Ó menina, em vão te esforças, ele não casa contigo.
Alice mal tinha feito dezasseis anos quando perdeu a mãe. O pai, há quase sete anos, foi trabalhar para Lisboa à procura de uma vida melhor e nunca mais deu notícias nem cartas, nem dinheiro.
Quase toda a aldeia veio ao funeral, cada um ajudando como podia. A tia Rosa, madrinha de Alice, passava frequentemente por casa, orientando a menina sobre as tarefas do dia a dia. Assim que terminou a escola, arranjaram-lhe trabalho nos Correios da freguesia vizinha.
Alice era daquelas raparigas que se nota à distância bochechas coradas, rosto redondo, olhos cinzentos e brilhantes, uma trança grossa loira que lhe caía até à cintura.
O rapaz mais cobiçado da aldeia era o Rui. Dois anos atrás, voltara do serviço militar e as moças não lhe davam descanso. Até as meninas da cidade, que vinham passar férias no verão, ficavam encantadas por ele.
Rui tinha mais jeito para cinema do que para ser motorista na aldeia. Gostava de passear, não mostrava urgência em procurar mulher.
Foi então que a tia Rosa bateu à porta do Rui, pedindo-lhe ajuda para consertar a cerca da casa de Alice, que ameaçava cair. Sem um homem por perto, a vida no campo não era fácil. Alice desenrascava-se bem na horta, mas cuidar da casa era outra conversa.
Rui aceitou sem demoras, apareceu, olhou para a cerca e começou logo a dar ordens: “Traz isto!”, “Vai buscar aquilo!”, “Dá-me aquele martelo!” Alice, sem hesitar, fazia tudo o que ele pedia.
As bochechas ficavam ainda mais vermelhas, e a trança movia-se agitada de um lado para o outro. Quando Rui cansava, Alice servia-lhe uma sopa rica e um chá forte. Observava-o a morder o pão escuro com os dentes brancos como a cal.
Três dias passou Rui a compor a cerca, e no quarto, apareceu só para visitar. Alice serviu-lhe jantar e, conversa puxa conversa, Rui acabou por ficar a dormir. Assim começou a rotina: ele ia embora ao romper do sol, para ninguém notar. Mas segredos não duram numa aldeia.
Ó menina, não te iludas. Esse nunca casa contigo. E se casar, só vais sofrer com ele. Quando chegar o verão, vêm aí as meninas bonitas da cidade, vais morrer de ciúmes. Tu precisas de outro tipo de rapaz dizia-lhe a tia Rosa.
Mas coração jovem não ouve conselhos de velhos
Foi depois que Alice percebeu que estava grávida. Primeiro pensou ser uma gripe ou uma intoxicação. Sentia-se fraca, nauseada, até que a verdade caiu como um peso trazia um filho do bonito Rui.
Pensou, numa noite mais amarga, livrar-se do fardo era cedo demais para ser mãe. Mas no fundo, achou que era melhor assim: nunca ia estar sozinha.
A mãe criou-a, ela também conseguiria. Do pai pouco proveito teve. As pessoas falam, mas depois acalmam.
Na primavera deixou de usar o casaco; toda a aldeia viu a barriga saliente. Cochichavam, abanando a cabeça: “Que desgraça caiu sobre a rapariga”. Rui foi saber o que pretendia fazer.
Que hei de fazer? Vou ter o bebé. Não te preocupes, crio-o sozinha. Vive a tua vida, disse ela, agitando-se perto do fogão. As chamas vermelhas dançavam-lhe nas bochechas e olhos.
Rui admirou-se, mas foi embora. Ela decidira tudo sozinha. Como água nas penas, nada o prendia. Chegou o verão, e as moças da cidade atraíram a atenção de Rui, deixando Alice para trás.
Ela cuidava da horta à sua maneira, com a tia Rosa a ajudar a arrancar as ervas a barriga grande já não permitia muitos movimentos. Carregava meia bilha de água do poço. As mulheres da aldeia predisseram-lhe um filho gigante.
Será o que Deus quiser! ria Alice.
