Aos 55 anos apaixonei-me por um homem quinze anos mais novo do que eu, só para descobrir uma verdade chocante história do dia
Mas assim que comecei a acreditar em novos começos, um único momento desmoronou tudo.
Por mais anos que tivesse vivido nesta casa lisboeta, a minha sala parecia-me agora estranha.
Tinha 55 anos e encontrava-me de pé diante de uma mala aberta, a refletir sobre como a minha vida me tinha levado até ali.
Como chegámos aqui? sussurrei, a girar uma chávena lascada com a inscrição Para sempre na mão, antes de a pousar de lado.
Passei a mão pelo sofá. Adeus aos cafés de domingo e às discussões sobre pastéis de nata.
As memórias rodopiavam na minha cabeça como convidados indesejados que não se querem despedir.
No quarto, o vazio era ainda mais pesado. O outro lado da cama parecia repreender-me, como um olhar acusador.
Não olhes assim para mim, murmurei. Não foi só minha culpa.
A arrumação da mala tornou-se numa procura por aquilo que ainda valia a pena. O meu portátil, em cima da secretária, era como um farol solitário.
Ao menos tu ficaste, murmurei, afagando-o.
Lá dentro tinha o manuscrito do meu romance, ao qual dedicara dois anos da minha vida. Ainda inacabado, sim, mas era só meu prova de que não me perdera por completo.
Foi então que chegou a mensagem da Luísa:
Retiro criativo. Ilha solarenga. Recomeço. Vinho.
Claro, vinho, ri-me eu.
A Luísa sempre teve jeito para transformar tragédias em convites cheios de promessas.
Soava audaz, mas não era mesmo isso que eu precisava?
O bilhete do avião para a Madeira cintilava no ecrã do telemóvel. A minha voz interior era uma maré de dúvidas.
E se não gostar? E se não for bem recebida? E se me atirar ao mar e aparecerem tubarões?
Depois veio outro pensamento.
E se eu gostar?
Respirei fundo e fechei a mala. Pronto, seja o que Deus quiser.
Na verdade, não fugia. Caminhava rumo ao desconhecido, a algo novo.
A ilha recebeu-me com uma brisa quente e o som ritmado das ondas na praia.
Fechei os olhos por breves segundos e inspirei o ar salgado, deixando-o renovar-me por dentro.
Era isto que me faltava.
A serenidade, contudo, durou pouco. Assim que cheguei ao retiro, a tranquilidade foi substituída por música alta e gargalhadas animadas.
Quase todos ali eram jovens, dos vinte aos trinta, espalhados em pufes coloridos, com copos na mão tão ornamentados quanto tropicais.
Definitivamente não é um mosteiro, resmunguei.
Um grupo junto à piscina ria tão alto que assustou uma gaivota de uma figueira próxima. Suspirei.
Criatividade? Luísa, realmente…
Antes que me escapasse para um canto, Luísa apareceu chapéu de palha meio torto e um copo de poncha na mão.
Beatriz! exclamou, como se não tivéssemos passado a noite anterior a trocar mensagens. Vieste mesmo!
Já estou arrependida, brinquei, sorrindo.
Vá, deixa-te disso! afastou os braços.
Aqui acontecem coisas mágicas! Vais adorar, acredita.
Confessava esperar algo menos barulhento, respondi, erguendo uma sobrancelha.
Parvoíces! Tens é de conhecer pessoas novas e beber a energia do sítio! Aliás, agarrou-me pela mão tenho de te apresentar alguém.
Não tive tempo de protestar: deixou-me de mão dada a atravessar a multidão.
Senti-me uma mãe cansada numa festa de escola, a tentar não tropeçar nas sandálias atiradas ao chão.
Parou em frente a um homem que parecia acabado de sair de um anúncio de verão.
Pele morena, sorriso descontraído e uma camisa de linho branca, desabotoada o suficiente para seduzir, sem ser excessivo.
Beatriz, este é o Miguel, anunciou com entusiasmo.
Prazer, Beatriz, disse ele com voz suave como o vento do mar.
Igualmente, respondi, esperando que a ansiedade não se notasse.
Luísa brilhava como se nos tivesse acabado de casar.
O Miguel também escreve. Falei-lhe do teu romance ficou felicíssimo por te conhecer.
Fiquei corada. Ainda não está pronto.
Não faz mal, disse ele.
O importante é a tua dedicação. Dois anos numa obra impressionante! Quero muito saber mais.
Luísa sorriu e afastou-se. Fiquem à vontade. Vou buscar mais ponchas!
Fiquei aborrecida com ela. Mas passados uns minutos fosse pelo charme de Miguel, fosse pela embriaguez do vento atlântico aceitei passear.
Dá-me só um minuto. Surpreendi-me a dizê-lo.
No quarto, revolvi a mala até encontrar o vestido mais arejado que tinha.
Porque não? Se é para me arrastarem para festas, ao menos vou bonita.
Ao regressar, Miguel já aguardava. Pronta?
Assenti, tentando parecer serena embora o coração quase me saísse pelo peito.
Leva-me.
Ele mostrou-me recantos da ilha ignorados pelo retiro.
Uma praia escondida com um balanço numa palmeira, uma vereda secreta até uma falésia de vista vertiginosa lugares ausentes dos roteiros.
Tens mesmo jeito, disse-lhe a rir.
Para quê? perguntou ele, sentando-se na areia.
