Há muitos anos atrás, recordo-me de como a vida de Beatriz mudou num daqueles momentos em que parece que tudo já foi vivido.
Beatriz estava na cama há já vários dias, sem forças para se levantar. Nada lhe doía realmente. Apenas sentia-se tonta, esgotada, sem vontade alguma de sair dali.
Para quê, afinal? pensava Beatriz. Já cumpri tudo o que tinha a cumprir nesta vida: os filhos cresceram, os pais já partiram e eu acompanhei-os na despedida. Agora, parece que já não tenho nada a fazer. Os anos passaram-se num sopro.
A vontade tinha desaparecido. Beatriz olhou em redor: já se viam fios de teia de aranha a pender do teto. O olhar caiu sobre a janela e o quintal onde antes plantava legumes, agora tomado pelas ervas daninhas. Começava a clarear o dia e Beatriz fechou os olhos, adormecendo.
Sonhou com a mãe. Espantou-se, pois só a sonhara uma vez, há três anos, logo depois do funeral. A mãe sorriu-lhe docemente, os braços estendidos numa tentativa de lhe fazer um carinho, como em vida, mas uma barreira invisível impediu-a de tocar-lhe.
Filhinha, já amanhã será o teu último dia… disse-lhe a mãe.
Beatriz acordou sobressaltada, o corpo a tremer.
Como assim, o último? Já está? Porquê tão cedo? gritava ela para o vazio.
Imaginou-se deitada ali, naquele quarto, sem vida: os filhos a chegar, a família, as vizinhas… A casa desarrumada, o quintal uma selva, sem nada para comer. Apanhou-se, irrequieta, sem saber por onde começar.
Na cozinha, depressa amassou a massa: Vai levedar até à noite, ainda faço umas empadas. Se chegar ao fim do dia, claro. Encheu uma bacia de água, agarrou num pano e foi limpando o pó de cada recanto. Arrumou tudo, esfregou o chão.
Pronto, a casa está um brinquinho! suspirou.
No quintal, Beatriz lavrou, arrancou ervas e podou ramos, sem sentir cansaço ou fome. Só lhe batia o pensamento: Último dia! Último dia! Só quando terminou a última horta sentiu as pernas doerem.
Descansar? Não, depois…
Lembrou-se da massa e correu para dentro. Em pouco tempo, o cheiro das empadas acabadas de sair do forno misturava-se com a sua nostalgia.
Amanhã vêm os filhos, vão beber o chá com as empadinhas, lembrar-se de mim… murmurou, com a voz embargada. Provou uma ainda quente, ficaram mesmo fofas!
Sentada junto à janela, pensava:
Como é bom estar viva!
Mas sentia-se de novo sem rumo. Começou a escolher roupas; finalmente, decidiu pelo vestido azul, guardado para uma ocasião que nunca surgira. Fez o cabelo, deu um retoque de rouge e vestiu-se. Espreitou ao espelho e sorriu-se:
Tanta beleza! Mais valia ir a um baile do que morrer assim!
Mas, lá está, não discutimos com o destino. Deitou-se, pronta a partir. Mas não houve tempo para isso.
De repente, ouviu o ruído de um carro a parar em frente à casa e o sinal da buzina.
Deve ser para os vizinhos, lá chegam muitos carros ao fim-de-semana, pensou Beatriz.
Depois de algumas batidas à porta, estranhou. Espreitou, viu uma carrinha desconhecida.
Que carro imponente, até parece de casamento! escapou-lhe.
Abriu a porta. Ali estava um homem, bem vestido, ar simpático, cheiro a lavanda.
A senhora é a Beatriz? perguntou ele.
Sou, sim…
Eu vim por sua causa, peço desculpa pelo atraso, o caminho foi longo…
Precisa de alguma coisa? perguntou, confusa.
O homem hesitou.
Vim conhecer a senhora, se não se importar. Eu sou o Simão.
Conhecer-me? Mas porquê?
Pedi-lhe amizade no Facebook, mas nunca respondeu. Procurei-a, consegui saber onde vivia e decidi vir.
Beatriz achou aquilo estranho.
Olhe, Simão, não estou para conhecer mais ninguém nem pretendo mudar a minha vida. Se fosse a si, voltava para casa.
Tem razão, devia ter telefonado antes. Adeus, Beatriz.
O homem virou costas, mas antes de chegar ao carro, voltou e estendeu-lhe uma caixa de bombons.
Aqui tem, desculpe-me.
