Tudo começou como o mais comum dos planejamentos de férias de verão. Eu e minha esposa, o nosso velho SUV, um roteiro de mais de mil quilómetros até ao Algarve e aquele doce entusiasmo pelo caminho. Sempre fomos apaixonados por road trips, precisamente pela sensação de liberdade: decides o ritmo, fazes pausas quando apetece, segues para onde te chama o coração. Nada de horários de comboios, crianças a chorar na carruagem ao lado, ou voos adiados sem explicação.
Mas desta vez cometemos um erro fatal deixámos escapar os nossos planos.
Durante um jantar de amigos, daqueles onde se junta malta de círculos vários, fui eu o ingénuo a comentar que dali a duas semanas íamos descer ao sul, no nosso carro.
Ai sim? Em que dias? entusiasmou-se logo um casal à minha frente.
Eram o Tiago e a Andreia. Não éramos próximos, apenas conhecidos de encontros em festas.
Arrancamos dia quinze, respondi, sem desconfiar.
Nem acredito! Também vamos para o Algarve! animou-se Tiago, pousando o garfo. O nosso início de férias é dia dezasseis, pensávamos ir de comboio, mas os bons lugares já foram, só há mesmo aqueles junto à casa de banho. Porque não vamos convosco? Dividimos a gasolina, a viagem é mais animada, somos tranquilos, sem stresses.
Olhei para a minha mulher aquele olhar dela dizia «nem pensar». Comecei a inventar desculpas sobre o carro cheio, que viajávamos devagar e gostávamos de muitas paragens.
Oh, vá lá, só levamos uma mala! insistiu Tiago. E em termos de dinheiro, então, nem se fala. Com os combustíveis a preços absurdos, assim fica metade. Ajuda-nos, somos de casa.
Acabámos por ceder. O argumento do dinheiro foi determinante, e recusar cara a cara dava vergonha. Aquela típica falta de assertividade que paga sempre mal.
«Quem se mete a bom samaritano, acaba maltratado»
Combinámos encontrar-nos à porta do nosso prédio às cinco da manhã. Saímos de casa pontuais, mala arrumada: as nossas coisas, água, ferramentas, mantas. O Tiago e a Andreia apareceram quarenta minutos mais tarde.
O Uber impacientou-se no trânsito, atirou Andreia, sem um pedido de desculpas, a puxar uma mala do tamanho de uma arca frigorífica e mais uns sacos de comes.
Dissemos para trazerem só o essencial, não consegui evitar.
Deixa lá, ela é mulher, gosta de ter opções de roupa, riu-se Tiago.
Passámos uns bons minutos a jogar tetris com as malas para conseguir enfiar aquilo tudo.
Uma hora de viagem depois, começou o martírio. Andreia queixou-se do calor ligámos o ar condicionado ao máximo. Dez minutos volvidos, Tiago estava com frio. Não gostavam da minha playlist. Depois, foi um nunca mais acabar de pedidos para parar: para ir à casa de banho, para café, para esticar as pernas, para fumar.
O meu itinerário calculado para fugir ao trânsito e às filas colapsou. Em vez de duas ou três paragens pensadas, parecia que íamos de autocarro.
O auge chegou na área de serviço.
Enchi o depósito, a conta subiu aos 70 euros. Voltei ao carro, Tiago mordia um cachorro quente.
Então, fazemos as contas? perguntei.
Isso faz-se no fim, somamos tudo e cada um paga a parte, sem stress, despachou-me ele.
Não gostei, mas a minha mulher sossegou-me baixinho: «Deixa, depois acertam-no fim». Não voltei a insistir. Os portagens paguei eu também nem perguntaram quanto foi.
Pelo caminho iam comendo os seus lanches, as migalhas por todo o lado. Sempre que pedia para terem atenção, Andreia ria-se:
Ó, isso passa-se o aspirador e pronto, não dramatizes!
Chegámos ao destino já de madrugada, mais exaustos pelo convívio do que pela viagem.
«Só fomos convosco, nada mais»
Na manhã seguinte, depois de descansarmos, encontrámo-nos na cozinha do hostel. Tirei o meu caderno de folhas pautadas, com a lista de despesas.
Então, contas simples: gasolina 240 euros, portagens 50. No total, 290. Dividido por dois, 145 euros para cada lado.
Tiago quase se engasgou com o chá, Andreia olhou para mim como se tivesse pedido um rim.
Desculpa lá, 145 euros? Estás a brincar? tossiu Andreia.
Não brinco. Combinámos dividir custos.
Tiago pousou a chávena.
Mas tu ias gastar isso na mesma! O carro é teu, ias meter gasolina de qualquer forma. Só nos sentámos nos bancos vazios.
Desculpa? senti o sangue a ferver. Nós esclarecemos logo os termos. Passei o caminho a adaptar-me a vocês, mais malas, mais paragens, mais despesas!
Que desconforto é que tiveste? ripostou Andreia. Foi super animado, estivemos sempre a conversar. Pensámos que era à moda antiga. Se dizias logo, tínhamos apanhado um BlaBlaCar bem mais barato.
Qualquer condutor vos tinha deixado na berma com esse choradinho e essa porcaria toda espalhada, explodiu a minha mulher.
Olha, concluiu Tiago. Damos-te 20 ou 30 euros, só simbólico. Mas metade, nem pensar. Também temos orçamento contado.
Levantei-me.
Não quero dinheiro nenhum. Considerem como um presente. Mas no regresso, tratem de outra solução.
O quê!? gritou Tiago. Ficámos sem bilhetes! Combinámos ida e volta convosco!
O combinado era dividir as despesas. Vocês não cumpriram. Bom resto de férias.
Férias separadas e regresso em paz
Os dez dias seguintes, nenhuma palavra, apesar de estarmos no mesmo aldeamento. Encontrámo-nos duas vezes na praia desviaram o olhar ostensivamente.
Na véspera da partida, recebi mensagem de Tiago: «Pronto, vamos dar-te 70 euros ao todo, ida e volta. Leva-nos contigo, não há bilhetes, a Andreia enjoa nos autocarros.»
Deixei-o sem resposta.
Arrumámos tudo com calma, óleo revisto, e partimos ao romper do dia. A viagem de volta foi um prazer: música nossa, paragens certas, e aquele silêncio abençoado.
Depois ouvi dizer pelos amigos comuns que eu tinha sido uma má pessoa. Que deixei amigos em maus lençóis no Algarve, por causa de uns trocos. Tiago e Andreia gastaram imenso dinheiro em autocarros e comboios, e agora falavam mal de nós a toda a gente.
O que é certo é que ganhámos uma lição valiosa. Hoje, se alguém pergunta: Já agora, levam-me convosco para fora?, respondo sorrindo, mas firme: Desculpa, preferimos mesmo ir só os dois.E nunca mais partilhámos viagens por favor, nem segredos de itinerário à mesa de jantar. Descobrimos finalmente o gosto egoísta mas delicioso de viajar a dois pelo simples prazer de ir, de chegar, de não ter de dividir silêncios ou paisagens, de só parar quando apetece. Sem malas alheias a ocupar espaço e sem contas mal resolvidas no porta-luvas da memória.
Custa aprender a dizer não; mas, às vezes, é esse não que nos devolve a paz, a estrada livre e a certeza de que, há viagens que só valem mesmo por serem feitas a dois. E que, por mais que o mundo insista em impor companhia a contragosto, há momentos em que vale mil vezes a solidão partilhada com quem se ama do que a multidão de quem nunca viaja no mesmo sentido.