Para nos fazer esquecer que não pertencemos a este sítio.
Sorriso dele foi ainda mais largo. Talvez pertenças mais do que pensas.
Durante a conversa, ri mais do que nos últimos meses juntos.
Falou-me das viagens, do amor aos livros paixões que se alinharam às minhas.
A admiração que demonstrava pelo meu trabalho parecia genuína, e quando brincou dizendo que um dia penduraria o meu autógrafo na parede, senti-me aquecida por dentro como há muito não sentia.
Mesmo assim, algo me inquietava.
Uma dúvida silenciosa que não compreendia.
Miguel era demasiado perfeito.
Na manhã seguinte, acordei cheia de energia e promessas criativas.
Hoje é o dia, murmurei, pegando no computador.
Os dedos voaram pelas teclas.
Mal o ambiente de trabalho abriu, o sangue gelou-me nas veias.
A pasta do meu romance dois anos de vida, noites em claro sumira.
Rebusquei o disco todo, esperançada em ser erro meu.
Nada.
Isto é esquisito, murmurei.
O computador permanecia aqui, mas a obra de que mais me orgulhava desaparecera como se nunca tivesse existido.
Não entres em pânico, ponderei, agarrando-me à secretária.
Havia de ter backup noutro lado
Sabia que não.
Saí disparada à procura da Luísa.
Ao cruzar o corredor, captei vozes abafadas.
Aproximei-me devagar. O coração disparou.
Pela porta semiaberta de um quarto, ouvi claramente:
Basta oferecermos isto à editora certa? era a voz do Miguel.
Fiquei gelada.
Consegui ver Luísa, inclinada, a sussurrar como cúmplice.
O manuscrito dela é genial, dizia Luísa com doçura fingida.
Havemos de arranjar maneira de o apresentar como meu. Ela nunca há de descobrir.
Um nó apertou-me o estômago. Fúria, desilusão.
Miguel, aquele com quem ria e em quem começava a confiar, parte disto tudo.
Antes que percebessem a minha presença, recuei e corri para o meu quarto.
Fechei a mala à pressa, sem conter o amargo desabafo:
Isto devia ser um recomeço, murmurei.
Os olhos turvos, perfeitos para quem já não acredita em segundas oportunidades.
Ao abandonar a ilha, o sol intenso pareceu-me crueldade.
Não olhei para trás.
Nem precisei.
Meses depois, a livraria em Lisboa estava cheia, os rostos felizes de leitores enchiam a sala.
No palanque, com um exemplar do meu livro na mão, foquei-me em respirar.
Obrigada a todos por estarem aqui, anunciei, a voz firme apesar da revolta que ainda me varria.
Este livro é resultado de muitos anos de trabalho e de uma viagem que não esperava.
A salva de palmas foi calorosa, mas sentida com dor.
O livro era meu orgulho mas o caminho até ali fora amargo.
A traição não desaparecera do peito.
Quando a fila dos autógrafos terminou e a última pessoa saiu, sentei-me no canto.
Foi aí que vi um pequeno papel dobrado sobre a mesa.
Falta-me o teu autógrafo. Café da esquina, se puderes.
A letra era inconfundível.
O meu coração parou.
Miguel.
Fitei o bilhete, presa entre curiosidade, raiva e algo mais indefinido.
Por instantes, só me apeteceu rasgá-lo.
Em vez disso, inspirei fundo, agarrei o casaco e fui.
Assim que entrei, vi-o.
Corajoso da tua parte deixares-me um bilhete assim, disse, sentando-me à frente dele.
Corajoso ou desesperado? respondeu.
Não sabia se vinhas.
Nem eu sabia, confessei.
Beatriz, preciso de explicar. O que se passou na ilha
No início nem percebi as intenções reais da Luísa.
Fê-lo parecer tudo do teu interesse.
Mas quando vi ao que ela realmente vinha, peguei na pen USB e enviei-ta.
Fiquei em silêncio.
No início, a Luísa convenceu-me de que eras demasiado tímida para publicar sozinha, continuou Miguel.
Disse-me que não acreditavas em ti. Queria surpreender-te, lançar o teu nome.
Surpreender? Roubando-me o trabalho nas costas?
Na altura, não o percebi assim.
Quando entendi a verdade, tentei encontrar-te mas tinhas partido.
O que eu ouvi não era o que parecia?
Não. Beatriz, quando percebi o que estava em causa, escolhi-te a ti.
Deixei o silêncio assentar esperando a revolta erupcionar, mas não aconteceu.
A manipulação da Luísa tinha acabado e o meu livro saíra como sempre sonhei.
Sabes que ela te invejava, acabou por dizer Miguel, baixinho.
Desde a universidade que sentia a tua sombra.
Quando viu a oportunidade, aproveitou-se da nossa confiança.
E agora?
Desapareceu. Cortou tudo. Não aguentou lidar com as consequências depois de lhe dizer que não participava.
Fizeste bem.
Isso já é muito.
Será que isso quer dizer que posso ter uma segunda oportunidade?
Um jantar, sorri, levantando um dedo.
Só não estragues.
O sorriso dele alargou-se.
Combinado.
Ao sairmos do café, apanho-me a sorrir.
Esse jantar tornou-se num segundo. Depois num terceiro.
E, sem perceber, enamorei-me desta vez, sem estar sozinha.
O que começou com traição, tornou-se numa relação feita de compreensão, perdão e sim de amor.






