Por deixares o marido sozinho numa data destas.

Podias ter ido. Escolheste ficar. Eu não sou responsável pelas tuas escolhas.

Fez-se silêncio. Ele abriu e fechou a boca.

O que se passa contigo, Rosa?

O quê? Ela até se surpreendeu a sorrir O que se passa é que é um novo ano. Com atraso.

Nos primeiros dias de janeiro, pensava e repensava. Rosa era dessas pessoas que mastiga as ideias devagar, sem caderninhos de autoterapia. Só com o tempo e o silêncio.

O pensamento era simples: passou trinta e um anos com uma pessoa que não a respeitava. Não era má pessoa por natureza, apenas nunca deu relevo ao respeito. Achava que ser marido, sustentar, dar tecto, era o suficiente. O resto, tretas. Mas ela própria? Ela pediu respeito alguma vez? Disse o que precisava? Nunca. Foi calando. E acumulando. Porque achava feio fazer escândalos, e impossível sair. Aguentar era ser boa mulher.

Quem lhe ensinou isso? Ninguém de forma clara. Mas, nas entrelinhas de toda a infância e juventude, era aquilo: a família é tudo, cuida do marido, roupa suja lava-se em casa. E Rosa foi erguendo muros, escondendo por trás tudo o que a magoava.

Só que os muros começavam a rachar. Não era com estrondo, mas devagarinho, como gelo de março.

A 8 de janeiro, Paula ligou.

Rosa, não cortes. Só quero contar uma coisa. Lembras-te da Carla, aquela loira alta, que morava na Rua das Flores?

Lembro. Tinha sempre aquele cabelo incrível.

Pois, há três anos deixou o marido. Com 56. Arrendou um T1, foi trabalhar para uma florista, agora já coordena casamentos e tudo. Ela disse-me há dias: Devia ter feito isto mais cedo. Achava que ia ruir tudo. Só caiu mesmo o que já não servia.

Rosa manteve-se calada.

Ouviste-me, não ouviste?

Ouvi.

Não te estou a dizer o que fazer. Só a partilhar.

Percebi.

Rosa, mereces melhor. Sabes disso?

Sei. Mas saber e sentir são coisas diferentes.

Então começa a sentir.

Não é assim tão fácil. O ritual matinal mantinha-se: café, torrada, Mário a fazer scroll no telemóvel, TV com notícias e, obrigatoriamente, o O que há para o almoço? sem um único bom dia antes.

Mas alguma coisa, discretamente, estava diferente. Quando o Mário dizia qualquer coisa desagradável, já não fugia para a cozinha a remoer. Ficava, olhava para ele. Sem dramatismo, mas sem ceder. E às vezes, ele acabava por se calar a meio da frase.

Uma noite, durante o jantar:

Andas esquisita.

Esquisita como?

Não sei, o teu olhar está… estranho.

Como assim?

Não sei, repito. Não me agrada.

Não te agrada alguém olhar para ti?

Nã… é diferente.

Mário, talvez só não estejas habituado a que te olhem nos olhos.

Ele não respondeu. Levantou-se, foi arrumar o prato. Depois, silêncio. Depois, TV.

Em meados de janeiro, surpresa no trabalho. O patrão, Sr. Paulo Andrade, chama-a ao gabinete: Vamos abrir um segundo escritório do outro lado da cidade. Preciso de alguém para chefe de contabilidade lá. Mais salário, horário flexível.

Rosa, esta vaga é tua, se quiseres. És das melhores e dizia-o com convicção.

Lá ficou, endireitando-se por dentro como quem deixa de andar de cabeça baixa.

Para quando a resposta?

Uma semanita seria ótimo. Conto com um sim.

Em casa não contou logo. Precisava de tempo. Novo escritório, do outro lado de Lisboa, transporte, o ordenado subia um terço. Outra vida. Outras hipóteses.

Três dias depois, telefonou à Paula.

Paula, propuseram-me uma promoção.

ROSA! É genial!

Estou a pensar.

O que é que há para pensar?

O Mário vai resmungar tudo. Outro sítio, outro horário.

Precisas da benção dele?

Silêncio.

Não! Claro que não.

Pronto, então. Olha para ti: oito anos de dedicação! E vais sabotar-te só porque ele vai reclamar?

Não é por isso. Ele só vai soltar alguma frase venenosa…

Que novidade! Ele faz isso todos os dias. Ao menos agora é por uma coisa boa. É a tua vida.

