André já não reconhecia a própria esposa — não conseguia compreender o que estava a acontecer com ela. A Vera sempre limpava, cozinhava, passava a ferro, mas agora deixou de fazer tudo isso. Cautelosamente, André perguntou-lhe o que se passava e a resposta foi: “Passei anos a servir-vos, será que não mereço um pouco de descanso?” O marido começou a suspeitar que Vera tivesse alguém e decidiu vasculhar-lhe as coisas. De repente, na mala da Vera, André encontrou uma carta estranha

Olha, tenho que te contar uma história que parece ter saído da casa de qualquer um de nós, aqui em Portugal. O Rui já não reconhecia a esposa dele, Inês. Não percebia o que se passava com ela. A Inês sempre manteve tudo impecável: era ela que limpava, cozinhava, passava a ferro… Agora, de repente, deixou de fazer tudo isso. Um dia, muito cauteloso, o Rui perguntou-lhe o que se passava, ao que ela respondeu:
Olha, já lá vão anos a servir-vos posso descansar um bocadinho?

O Rui começou logo a pensar se não haveria ali outra pessoa no meio desta mudança toda e decidiu ir ver as coisas da mulher. E não é que, na mala dela, encontrou uma carta toda estranha?

O Rui, de verdade, estava perdido sem saber o que fazer. Eles estavam juntos há dezassete anos, sempre uma vida calma, sem grandes discussões, tudo à portuguesa: sopa ao jantar, ela a correr do trabalho só para preparar o jantar. Aos domingos, passava quinze camisas certinhas uma para cada dia para ele e para os dois filhos deles, embora os rapazes muitas vezes desenrascassem com duas ou três, porque aquele cuidado extremo nunca se pegou neles como no pai.

Pois bem, agora já ia na segunda semana que, ao pequeno-almoço, só apareciam cereais ou umas sandes, e a Inês até sugeria que fizessem tudo sozinhos. Ao jantar, quando muito, havia restos de comida do dia anterior. Outras vezes, só encontravam um recado: “Só volto depois das nove, coque a massa para o jantar”.

Os primeiros dias o Rui pensou que fosse por causa do congresso do instituto onde a Inês trabalhava, mas o congresso acabou e, afinal, a rotina antiga não voltou.

O Rui, à portuguesa, lá foi perguntando de forma discreta o que se passava, mas a Inês, sem papas na língua, disse-lhe:

Não posso ter a minha própria vida? Passei os últimos anos a cuidar de vocês, mereço respirar um bocadinho, não?

Claro que sim, Inês, sem problema respondeu ele, meio sem saber o que pensar.

Teve vontade de perguntar quanto tempo ia durar aquilo do “bocadinho”, mas não teve coragem. Só que o tempo passava e a Inês continuava a sair: ora ia ao cinema, ora ao teatro, ou visitava uma exposição algures no Chiado. E o Rui não gostou nada quando percebeu que ela andava a comprar vestidos mais ousados, e começou a maquilhar-se logo de manhã, em vez de fazer o pequeno-almoço. Não é que lhe deu uma coisa na cabeça: pensou logo que ela tinha um amante?

Sentiu-se mal sequer por pensar isso, mas não conseguiu evitar: começou a reparar em tudo, até espreitou o telemóvel dela, os movimentos do cartão Multibanco e lá foi ele remexer na mala dela. Foi aí que encontrou aquela carta, meio velha e já lida muitas vezes, escondida num bolso lateral. Claramente era uma carta de amor, com palavras que só poderiam vir de alguém muito próximo: “Inês, que saudades tuas, nada me consola enquanto não estamos juntos, a tua voz enche-me de esperança…

Custa a ler, não te vou mentir. Pela pinta da carta, aquilo não era novo, parecia uma coisa antiga, o que fazia doer ainda mais ele, que sempre evitou tentações, pensava: será que o casamento deles foi sempre uma farsa?

Entretanto, ele ficou três dias sem dizer uma palavra, a remoer tudo aquilo pensava nos momentos em que poderia ter traído, mas nunca o fez Ao terceiro dia, não aguentou mais.

Já sei tudo! disse-lhe ele, num tom sério.

Tudo o quê? perguntou ela, surpreendida, mas calma.

O Rui já nem perguntava, só disparava certezas:

Tens outro!

A Inês soltou uma gargalhada.

