Ana estava deitada na cama há já vários dias, sem forças para se levantar. Não sentia dores, apenas tonturas, um grande cansaço e, no fundo, nenhuma vontade de sair dali.

Maria estava deitada na cama há dias, sem forças para se levantar. Não sentia dor em lado nenhum, mas a cabeça girava, não tinha energia, e, sinceramente, nem vontade de sair dali.

Para quê? pensava ela, já fiz tudo o que tinha para fazer nesta vida: criei os filhos, despedi-me dos meus pais E agora, é como se tivesse ficado a ver navios. Os anos passaram num instante, mal dei por eles.

Não lhe apetecia nada. Maria olhou em volta: do teto já pendiam algumas teias de aranha. O olhar dela caiu na janela, onde tinha a sua horta agora tomada pelo mato. Começou a amanhecer, Maria fechou os olhos e acabou por adormecer.

Sonhou com a mãe. Maria ficou surpreendida: a mãe só lhe aparecera uma vez em sonhos, havia três anos, logo depois do funeral. A mãe olhava para ela com carinho, como se quisesse abraçá-la e fazer-lhe festas no cabelo, como antigamente, mas havia uma parede invisível a impedi-la.

Minha filha querida, sussurrou a mãe, amanhã já é o teu último dia

Maria acordou num sobressalto, trémula.

Como assim, último dia? Já acabou? Então tão cedo? gritava, sem saber bem a quem.

Na cabeça dela desenhou-se logo o cenário: ela, estendida naquela cama, sem vida, os filhos e familiares a chegar a casa uma confusão, a horta numa desordem, nada feito para comer. Maria começou a correr pela casa, aflita, nem sabia por onde começar.

Já na cozinha, depressa amassou a massa: Até ao fim do dia leveda, faço umas empadas. Se chegar até lá

Encheu uma bacia com água, pegou numa esponja e limpou o pó por todo o lado. Arrumou tudo o que estava espalhado. Continuou pelo chão.

Pronto, está tudo limpo! suspirou Maria.

Faltava a horta. Maria andou de um lado para o outro, como se não sentisse nem fome nem cansaço, só pensava: Último dia! Último dia!

Só quando tirou a última erva daninha é que sentiu as pernas doridas.

Tenho de descansar. Não, depois, depois descanso.

Lembrou-se da massa e entrou em casa apressada.

Já havia empadas na mesa.

Pronto, amanhã os miúdos vêm, tomam um chá com empadas, lembram-se da mãe disse com a voz trémula, deixa cá provar. Ai, ficaram um mimo, leves como penas!

Maria sentou-se à janela, pensativa:

Afinal, viver é tão bom!

Mas nada feito, pensava nela, estava pronta para a sua última viagem.

Começou a escolher roupa, sem saber o que pôr. Acabou por escolher o vestido novo, que ainda não tinha tido coragem de estrear.

Ao espelho, ajeitou o cabelo e pôs um pouco de maquilhagem, vestiu o tal vestido. Olhou para si e até gostou do que via:

Uma beleza! Assim nem é caso de se enterrar, é de ir casar!

Mas a vida tem as suas vontades… Maria deitou-se, à espera do fim. Mas não conseguiu: ouviu o barulho de um carro a parar junto à porta e uma buzina.

Deve ser para os vizinhos pensou ela, aquilo era costume.

Passados uns minutos, bateram à porta, outra vez e outra.

Será que são os meus filhos? Espreitou pela janela. Não, era um carro que não conhecia.

Ora bem, mas que bela carrinha! escapou-lhe sem querer. Quem seria?

Foi abrir. Tirou o trinco, abriu a porta e, à frente dela, estava um homem, bem-vestido, arranjadinho. Maria olhou-o de alto a baixo.

Olha, vem de gala, como se fosse a um casamento! pensou ela.

É a Maria? perguntou o homem.

Sou

Eu venho por si. Desculpe o atraso, o caminho foi longo

Mas precisa de alguma coisa? Maria, sem perceber nada.

Sim, hesitou ele, sem saber como explicar.

Olhe, deve estar enganado.

Não, não, é mesmo por si. Desculpe aparecer assim inesperadamente.

Só que já é tarde. Diga lá.

Pois, acontece que me atrasei, vim de longe e ainda me perdi no caminho.

Vendo o ar confuso de Maria, o homem continuou:

Chamo-me Luís. Queria muito conhecê-la.

E eu cá em casa, a contar já os meus últimos minutos, pensou Maria.

Mas como sabe você quem eu sou? quis ela saber.

Mandei-lhe um pedido no Facebook, mas como nunca lá entra, decidi tentar encontrá-la não me pergunte como, um dia conto. E pronto, resolvi arriscar.

E agora, que faço contigo? pensava Maria.

Luís, desculpe, foi-se o tempo das novidades, não quero mudar nada na minha vida, é melhor fazer-se à estrada.

Se calhar tem razão, devia ter ligado antes. Adeus, Maria.

Ele dirigiu-se rapidamente para o carro, meia volta deu-lhe uma caixa de bombons.

Perdoe-me.

E voltou ao carro.

Maria sentiu-se mal, com pena daquele desconhecido. O homem ali, um dia inteiro a viajar, devia estar cheio de fome.

Luís, espere aí chamou ela , entre, vá, pelo menos damos um chá.

O homem sorriu e correu para a porta.

Com todo o gosto, Maria.

Entraram em casa.

Lave as mãos, a toalha está ali.

Maria encheu as chávenas de chá, pôs as empadas na mesa.

Tem fome? perguntou-lhe.

