Ao voltar para casa mais cedo, Zóia ouviu uma conversa do marido com a irmã — e ficou em choque

Ao chegar a casa mais cedo do que o habitual, Zita ouviu uma conversa do marido com a irmã e ficou sem chão

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Zita saiu mais cedo do centro de saúde a consulta tinha sido desmarcada, o médico estava doente. Ainda bem! Há muito que não recebia um presente assim uma tarde livre, dava para cozinhar o jantar com calma, em vez de apressar como normalmente.

Rodou a chave na fechadura em silêncio não queria acordar António, caso estivesse a descansar depois do trabalho. Afinal, António não estava a dormir.

Vozes vindas da cozinha.

Já não aguento mais, Leonor. Esconder isto todos os fins de semana dizia António, a voz cansada.

E queres o quê? Contar tudo logo agora? Leonor, a irmã. Quando teria ela chegado?

Zita ficou parada junto à porta meio aberta. Algo no seu peito apertou.

Se a Zita souber, tudo desmorona continuou o marido. Trinta anos de casamento ao lixo.

Tens de decidir Leonor falou mais firme se vais continuar a ir ter com ela todos os sábados.

Com ela?

Como posso abandonar? Está sozinha no mundo, não tem ninguém para além de mim.

E a tua esposa, não conta?

Zita agarrou-se ao vão da porta. O coração batia tão forte que parecia que a casa inteira sentia.

Portanto, nada de pescarias.

Não andava pelos rios com o Américo.

Assim, ele tinha alguém que visitava todos os fins de semana.

Percebes, Leonor se eu contar agora, ela vai odiar-me. Pela mentira. E se não contar António suspirou fundo. A consciência pesa.

Consciência! bufou Leonor. Onde é que ela estava antes?

Antes era tudo mais fácil. Agora ela está mesmo mal

Talvez esteja na hora de explicar tudo à Zita, sem rodeios.

Estás louca? assustou-se António. Ela mata-me! Ou pior, põe-me na rua. Onde é que vou morar aos sessenta anos?

Zita afastou-se da porta.

Trinta anos a preparar bifes para ele levar à pesca. A passar camisas, lavar botas de borracha, preocupar-se quando chegava tarde. E ele ia a outra.

E Leonor sabia!

A própria irmã sabia e ficava calada!

Meu Deus.

Como foi tão cega?

Pronto disse Leonor. Tenho de ir. Só pensa: isto não dura para sempre. Algum dia vem ao de cima.

Eu sei. Sei bem disso.

Zita ouviu passos a sair correu para a casa de banho.

Precisava de tempo.

Tempo para perceber o que ia fazer com esta verdade.

Tempo para decidir como viver dali em diante.

E talvez se ainda fazia sentido viver assim.

No espelho, Zita não se reconhecia. Era ela Zita Pacheco, esposa exemplar?

Exemplar tola, talvez.

Saiu para o marido com um rosto habitual. Ele estava à mesa, folheando o jornal. O mesmo de sempre, caseirinho.

Ah, Zita! saudou ele, fingindo alegria. Hoje estás cedo.

Consulta foi desmarcada.

A Leonor veio cá. Mandou cumprimentos.

Mentiroso. Ela deixou outro tipo de mensagem.

Vais jantar? perguntou Zita, controlando o tom.

Claro! O que vais fazer?

Bifes. Como sempre.

Passou uma semana infernal. Zita observava tudo no marido, cada gesto, cada palavra. Via mentira em tudo. No modo como escondia o telemóvel. Como ficava nervoso à sexta. Como preparava as canas de pesca.

No sábado de manhã não aguentou.

António, vamos à pesca juntos? sugeriu, inocente.

Ele esmoreceu.

Para quê? Vais só aborrecer-te.

Quero tentar. Talvez goste.

Não, não gesticulou está frio, cheio de mosquitos. Fica antes a descansar.