No dia seguinte, Rosa mandou mensagem: Aceito. Obrigada pela confiança. Depois guardou o telemóvel e pôs-se a cozer compota para o Martim.

No jantar, contou ao Mário.

Tenho novidades. Promoveram-me no trabalho. Vou chefiar o novo escritório.

Fica longe?

Uns quarenta minutos.

Para que é que te metes nisso?

Para crescer, para ganhar melhor, para aprender.

Já ganhas bem.

Agora vou ganhar ainda melhor.

Mário olhou para ela.

E os teus almoços?

Rosa calou-se uns segundos. Não era por não ter resposta, era por querer encontrar as palavras certas.

Tens cinquenta e oito anos, estás de boa saúde. Aprendes a cozinhar para ti.

Eu não sei cozinhar.

Não é genética, é falta de vontade. Aprende-se.

Rosa!

Vou aceitar a promoção, Mário. Decisão já tomada.

Ele fugiu para o quarto. O televisor berrou mais que nunca. Rosa limpou a cozinha, preparou compota para o Martim, pendurou os panos lavados. Depois foi à varanda. O frio ali era daqueles que deixam vaporzinho ao respirar.

Pensou na Carla das Flores, agora rainha dos arranjos. Pensou no marido da Paula, tímido, trazia sempre flores e dizia: A Paula fala tanto de si, Rosa, já era altura de a conhecer. Coisas assim, simples e boas. Nesse dia chorou de alívio no carro a regressar a casa. O Mário só lhe perguntou: Que se passa? E ela: Nada, cansei-me. Ele assentiu, sem mais conversa.

Em fevereiro, algo inesperado. Começou por acaso. Procurava um dossier no fundo do móvel e topou num envelope antigo, amarelado. Sem selo. Puxou, olhou: uma carta de Mário, datada de abril, quando Daniel tinha sete anos.

Nem queria ler. Guardou-o. Depois, não resistiu. Era para uma tal Helena. Poucas linhas, mas todas muito claras, íntimas. Mário a dizer que pensava nela, que em casa é complicado, que não sabia o que fazer.

Rosa ficou sentada no chão, a carta na mão. Não chorou. Pensou. Primeiro pensamento: Logo nessa altura. Depois: Quanto tempo perdi. E, finalmente: Não, não perdi. Eduquei o filho. Vivi. Fiz o meu caminho à minha maneira.

Guardou a carta, lavou a cara com água fria, olhou-se ao espelho. Os olhos cinzentos estavam calmos. Reconhecia-se melhor agora do que nos últimos dez anos.

À noite, ligou à Paula.

Achei uma coisa. Uma carta antiga.

De quem?

Não era para mim.

Silêncio.

Não me digas mais nada, Rosa. O importante: não é preciso haver uma razão formal. Basta querer. O direito à nossa vida não precisa defesa.

Estou a pensar, mas num sentido diferente, agora.

Paula ficou calada. Depois: Estou contigo, sempre.

Em março, início do novo emprego. Equipa pequena, simpática. Destacava-se a Dona Emília, dos Recursos Humanos quarenta e muitos, sorriso sereno e o hábito de ser sempre a primeira a cumprimentar. No primeiro dia, trouxe-lhe chá: Ainda não sabe onde está tudo, eu mostro. E aquilo soube-lhe pela vida.

O trabalho era mais exigente, mas isso animava. Sentia-se viva, cheia de problemas novos e perguntas por resolver. Chegava a casa cansada, mas de outro modo boa fadiga.

O Mário, claro, nunca digeriu a tal promoção. Falava dela como coisa de brincar, um passatempo dela. Rosa foi aprendendo, com secreta satisfação, a separar: isto é casa, aquilo é o que aqui se passa. E eu sou eu, mesmo.

Em abril, aniversário do Daniel, juntaram-se todos lá em casa dele: a Joana, o Martim, a mãe, uns amigos. O Mário apareceu, mas manteve-se nas margens pouco falador, deu meia volta cedo: Estou cansado.

Um dos amigos, o Sérgio, meteu conversa com Rosa. Ele era restaurador de edifícios e falava de casas antigas como de pessoas: Por fora estão cheias de fendas, mas por dentro, quem tem estrutura é quem aguenta. Interessa-me recuperar esses casos. Rosa pensou: Isto sou eu.

Na hora de sair, o Daniel foi levá-la à porta.

Foi bom para ti hoje, mãe?

Foi.