Se não for incómodo

Ora, sirva-se à vontade.

Maria percebeu que ela própria também estava esfomeada. Depressa encheu a mesa, ainda bem que tinha feito comida suficiente.

Bom apetite desejaram ao mesmo tempo, e desataram a rir.

Pela primeira vez em muito tempo, Maria comeu com prazer. Sentiu-se em paz e à vontade, mesmo com aquele estranho. Luís era bom de conversa, e ao fim de uma hora parecia que o conhecia há anos.

Maria, só tem de dizer, se precisar de alguma coisa, eu ajudo.

Maria olhou-lhe para a roupa e sorriu.

Ajudar? Pode crer! O barracão está a cair de podre, a vedação precisa de trocas

Luís ficou pensativo:

Maria, eu faço, eu trato de tudo.

Já se ia pondo a mexer.

Obrigado por tudo. Não quero abusar, não fico para dormir, claro, percebo que não convém. Adeus, Maria.

Boa viagem, Luís!

Maria arrumou a mesa, sentou-se um bocado, e foi-se deitar, ou melhor, preparar-se para morrer.

Adormeceu depressa, o cansaço pesava.

Filha, tu ontem fugiste, nem ouviste tudo? a mãe estava a esperá-la no sonho hoje era o último dia da tua vida solitária. Sabemos o quanto custa viver sozinha, e por isso resolvemos mandar-te um anjo de companhia. Não o afastes, ele vai cuidar de ti, cuida tu dele também.

Mas quem, mãe? O anjo já fugiu, assustou-se, viu tanto por fazer

A mãe benzeu-a e desapareceu na luz.

De manhã, ainda o sol não tinha nascido, Maria acordou com barulho de carros. Espreitou: um camião carregado de materiais de construção. Parou à porta, depois outro, homens começaram a descarregar tábuas.

Mas o que é isto? Eu não pedi nada!

Ia a sair para ralhar, quando reparou que Luís é que estava a indicar como descarregar.

Quando tudo ficou arrumado, partiram.

Maria saiu à rua.

Valha-me Deus! Até dá para construir outra casa!

Perto da hora de almoço, chegou outra carrinha: descarregaram chapas de ferro, mais não sei quê

Ah, uma vedação! Igualzinha à da Fernanda, minha vizinha. Maria sempre lhe achou graça à vedação nova.

Os homens fizeram-se ao trabalho logo, e Luís também, a trabalhar e a coordenar.

Luís, pelo amor de Deus, porquê tudo isto? perguntou Maria.

Maria, fica descansada, não se preocupe, vá para dentro, está frio hoje.

Maria estava baralhada, à sua vida só ela mandava, nunca pudera confiar nos homens (e teve dois!). Nunca ninguém cuidou dela, sempre fez tudo sozinha. Não sabia bem como reagir.

O trabalho não parava. Em poucos dias, havia uma vedação nova, barracão renovado, chão e lareira arranjados. Mas Maria continuava desconfiada.

Que quererá ele? Queria era pagar-lhe

Mas não tinha dinheiro para aquilo tudo.

Dou o que tenho, o resto pago depois.

No fim, quando Luís entrou em casa, suado mas satisfeito, Maria disse:

Luís, agradeço-lhe tanto, a sério, nem sei porque fez isto por mim…

Maria, por amor de Deus, porquê isso?

E ela estendeu-lhe umas notas.

Tome, é pouco, mas pago depois.

Oh Maria, não faça isso, não há necessidade.

Por favor, há trabalho, tem de se pagar.

Luís saiu. Minutos depois, ela ouviu o motor da carrinha a ir-se embora.

Saiu a correr Luís já não estava. Não apareceu nem no dia seguinte, nem no outro, nem uma semana depois.

Maria sentia-se perdida. Um vazio enorme apertava-lhe o peito. Não conseguia pensar em nada nem em ninguém tinha-se apaixonado como uma rapariguinha.

Para que é que fui ofendê-lo? E agora? Como fico sem ele? pensava ela, como se o conhecesse desde sempre.

Saiu à rua sem destino. Foi a vizinha, a Dona Isabel, que sabia as vidas todas, a chamá-la.

Ó Maria, não mandes esse homem embora, olha só o que fez por ti! Nota-se que é homem de juízo!

Ele já foi há muito, Isabel disse ela, desanimada.

Achas tu! Do anoitecer ao amanhecer, a carrinha dele está ali na curva à entrada da aldeia.

Onde?

Ali, Maria, vai lá ver

Maria nem ouviu mais nada, desatou a correr, cheia de esperança. Mas, nada, nem Luís, nem carrinha.

Deve ter-se rido de mim pensou Maria, e voltou para casa.

Nessa noite, não conseguia dormir. Levantou-se, pôs um xaile e sentou-se nos degraus da varanda. Estava frio, embrulhou-se toda e ficou ali.

Porquê tanta desgraça comigo? chorou, e desatou num pranto.

De repente, sentiu-se erguida nos braços de alguém, cheia de beijos na cara molhada de lágrimas.

Maria, não chores, minha querida! pediu Luís.

Onde é que tu estavas? Porque foste embora?

Nunca fui, nem consegui ir. Porque te amo.

E eu a ti. Mais do que nunca.

Ela abraçou-se ao seu anjo, enviado por quem já estava lá em cima.

Obrigada, mãe sussurrou, e chorou de felicidade.

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Ana estava deitada na cama há já vários dias, sem forças para se levantar. Não sentia dores, apenas tonturas, um grande cansaço e, no fundo, nenhuma vontade de sair dali.