E lá saiu. Com ar culpado.

Zita ficou sozinha com os pensamentos, a cabeça a atormentar-se sem parar.

Na segunda-feira ganhou coragem para enfrentar a irmã.

Leonor, precisamos conversar.

Sobre o quê? ela respondeu desconfiada.

Só um desabafo entre irmãs. Há tanto tempo que não estamos juntas.

Marcaram encontro num café neutro. Leonor estava inquieta, brincava com o anel no dedo.

Como vais? perguntou Zita cautelosa.

Bem. E vocês?

Tudo normal. António anda viciado na pesca.

A irmã engasgou-se com o café.

É? Vai muitas vezes?

Todos os sábados. Parece doido.

Homens balbuciou Leonor. Lá gostam dos seus passatempos.

Mas sabes exatamente onde ele vai?

Eu?! Como vou saber?

Mas desviava o olhar. A mentir.

Estava a pensar se calhar ia com ele. Ver o que tanto o atrai nessa pesca.

Zita, porquê? Leonor ficou séria. Deixa o homem em paz. Cada um precisa de espaço.

Espaço! Fala mesmo de traição?

Leonor Zita aproximou-se sabes de qualquer coisa?

Não sei de nada! cortou a irmã. Nem quero saber. E aconselho-te a não mexer.

Levantou-se e saiu.

Deixando Zita convicta: a irmã encobre.

Em casa, Zita decidiu investigar por conta própria. Esvaziou bolsos de António, examinou a carteira, espreitou o carro.

E encontrou.

No porta-luvas recibos. Pagamentos regulares. Quinze mil euros por mês.

Instituição Particular Esperança. Cidade de Setúbal.

Instituição?!

Não era quinta, nem posto de pesca. Instituição.

Zita ficou com aquele recibo na mão, percebendo: o mundo dela caía definitivamente. Instituição é para doentes, para quem precisa de cuidados.

Ou seja, António tem alguém doente. Alguém que sustenta. Que visita aos sábados.

Mulher? Amante?

Não dormiu. Imaginou mil cenários, todos piores que o anterior.

De manhã decidiu.

Ia lá. A Setúbal. Ver com os próprios olhos que segredo escondia o marido.

Na sexta pediu dispensa do centro de saúde. Disse que precisava de consulta.

A viagem até Setúbal são três horas. Três horas para alimentar a ansiedade. Três horas a pensar no pior.

A instituição era pequena, acolhedora. Placa: Para pessoas com mobilidade reduzida.

Doentes.

O coração apertou. Será que António tem uma pessoa deficiente e ela nunca soube?

A quem vem visitar? perguntou a auxiliar na receção.

Eu hesitou Zita. Posso saber quem está cá por António Pacheco?

É familiar?

Esposa.

A auxiliar consultou os registos.

Natália Pacheco, quarto doze. Pode avançar.

Pacheco!

Usa o sobrenome dele!

Zita parou diante da porta número doze, incapaz de entrar. Ali estava a verdade, aquela verdade que tanto temia e procurava.

Natália Pacheco.

Com o apelido do marido.

A mão vacilou ao pegar na maçaneta.

Posso? perguntou entrando.

O quarto estava iluminado, cheirava a medicamentos e flores. Junto à janela, numa cadeira de rodas, estava uma mulher jovem, trinta e poucos anos, morena e magra.

E muito parecida com António.

Veio ver-me? surpreendeu-se a jovem, voz fraca, mas simpática.

Sim Zita engoliu em seco. Eu sou Zita. É Natália?

Sou. Conhecemo-nos?

Conhecem-se? Como responder a isto?

Sou mulher do António Pacheco.

O rosto de Natália mudou de imediato. Empalideceu, olhos muito abertos.

Meu Deus já sabe de tudo?

Agora sei. Zita aproximou-se. Conte-me.

Não posso o meu pai pediu para não contar a ninguém.

Pai.

