Ao observar como o Tomás riscava mais um Homem-Aranha no caderno, ignorando por completo o enunciado da ficha de Matemática, os meus pais já tinham alguma certeza de que, naquela casa, o único com futuro tranquilo e sem grandes preocupações era o nosso gato, o Zé.
Nenhum dos muitos explicadores conseguiu despertar-lhe o mínimo interesse pelas ciências exatas. Pelo contrário, com cada professor novo, Tomás enfiava-se mais nos seus pensamentos e filosofias. Para ele, o mundo era uma grande trapalhada, e a verdadeira felicidade estava, dizia ele, nos momentos ociosos, a comer bolas de Berlim e a ver desenhos animados no telemóvel.
Quando a esperança já estava por um fio, o meu pai encontrou um anúncio estranho no OLX: Vendo halteres e incuto paixão pelas disciplinas escolares e pelo desporto aos vossos filhos, sobrinhos, amigos ou vizinhos. Método próprio. Trabalho Matemática, História, Português, Inglês, bíceps, tríceps, pernas, ombros, literatura, e peito. Abel.
Sem pensar muito já não havia capacidade para grandes cautelas o meu pai marcou o número. Do outro lado soou uma voz rouca e ofegante, acompanhada de pancadas regulares de ferro contra ferro.
Estou?
Bom dia, estou a ligar pelo anúncio…
Já vendi os halteres cortou logo o Abel, prestes a desligar.
Não, não, eu queria alguém para apoiar o meu filho na Matemática, Português, Literatura…
Idade, peso, aptidões do educando?
A objetividade do Abel impunha respeito, mas também metia um certo nervoso. As marteladas em ferro deram lugar ao assobio de cordas de saltar. Achei que até cheirava a suor pelo telemóvel.
Tem nove anos, vinte e cinco quilos, já consegue somar em coluna e…
Quantas flexões faz?
Perdão?
Flexões e elevações, quantas?
Não sei… talvez cinco, se tanto.
Distingue prefixos de sufixos?
Não faço ideia… preciso perguntar à minha mulher.
Que material têm em casa?
Materiais?
Compasso, transferidor, extensor, pequenos pesos?
Só uma régua de madeira.
Percebi. Envie-me a morada, chego aí numa hora disse Abel, gritando logo a seguir: Pernas afastadas, costas direitas! Não, não é para si, estou a dar História e desligou.
O meu pai ficou uns segundos, instintivamente com as pernas abertas e costas espetadas, e só depois foi ter com o Tomás.
Tal como seria de esperar, a notícia de que teria um novo explicador soou para o Tomás como música de fundo: aumentou o volume da televisão e pediu um chá com torrada. Às Ciências, era-lhe absolutamente indiferente.
Quando tocou à campainha, a minha mãe espreitou pelo óculo e ficou quase invejosa daquele peito largo e braços que lembravam os troncos da tapada de Mafra.
Bom dia entrou na casa de entrada, cheia de músculos e cheirando a champô de coco, a grande escultura humana chamada Abel. Onde pára o nosso campeão olímpico?
Ó V-v-vitor, acho que chegou o tipo da Opel, aquele a quem prometeste tratar da vista…
Desculpem lá, é engano ouviu-se da sala eu fui oftalmologista… em tempos.
Sou o Abel, explicador: atualmente.
Ah, então é você! o meu pai apareceu finalmente, constrangido, e ofereceu-se para ajudar com o saco.
Abel passou-lhe um saco de hóquei que, mal largou a alça, caiu e quase esborrachou o meu pai no chão. O Zé, o gato, fugiu dali a velocidades supersónicas, pulando por cima de portas fechadas.
Mas o que leva aí dentro? bufava o meu pai, puxando o saco para o quarto do Tomás.
Materiais de estudo. Ensino básico, desporto incluído.
Tomás estava enraizado no sofá a ver vídeos no telemóvel quando entrou o Abel. Isso foi o suficiente para lhe interromper a apatia.
Por amor de Deus, cuidado! gritou o meu pai, mas já era tarde. Abel entrou, fitou as paredes do quarto, ignorando o aluno novo.
Têm berbequim?
Para quê? perguntou o meu pai.
Praticar Português, claro respondeu Abel, deitando cá para fora uma barra de elevações, um saco de boxe e uma corda.
Vou ver com o vizinho disse, trémulo, o meu pai, e, pegando no Tomás filho, este é o Abel, vai ajudar-te.
Como é que fica com tantos músculos? largou o Tomás, em vez de um olá.
A somar e multiplicar em coluna brincou Abel, empilhando discos de ferro na maior das naturalidades.
Pronto, força nisso! disse o meu pai, saindo apressado.
É mais forte que o Homem-Aranha?
O Homem-Aranha não faz supino com duzentos quilos, pois não?
O Tomás não percebeu, mas sentiu que não.
Odeio aulas cortou logo pela raiz, esclarecendo o ambiente.
Aulas é para quem quer ficar para trás. Vamos trabalhar abdominais.
Abel sentou-se no chão e começou a dar-lhe no exercício físico. O Tomás ficou à espreita, crente de que o novo explicador desistiria depressa mas não, o Abel só mudava o exercício e puxava mais peso.
Depois de abdominais vieram halteres, extensor e flexões.
Então, tomaste nota? Queres ser forte? Ou vais passar a vida como o teu boneco, à rasca nas teias de aranha?
Tomás abanou a cabeça, envergonhado.
Assim é que é! Ora, então três séries de quarenta e cinco menos trinta e nove repetições. Começa lá pelos abdominais.
Isso é quanto?
Descobre e diz-me.
Não temos berbequim, só encontrei a furadora entrou o meu pai, de repente, ficando especado ao ver o filho afundar-se em flexões. Já cá venho murmurou, saindo em bicos de pés e encostando a porta.
