Tudo começou como qualquer planeamento normal das férias de verão. Eu e a minha mulher, o nosso fiel SUV, uma rota de mais de mil quilómetros até ao Algarve e aquela doce ansiedade pelas horas de estrada. Sempre fomos adeptos de viagens de carro, exatamente pelo sentimento de liberdade: escolhes o ritmo, páras onde te apetece, mudas de rumo se te der na gana. Nada de horários apertados de comboios, crianças a chorar no compartimento ao lado ou aviões atrasados.
Mas, desta vez, cometemos um erro de principiante deixámo-nos escapar em conversa sobre os nossos planos.
Numa dessas almoçaradas com amigos, entre bifanas e imperiais, acabei por dizer, sem pensar muito, que dali a duas semanas íamos de carro para o sul.
A sério? Em que dias? perguntou logo um casal sentado em frente.
Chamavam-se Tiago e Filipa. Não éramos propriamente chegados; encontrávamo-nos só nestas ocasiões.
Saímos dia quinze de manhã, respondi, sem imaginar o que aí vinha.
Olha que também vamos para esses lados! animou-se o Tiago, pousando o garfo. As nossas férias começam dia dezasseis. Pensámos ir de comboio, mas só há lugares horríveis, junto às casas de banho. Vamos convosco? Dividimos o combustível a meias, assim vai-se na conversa, somos pacíficos.
Olhei para a minha mulher o olhar dela disse-me tudo: um claro não. Fui dizendo que o carro ia cheio, que gostávamos de ir na calma e parar muitas vezes.
Oh pá, só levamos uma mala pequena! insistiu o Tiago. E olha que, em termos de dinheiro, é um alívio. A gasolina está pela hora da morte, assim poupamos imenso. Dá-nos uma ajuda, não somos estranhos.
Acabámos por ceder. O argumento dos custos convenceu-me, e recusar na cara deles deixou-me desconfortável. No final, essa típica falta de coragem iria sair-nos cara nas duas semanas seguintes.
Quem quer estar descansado, não faça favores
Combinámos encontrar-nos à porta do prédio às cinco da manhã. Nós chegámos a horas, com a bagageira organizada: as nossas mochilas, garrafas de água, ferramentas, mantas. Tiago e Filipa apareceram quarenta minutos depois.
O Uber demorou imenso, disse Filipa sem um pedido de desculpa, a arrastar uma mala quase do tamanho do frigorífico lá de casa e mais uns sacos de comida.
Combinámos trazer pouca tralha, não contive.
Oh, deixa lá, é mulher, precisa de roupa e tal, riu-se o Tiago.
Lá joguei ao Tetris a encaixar aquilo tudo.
Uma hora depois começou o calvário. A Filipa queixou-se do calor liguei o ar condicionado no máximo, o Tiago passados dez minutos queixou-se de frio. A minha música não agradou. Depois, começaram os seus pedidos: parar para ir à casa de banho, tomar café, esticar as pernas, fumar.
O meu plano de evitar engarrafamentos não resistiu. Em vez de poucas paragens, éramos uma espécie de táxi coletivo.
O auge aconteceu numa área de serviço.
Atestei o depósito, ficou 65, volto ao carro. O Tiago comia um pão com chouriço.
Então, fazemos as contas? perguntei, esperando o MBway.
Deixa isso para o fim, depois dividimos tudo direitinho, respondeu ele, despreocupado.
A mim não me soou bem, mas a minha mulher murmurou: Deixa estar, no fim acertam contas. Fiquei calado. Também paguei todos os portagens nem quiseram saber quanto tinha sido.
Durante a viagem, comeram as suas sandes, iam deixando migalhas pelo banco. Se lhes pedia mais cuidado, sorriam:
Eh pá, não faz mal, depois aspiras.
Chegámos ao destino já de madrugada, esgotados não só da condução, mas da companhia.
Nós só fomos passageiros
No dia seguinte, encontrámo-nos na cozinha comum da casa onde ficámos. Abri o meu caderninho de despesas.
Ora bem, comecei. Gasóleo: 240, portagens: 45. Total: 285. Cada um: 142,50.
O Tiago engasgou-se com o café, e a Filipa olhou para mim escandalizada.
Estás a gozar? Cento e quarenta euros? questionou ela.
Não, tal como combinámos: metade para cada.
O Tiago pousou a caneca:
Ouve lá, tu ias fazer essa viagem de qualquer maneira, com ou sem a nossa companhia. O carro é teu, o combustível também. Só ocupámos os lugares vagos.
Espera lá, comecei a perder a paciência. Falámos tudo antes. Aguentei desconforto, tralha a mais, parei dez vezes por vossa causa. Vocês têm de dividir despesas.
Que desconforto? encolheu-se a Filipa. Custava assim tanto? Achámos que era por amizade. Avisasses logo, tínhamos encontrado boleia mais barata.
Se fosse outro condutor, já vos tinha deixado na estrada pelas queixas e migalhas, não se conteve a minha mulher.
Olha, atalhou o Tiago. Podemos dar uns trinta ou quarenta euros, uma coisa simbólica. Mas pagar metade, por algo que farias de qualquer modo, não faz sentido. O nosso orçamento é apertado.
Levantei-me.
Fiquem com o vosso dinheiro. Considerem que vos ofereci a viagem. Mas para o regresso tratam de vocês.
Estás a brincar? o Tiago saltou do banco. Não temos bilhetes! Combinámos ida e volta!
Combinámos tudo a meias. Vocês não cumpriram. Aproveitem o resto das férias.
Férias separadas e a viagem de regresso
Durante os dez dias seguintes, quase não nos cruzámos, mesmo estando no mesmo aldeamento. Encontrámo-nos duas vezes na praia mesmo assim, ignoraram-nos.
Na véspera do regresso, o Tiago manda mensagem: Vamos lá, não sejas cabeçudo. Damos 60 para a viagem toda. Anda connosco, não arranjámos bilhetes, a Filipa enjoa-se no autocarro.
Não respondi.
Tranquilamente, fizemos as malas, revimos o carro e arrancámos ainda antes do sol nascer. A viagem de volta foi finalmente agradável: a nossa música, as paragens certas, o silêncio reconfortante.
Mais tarde, amigos em comum comentaram que lhes fui um grande ingrato. Dizem que deixei amigos pendurados e sozinhos no Algarve por causa de uns trocos. Tiago e Filipa vieram de autocarro, a fazer baldeações, gastaram mais dinheiro e só falam mal de nós.
Mas ganhámos uma lição para a vida. Agora, se alguém sugere: Olha, vão para o campo? Dão-nos boleia?, sorrio e respondo: Desculpa, viajamos só os dois.