As pernas de Zita fraquejaram. Sentou-se junto à cama.

Ele é seu pai?

Sim. Natália chorava. Perdão, não quis esconder, ele só dizia que a senhora não tinha filhos e que ia sofrer ao saber de mim.

Espere Zita levantou a mão. Conte tudo desde o início. Que idade tem?

Trinta e quatro.

Trinta e quatro! Nasceu um ano antes do casamento deles. Quando António namorava outra.

E sua mãe?

Faleceu há dois anos. Cancro. Natália limpou as lágrimas. O pai ajudou sempre. Mandava dinheiro, vinha visitar. Depois da morte dela, trouxe-me para aqui. Tenho paralisia cerebral, não me consigo governar sozinha.

Zita ficou em silêncio, digerindo tudo.

O marido tinha uma filha. Doente, sustentada por ele. E ela sem saber há trinta anos.

Ele é bom continuava Natália entre lágrimas. Vem todo o sábado. Traz comida, remédios. Fala muito de si. Diz que é maravilhosa.

Fala mesmo de mim?

Sim. Diz que a ama muito. Repete sempre: A minha Zitinha, a minha Zitinha. Diz que é a melhor mulher do mundo.

Zita riu amargamente.

A melhor mulher, enganada durante trinta anos.

Não foi enganada! Natália exaltou-se. Ele só tem medo! Tem medo que o largue se descobrir. Que sou doente. Que sou peso.

Não é peso.

Para muita gente sou. A mãe dizia Melhor nem ter nascido, mas o pai nunca disse isso. Disse sempre É minha filha, sou responsável.

A porta bateu. Entrou a auxiliar.

Natália, está com visita! Que bom. Depois olhou para a jovem. Alguma coisa errada?

Está tudo bem, Dona Mariana. É é tia Zita.

Tia Zita.

Ah! sorriu a auxiliar. Finalmente! O António Pacheco fala tanto de si! Diz que é boa e compreensiva.

Boa e compreensiva! Ela ali a fazer-se de detetive, suspeitando de traição.

A auxiliar saiu, ficam só as duas.

Fale-me da sua mãe pediu Zita.

Era muito bonita. O pai namorou com ela antes de a conhecer. Quando descobriram que nasci com problemas, a mãe não quis manter família doente. Mandou-o ir para uma mulher saudável. Para si.

E ele foi?

Queria ficar. Casar com a mãe. Mas ela não deixou. Disse que não queria casamento por pena. Se amava outra, que fosse.

E depois?

Casou consigo, mas não nos abandonou. Ajudou sempre. Quando cresci, começou a visitar. A mãe permitiu na condição de nunca a senhora saber. Tinha medo que o casamento acabasse por nossa causa.

Zita pensava. Sempre invejou mulheres com filhos. Chorou quando as fertilizações falharam. E afinal o marido sempre teve uma filha.

Por que nunca me disse? perguntou.

Temia. Dizia que sonhou tanto ter filhos consigo. Se soubesse que ele tinha filha, e ainda por cima doente, ia odiá-lo.

Porquê?

Porque mentiu, porque gastou dinheiro em mim que podia ser para os vossos filhos. Porque perdia tempo comigo.

Natália calou-se, depois murmurou:

Ele sofre muito. Cada vez que vem pergunta: Como conto isto à Zita? Como explico? E eu sempre disse: Pai, talvez ela entenda.

No corredor, passos familiares. Pesados, lentos.

António.

Oh não murmurou Natália. Ele não sabe que está aqui!

Os passos aproximavam-se.

Olá, filha! ouviu-se a voz.

Zita olhou.

Ali estava António, com flores e sacos de compras. Quando viu a esposa, deixou cair tudo.

Zita? murmurou. Como?

Vim conhecer a filha disse Zita, calma.

António ficou branco, encostou-se à porta.

Como descobriste?

Não escondeste bem.

Entrou, fechou a porta, sentou-se.