***
Na manhã seguinte, às cinco e meia, tocou o telemóvel. O meu pai, ainda a dormir, preparava-se para deitar meia dúzia de palavrões a quem o acordava àquela hora, mas, vendo Abel à porta, percebeu que não havia insulto que cobrisse tanta superfície.
Parece que o Abel, durante a noite, ainda inchou mais: até as olheiras eram músculo.
Hoje temos História e Geografia, equipamento: ténis, t-shirt, calções. Vai ser maratona com exploração do bairro e da história local.
Ele vai no terceiro ano, ainda não dá essas disciplinas disse o meu pai, bocejando.
Também vai ter de declamar poesia. Vem connosco?
Não, obrigado, eu sempre fui bom aluno.
Em que ano se libertou o Algarve dos mouros?
Er… tenho de acordar o miúdo, que já é tarde, com licença fugiu para o quarto do Tomás.
Uns minutos depois, anunciou em voz baixa:
Ele não acorda nem por nada.
Põe-lhe roupa, acorda pelo caminho despachou Abel.
***
Três vezes por semana, lá estava Abel à porta.
Segunda: peito-tríceps-ombros-matemática-português.
Quarta: costas-bíceps-literatura-inglês.
Sexta: pernas-geografia-história.
Três semanas depois, Tomás entrou na cozinha sem t-shirt. Ao ver-lhe uns músculos definidos na barriga, o meu pai tapou instintivamente o seu próprio pneu da Super Bock com a cafeteira. O miúdo estava mais direito, mais seguro, e já até fazia sermões aos pais pela vida sedentária.
Oh Vítor, isto não me soa nada bem disse um dia a minha mãe, à hora do jantar. Sabes o que é que ele pediu para os anos?
Sim, uma consola. Ele já me chateou com isso.
Não, pediu uma barra de tração e uma liquidificadora para batidos verdes! Tenho receio que esse Abel nem seja explicador, mas mais um fanático do ginásio que vai destruir a saúde do nosso filho.
Achas mesmo? Dizem-me que também estudam matemática!
Mas tu já viste algum manual nas mãos deles?
Vi foi a tabela das calorias.
Pois, e mais nada. Tu bem sabes que esses fanáticos do ginásio não são grandes luminárias…
Antes um parvo musculado do que um cromo sem força!
Eu só queria mesmo era ter um filho equilibrado. Quero que estas sessões acabem já!
O telefone tocou.
É da escola dele espreitou o ecrã e atendeu. Sim? O que é que ele fez? Sim, sim, eu já vou aí.
Então?
Armou uma confusão. Vês? Eu bem te dizia. Não pode sair coisa boa disto!
Eu vou contigo.
***
Chegados à escola de táxi, foram logo chamados pela diretora.
Vês tu, tanta aula, e cá estamos, terceira classe e já somos chamados ao gabinete da direção!
O gabinete estava cheio: pais, crianças, a psicóloga e a professora titular. A confusão era tanta que do outro lado se desafinava o piano da música.
Isto não é um ginásio, isto é uma escola vociferou uma mãe.
Mas afinal o que aconteceu?
A professora titular tomou a palavra:
O Tomás pôs os outros a fazer barras no recreio, organizando a vez pelo método da divisão de frações.
A fazer o quê?
A rodar no ferro, somando cargas em cada ronda explicou Tomás.
Silêncio! Os outros não queriam. O Tomás ameaçou-os.
Mas foram eles que me insultaram. Eu só lhes expliquei a diferença entre esquisito e presunçoso. Depois vieram em grupo dar-me uns socos. Como diz o Abel: Quando tens energia a mais, faz mais uma elevação, e em vez de lutar com trogloditas, ensina-os a dividir, confessou o Tomás, meio envergonhado.
Disse-nos que se nos aproximássemos outra vez, acabava em raiz quadrada! queixou-se um miúdo quase a chorar.
Este animal não devia estar ao pé dos nossos filhos! gritou uma mãe, em desespero.
Calma aí fez-se ouvir finalmente o meu pai. Então, não houve luta nenhuma?
Os pais das vítimas abanaram a cabeça.
Ou seja, quando o atacaram, ele respondeu com matemática e barras?
E ainda nos pôs a correr no campo e a estudar Fernando Pessoa!
Estás a ver? E tu com medo que ele ficasse um bronco de ginásio disse o meu pai, e a minha mãe concordou.
A diretora limpou a garganta:
Quero pedir desculpa aos senhores pais disse ela.
Deve ser ele a pedir desculpa! gritou outro pai, a apontar ao Tomás.
Não, peço desculpa a vocês. O vosso filho é extraordinário disse, olhando para os meus pais. Mas, sabendo o que sei agora, temos de o transferir.
Lá está! Bem feito, vejam lá o vosso ginasta atrasado! festejavam os outros pais.
Passa a quarto ano. Está claramente muito à frente do programa ditou a diretora.
Apanhou toda a gente de surpresa. No silêncio, quase se cheirava o amargo da inveja dos outros pais. Saíram todos, cabisbaixos, evitando olhar para nós.
Abel, é o pai do Tomás. Olhe, afinal vão ser mais disciplinas, foi transferido para o quarto ano…
***
Uma semana depois, Tomás saltou para o quarto ano. Duas semanas mais e foi a provas de crossfit, já a preparar-se para a sua primeira Olimpíada de Literatura Infantil. Um mês depois, o pai de um dos antigos colegas ligou a perguntar o contacto do Abel.
Em pouco tempo, havia ali um grupo de miúdos a treinar com o Abel. Não se era excluído por falta de força física, mas sim por más notas no caderno.