Fico feliz. Abraçou-a. Qualquer coisa, chama. Para tudo.

Rosa olhou o filho: trinta e três anos, adulto, mas nela via os olhos do neto, da família.

Prometo que peço ajuda se precisar.

Em maio, a Dona Emília liga-lhe fora de horas.

Desculpe estar a ligar assim, mas já pensou em… viver sozinha?

Rosa quase deixou cair o telefone.

Porque pergunta isso?

Vivi isso. Deixei o meu marido aos cinquenta e um. Custou uns meses, mas depois tudo ficou… certo.

Contou-lhe, sem dramas, o percurso. Alugou um apartamento, foi difícil ao princípio pela solidão, depois tudo acalmou. Assusta só no início. Depois habitua-se à liberdade.

Rosa ficou sentada a olhar o céu claro de maio, cheiro a café e Mário algures em casa do amigo.

Abriu o portátil e viu preços de arrendamento. Para saber só. Só para se informar.

Viver sozinha era viável. O ordenado dava.

Fechou o portátil. Abriu outra vez. Tornou a fechar.

Pegou no bloco e fez duas colunas: o que prende versus o que liberta. No lado do liberta só havia uma palavra: medo.

Três semanas a viver com esse medo. Estava em todo o lado. Porquê? Medo do quê? Julgamento dos outros? Mas quem são esses outros? Medo da solidão? Se já era solitária ao lado do Mário! Medo de errar? Quem definiu que o erro era sair e não permanecer?

O medo, ao fim ao cabo, era só rotina. O hábito de pensar que não se pode. Que todas vivem assim.

Mas não é verdade. A Carla, a Dona Emília, a Paula, todas faziam diferente.

A 16 de junho, Rosa ligou para um anúncio de arrendamento. T1, terceiro andar, luminoso, perto do novo escritório. A senhoria, Dona Antonieta, simpática, prática. Viu a casa, gostou.

Trabalha em quê? perguntou Dona Antonieta.

Chefe de contabilidade.

E animais?

Só o Martim e não é meu riu-se Rosa.

Gosta de silêncio?

Vivo para o silêncio riu outra vez.

Fica com a casa?

Fico.

No autocarro de regresso, ia colada à janela a olhar Lisboa de verão. Chaves na mão. Pareciam-me mágicas.

Contou ao Mário nessa noite. Sem voltas.

Mário, precisamos conversar.

Ele parou o televisor.

Arrendei um apartamento. Vou viver sozinha.

Silêncio sério. O televisor seguia, como vindo de outro mundo.

O quê?

Vivemos sem respeito, sem calor, sem conversa. Quero diferente.

Encontraste alguém? sempre a mesma pergunta.

Não, encontrei-me a mim.

Isto não faz sentido!

Pode não fazer. É a minha escolha.

Tens cinquenta e três anos, Rosa!

Conheço a minha idade, obrigada.

Não é coisa que se faça.

É muito a sério. Já pensei no que dizem as pessoas. Não me interessa.

Ele ficou a olhar. Baixinho:

É por causa da carta.

Sabes da carta?

Vi que mexeste no envelope.

Não. Não é por causa da carta. Ela só mostrou o que já sabia. Não é sobre ti. É sobre mim.

Foi-se deitar. Ouviu-o andar pela casa, mexer em coisas, TV, silêncio.

A mudança fez-se em prestações. O Daniel ajudou. A Joana levou o Martim, que inspecionou tudo:

Avó, já viste a varanda?

Já.

Dá para pôr flores aqui?

Dá.

Vou comprar-te uma planta pequenina.

A Dona Emília trouxe bolo de morango, caseiro, no primeiro serão de casa já arrumada.

Rosa Simões, bem-vinda à tua nova vida.

Não era frase para post no Facebook. Foi só dito, simples, e soube-lhe à vida.

Obrigada. Entra.

Ficaram até tarde, chá quente, conversa sobre filhos e Lisboa, netos e as suas engenhocas. Era um serão vulgar, de gente comum e contente.

Quando ficou sozinha, Rosa deitou-se no sofá novo, enrolou-se e ouviu o silêncio um silêncio leve, do seu.

Adormeceu em minutos. Sem sonhos.

O verão trouxe-lhe trabalho, adaptação. Já dominava tudo, sabia a rotina, cumprimentava pela primeira vez o senhor do café. À noite, passeava no jardim, só a observar. Era uma novidade: simplesmente estar.