Ó Rui, que disparate é esse? Tu não estás a falar a sério, pois não?

Se ela, pelo menos, tivesse chorado ou admitido alguma coisa, talvez ele sentisse alívio, mas assim…

Eu li a carta! disparou o Rui. Não se escrevem coisas destas a um acaso qualquer: “mal posso esperar por aquele dia em que vamos estar juntos, as nossas almas unidas até ao fim do mundo…” Que nojo resmungou ele.

A Inês voltou a rir, o que só o deixou pior.

Mas estás mesmo a falar a sério? atirou-lhe ela.

Então não estou?

Ele, já de olhos baixos, respirava fundo.

Quer dizer que andaste a mexer na minha mala?

Andei.

E leste a carta?

Li.

E não te lembras que foste tu que a escreveste?

Eu? O quê?

Sim, tu! Estavas em Braga numa formação, eu em casa com o Tiago ainda bebé… Não te lembras?

O Rui franziu o sobrolho. Queria dizer que reconheceria a própria letra, que nunca escreveria aquelas coisas.

A Inês suspirou, subiu a um banco, tirou uma caixa da prateleira de cima do armário e colocou-a na cama. Procurou, procurou, até que entregou-lhe um envelope.

Olha aqui. Tinhas o braço direito aleijado e escreveste tudo com a esquerda.

Rui viu o nome dele e a morada de Braga, num letra à qual quase não reconhecia. Começou a lembrar-se vagamente do braço partido naquelas obras em Agosto… Será possível?

Mas porque é que andas com a carta atrás de ti? perguntou ele, ainda a matutar.

A psicóloga aconselhou respondeu ela, com calma.

Psicóloga?

Sim, Rui. Eu estou cansada. Já não consigo cuidar dos três sempre. Desde que o Tiago nasceu, nunca mais tive vida própria. Por vezes nem um obrigado ou flores ou coisa nenhuma só recebo um obrigado no dia da Mulher. Palavras de amor? Nem me lembro como soam. E eu ainda sou mulher, ainda sou jovem. Às vezes penso até em separar-me, acredita. Mas valorizo a nossa família! Por isso fui procurar ajuda, segui conselhos e pronto.

Ao ouvir aquilo, o Rui ficou abalado. Separarem-se? Ela pensava mesmo nisso?

Então… esses conselhos ajudam?

Às vezes sorriu a Inês.

E as cartas?

Servem para me lembrar porque começámos tudo isto: por amor.

O Rui anuiu, calado, e foi até à varanda. Não voltaram a falar do assunto nesse dia.

***

Na manhã seguinte, quando a Inês se levantou, achou a casa fora do normal, um cheiro delicioso a baunilha e sons vindos da cozinha. Quando entrou na cozinha, lá estava o filho mais velho a fazer omeletes e o mais novo a pôr queijadas nos pratos. E uma jarra com as flores preferidas dela, malmequeres.

O que é isto tudo? perguntou, incrédula.

Bom dia, mãe! disse o mais novo. O que queres chá ou café?

A Inês não acreditava no que via nem no que ouvia.

Quero café.

E o que vais comer? Omelete ou queijadas?

Queijadas…

O Rui não estava à vista, mas ela percebeu logo que aquilo tinha dedo dele. Quando acabou o primeiro pedaço, o marido apareceu. Estendeu-lhe um papel dobrado.

Bom dia, meu amor.

O que é isto? perguntou Inês.

Uma carta nova sorriu o Rui. Para ajudar de certeza.

Ela sorriu também, e a partir daí melhoraram as coisas lá em casa. Não, não foi sempre assim, com pequenos-almoços de rei todos os dias, mas de vez em quando havia surpresas, e já não era só ela que ia ao cinema muitas vezes o Rui fazia-lhe companhia. O casamento foi mesmo salvo.

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André já não reconhecia a própria esposa — não conseguia compreender o que estava a acontecer com ela. A Vera sempre limpava, cozinhava, passava a ferro, mas agora deixou de fazer tudo isso. Cautelosamente, André perguntou-lhe o que se passava e a resposta foi: “Passei anos a servir-vos, será que não mereço um pouco de descanso?” O marido começou a suspeitar que Vera tivesse alguém e decidiu vasculhar-lhe as coisas. De repente, na mala da Vera, André encontrou uma carta estranha