Pronto disse acabaste por saber.

Agora sei.

Odeias-me?

Zita olhou para ele, depois para Natália.

Ainda não sei. Estou a tentar entender.

O que há para entender? Enganei-te. Menti sobre a pesca. Gastei dinheiro da família.

Pai, não faças isso! Natália interveio. Tia Zita, ele é bom! Só teve medo!

Zita foi até à janela.

Lá fora há vida normal. Árvores, bancos, caminhos. Vida comum.

Ali, a dela estava partida e a reconstruir-se.

Preciso de pensar disse por fim.

Três dias sem falar com António. Nada. Ele andava pela casa como fantasma, tentava justificar-se Zita ignorava. Cozinhava, arrumava, mas como se não tivesse marido.

Só pensava.

Pensava que passou trinta anos sem saber. Pensava que tinha uma enteada. Pensava que o marido sempre preferiu mentira em vez de verdade.

Na quarta à noite não aguentou mais.

Senta-te disse a António. Vamos conversar.

Ele sentou-se à mesa, mãos juntas. Esperava sentença final.

Voltei a Setúbal, falei melhor com a Natália começou Zita.

E?

E percebi uma coisa. És um idiota, António.

Ele tremeu.

Idiota por achares que eu seria capaz de rejeitar uma filha doente. Idiota por sofreres sozinho durante trinta anos, em vez de sofreres comigo.

Zita

Cala-te. Ainda não acabei. Ela levantou-se, andou pela cozinha. Achavas que era assim tão má que deixava o marido por causa de uma filha doente? Pensavas que era mesquinha?

Não! Só tinha medo de te perder!

E quase perdeste de verdade.

António baixou a cabeça.

Desculpa. Sei que não mereço perdão. Mas peço.

Levanta-te.

Levantou-se.

Amanhã vamos juntos à Natália. Quero falar com os médicos para saber se pode vir para nossa casa.

António piscou os olhos.

O quê?

O que ouviste. Se ela é minha filha agora minha filha tem de estar perto da família.

Mas precisa de cuidados, é deficiente.

Arranjamos acompanhante. Adaptamos o quarto. Vamos conseguir. Zita pegou-lhe nas mãos. Sabes o que mais desejei nestes trinta anos?

Ter filhos.

Ter família. Uma família verdadeira. E agora tenho. Marido idiota, filha especial mas família.

António chorou. Zita nunca vira aquelas lágrimas.

Foste mesmo capaz de aceitar?

Já aceitei. Ontem comprei-lhe pijama novo e champô. Vamos levar amanhã.

Abraçou-a com força.

Não te mereço.

Não mereces, concordou Zita. Mas vais ter de aprender. Só uma condição: nunca mais mentiras. Nunca.

Prometo.

E mais. Quero que a Natália me chame mãe. Já que sou mãe, quero ser por inteiro.

Um mês depois, Natália mudou-se para a casa deles. Ficou com a antiga despensa pequena, mas luminosa. Zita escolheu papel de parede, cortinas e colcha pessoalmente.

Mãe chamou a filha na primeira noite tem a certeza? Sou um fardo

Se disseres isso outra vez, apanhas avisou Zita. Não és fardo. És minha filha. Ponto final.

À noite, quando Natália dormia, Zita e António estavam na cozinha a beber chá.

Sabes disse Zita a vida só está a começar.

Aos sessenta anos?

Isso mesmo. Finalmente temos família. Não somos só casal aborrecido. Somos pais. E temos uma filha para apoiar.

António concordou.

Obrigado.

Não agradeças. Só peço: nunca tenhas medo de me contar nada de novo.

Não terei.

Do quarto de Natália vinha uma gargalhada baixinha via uma comédia no tablet.

E esse som era o melhor do mundo.

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Ao voltar para casa mais cedo, Zóia ouviu uma conversa do marido com a irmã — e ficou em choque