O Mário telefonou um dia, fim de agosto.

O Daniel disse-me que te ajeitaste bem.

Corro tudo bem.

Salário dá para tudo?

Chega.

Falamos?

Sobre o quê?

Sobre nós.

Rosa olhou a folha das árvores.

Nós já não existe, Mário. Percebeste?

Percebi, mas

Não. Eu não volto.

Porquê?

Porque ali não era feliz.

E aqui?

Aqui estou a aprender. Diferente.

Mais chamadas, cada vez mais espaçadas. Rosa atendia se tinha vontade era um novo direito.

No outono, a Carla das Flores (sim, a amiga da Paula) ligou. Paula tinha-lhe dado o contacto.

Rosa Simões? A Carla, amiga da Paula.

Gostava de conversar?

Adorava.

No café, a Carla surgiu num casaco azul vivo. Conversaram duas horas: flores, mudança, medo, vida. Só nos assusta antes de fazer. Depois, passa. Aprende-se, canta-se outra vez.

Arrependeste-te?

De não ter feito mais cedo.

Tiveste medo?

Claro. Mas depois o medo some. Realmente nada desaba.

Rosa voltou a casa, a pensar. Nada desaba. O filho perto, o neto atencioso, o trabalho bom. A Dona Emília feita amiga, a Paula sempre pronta.

E mais: sentia-se no próprio lugar. Não era hóspede nem empregada de ninguém. Era ela. Rosa Simões. Cinquenta e três anos. Contabilista-chefe. Mãe. Avó. Mulher.

Passou dois reveillons um com o Daniel, a Joana e o Martim (o kit de construção agora era tema de conversa sério), outro em sua casa. Vieram a Paula e marido, a Dona Emília, a Carla em novo casaco de cor. Mesa posta, conversa. Ninguém a julgar. Só quem quis estar ali.

Quando soaram as doze badaladas, Rosa levantou o copo. Fez um desejo. Desta vez, era só um continua.

Em janeiro, telefonou-lhe a sogra. Não, já não era sogra, era só Dona Alice, mãe do Mário. Vivia com uma prima noutra cidade. Nunca foram próximas, mas mantiveram respeito.

Rosa voz tremida de quem já anda nos noventa. O Mário contou-me.

Pois.

Quero dizer-te algo.

Sim?

Fizeste muito bem.

Rosa ficou calada.

Devia tê-lo dito antes. Via como ele era. Calava, como mãe. Mas é errado. Arrependo-me.

Dona Alice

Não me interrompas. És boa mulher. Mereces vida boa. A idade não conta. Eu com noventa ainda agradeço cada coisa simples. Não te enterres viva.

Obrigada engoliu em seco.

Liga-me de vez em quando, para falarmos.

Ligo.

Prometes?

Prometo.

Desligou e ficou a sorrir. Afinal, a vida surpreende, sempre onde menos se espera.

No fim de fevereiro, Daniel veio sozinho, trouxe doces, sentou-se na cozinha.

Mãe, estás diferente. Melhor. Como se acendesse uma luz.

Estava fundida há anos.

Eu devia ter visto.

Daniel, só se vê o que se mostra. Foste e és um bom filho.

Abraçou-a e saiu.

Rosa ainda ficou um pouco à porta. Voltou, fez-se um chá. A chuva caía persistente. E pensava: há um ano, estava ao outro lado da janela, vida paralisada. Agora, tudo corre. Como água.

Uma semana depois, o Mário telefonou.

Rosa.

Diz.

Estive no médico. Nada grave, só pressão alta. Disseram para ter cuidado.

Fizeste bem em ir.

Antes lembravas-me.

Agora lembras-te tu. Já é progresso.

Silêncio.

Nunca voltas, pois não?

Não.

E estás… bem?

Rosa olhou a chuva.

Estou bem. Não te preocupes.

Não estou preocupado. Só pergunto.

Eu sei.

Nova pausa. Depois, quase num sussurro:

Sei que falhei.

Rosa demorou a responder. Procurou a verdade.

Não te guardo rancor, Mário. Vivemos muita vida juntos. Não se deita tudo ao lixo. Mas não era a vida que eu queria. Não sei se era a que tu querias. Isso é contigo.

Tenho pensado nisso.

Fazes bem.

Desligou. Pôs a água a ferver. Escolheu uma chávena. E olhou para a chave na prateleira uma chave, nada mais. Mas finalmente, a chave da sua casa.

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