Beatriz sentiu pena dele. Já devia vir esfomeado da viagem.
Espere, Simão. Entre, ofereço-lhe um chá pelo menos.
Simão sorriu, deu dois passos de esperança.
Com todo o gosto, Beatriz.
Entraram. Mandou-o lavar as mãos, pôs a mesa, serviu-lhe chá e empadas.
Aceita uma empada? sugeriu.
Se for para si, como com prazer.
A mesa ficou repleta de coisas boas e ambos sorriram.
Pouco a pouco, o ambiente aqueceu. Beatriz sentia-se tão bem, tão tranquila ao conversar com o desconhecido. Simão era divertido e interessante, parecia que o conhecia de sempre.
Qualquer coisa de que precisar, é só pedir, disse ele.
Bem, se quiser ajudar, há tanto por fazer… O barracão está a cair, a vedação a desfazer-se…
Simão acenou.
Não se preocupe, eu trato disso.
Agradeceu a refeição e preparou-se para sair.
Durma bem, Beatriz.
Boa viagem, Simão.
Arrumou a mesa e foi dormir, ou melhor, preparar-se para morrer.
Adormeceu exausta, o corpo a pedir repouso.
No sonho, a mãe reapareceu.
Filha, fugiste ontem sem ouvir até ao fim! Hoje era o último dia da tua solidão. Nós, lá em cima, demos um jeito. Um anjo irá cuidar de ti. Não o afastes, cuida bem desse anjo, minha querida.
Qual anjo, mamã? Já fugiu, o teu anjo, assustou-se com tanto trabalho.
A mãe sorriu e desapareceu na luz.
De madrugada, foi acordada pelo barulho de camiões. Espreitou pela janela: um camião carregado de madeira, outro de ferro, trabalhadores a descarregar material.
Mas o que é isto? Não encomendei nada!
Ia protestar, quando reconheceu Simão, a indicar a descarga.
Quando terminaram, tudo voltou à normalidade.
Meu Deus, mas aqui constrói-se uma casa!
Com o correr do dia, chegou mais material. A cerca nova era parecida com a da vizinha, de quem Beatriz sempre gostara do quintal.
Simão arregaçou mangas e pôs mãos à obra liderava e trabalhava como gente habituada.
Beatriz, perdida, embaraçada, não sabia como reagir. A vida tinha-lhe mostrado pouco dos homens: dois maridos e nenhuma sorte, sempre a contar só com ela.
Dias depois, a casa tinha chão novo, barracão reconstruído, fogão consertado, a vedação brilhava. Mesmo assim, Beatriz continuava desconfiada.
O que quererá ele? Talvez queira dinheiro…
Mas não tinha muito. Junção de uns euros, talvez uns trocos.
Quando Simão, cansado, entrou, ela adiantou-se:
Simão, obrigada, não sei o que faz isto, mas aceite estas economias. Pago o que faltar mais tarde.
Ora, veja lá! Eu não quero dinheiro, Beatriz. Não faça isso.
Ela insistiu. Simão recusou, despediu-se rapidamente e saiu de casa.
Não voltou no dia seguinte, nem no outro, nem na semana seguinte…
O vazio apertou-lhe o peito. Nada lhe preenchia os dias, sentia falta dele como se o conhecesse de sempre.
Porque fui tão dura com Simão? E agora, como vivo sem ele?
Perdida nos próprios passos, encontrou a vizinha, senhora de todas as novidades.
Ó Beatriz, não sejas parva, homem como aquele não aparece todos os dias! E olha o que fez por ti.
Já foi, nem o vejo.
Olha que não, o carro dele está parado lá na curva desde ontem.
Beatriz correu esperançosa, mas nada viu. A desilusão tomou conta dela.
Nessa noite, sem sono, envolveu-se no xaile e foi sentar-se nas escadas do alpendre, sentindo o fresco. Com voz baixa, quase a soluçar, murmurou:
Por que sou tão infeliz? Porque fui tão teimosa?
Começou então a chorar.
De repente, alguém a abraçou, enxugando-lhe as lágrimas com beijos.
Beatriz, não chores, por favor! pedia-lhe Simão.
Onde estiveste este tempo? Porque foste embora?
Nunca fui. Fiquei por aqui, porque não consigo partir, porque te amo.
E eu a ti, Simão. Mais do que tudo.
Beatriz apertou-se ao seu anjo, enviado dos céus.
Obrigada, mamã, sussurrou, chorando, mas agora, de felicidade.