Foi em meados de setembro, acordou de madrugada com uma dor aguda, como se a barriga se rompesse. A dor passou, mas logo voltou. Apesar de tudo, foi ter com a tia Rosa, que percebeu logo o que se passava.
Já está? Espera aí! e saiu disparada da casa.
Correu até Rui. A camioneta dele estava à porta; os veraneantes já tinham partido de carro. Mas, para piorar, Rui tinha-se embebedado na véspera.
Tia Rosa abanou-o até acordar. Rui, meio atordoado, nem percebia o que se passava, mas, ao entender, gritou:
São dez quilómetros até ao hospital! Se fosse buscar o médico e voltar… já teria o bebé antes. Vou levá-la já! Prepara-a.
Na camioneta?! protestou tia Rosa. Vai abanar tudo, ainda nasces logo ali na estrada.
Vais connosco, só por precaução respondeu Rui, sem hesitar.
Guiou devagar pelos dois primeiros quilómetros de caminho destruído, desviando de buracos mas caindo noutros tantos. Tia Rosa sentada num saco no fundo da camioneta, Alice no banco do lado, sustentando a barriga, mordendo os lábios para não gemer.
Rui, agora bem acordado, olhava pelo canto do olho para Alice; a ansiedade fazia-lhe branquear os dedos no volante e tremia-lhe os maxilares.
Chegaram a tempo. Deixaram Alice no hospital, e voltaram para casa. Tia Rosa criticava Rui durante o caminho:
Para quê complicaste a vida da rapariga?! Sozinha, sem mãe nem pai, ainda criança, e agora é ela a cuidar de mais um.
Nem tinham regressado à aldeia e Alice já era mãe de um rapaz saudável. Na manhã seguinte, trouxeram-lhe o bebé para amamentar pela primeira vez. Não sabia bem como pegar nele, como encostar ao peito.
Olhava para o rosto enrugado e vermelho do filho com medo, mas seguia as instruções. O coração, porém, batia-lhe num misto de felicidade e nervosismo. Observava-o, afagava-lhe a testa de pelinhos finos e sentia alegria, ainda desajeitada.
Vem alguém buscar-te? perguntou o médico antes da alta, voz séria.
Alice deu de ombros e abanou a cabeça:
Não creio.
O médico suspirou e saiu. A enfermeira embrulhou o bebé na manta do hospital, só para garantir que Alice o levava bem para casa. Mandou devolver depois.
O Frederico leva-te na carrinha do hospital. Não é forma de ires de autocarro com um recém-nascido disse ela, firme.
Alice agradeceu. Caminhou pelos corredores vermelha de vergonha, cabeça baixa.
No caminho para casa, com o filho ao colo, pensava ansiosa como seriam os dias dali para a frente.
O subsídio de maternidade mal dava para os gastos. Tinha pena de si própria e do bebé, que não tinha culpa nenhuma. Olhou para o rosto adormecido do filho e deixou que a ternura lhe enchesse o peito, afastando as preocupações.
De repente, o carro parou. Alice, nervosa, olhou para o Frederico, homem já dos seus cinquenta.
O que se passa?
Choveu dois dias seguidos. Vê só estas poças! Nem consigo passar, nem dar a volta. Só mesmo de tractor ou com a camioneta, disse ele, apontando para a estrada inundada.
Desculpa. Ainda faltam uns dois quilómetros. Vais a pé? mostrou o caminho, um lamaçal sem fim.
O bebé dormia nos braços. Só sentada já estava cansada de o segurar. Um verdadeiro bebé forte. E agora tinha de ir a pé por ali?
Alice saiu com cuidado, ajustou o filho e seguiu pela margem da poça gigante. Os pés afundavam na lama até aos tornozelos, sempre receosa de cair.
Os sapatos gastos não ajudavam; devia ter ido de botas de borracha ao hospital. Um sapato acabou por ficar preso na lama. Alice parou, avaliando que fazer, até que decidiu seguir só com um.
Chegou à aldeia ao cair da noite, os pés dormentes do frio. Sem força para se espantar de ver as luzes acesas em casa.
Subiu os degraus secos, sentindo as pernas geladas e o suor correr pelo corpo de tanto esforço. Abriu a porta e ficou parada.
Ao lado da parede estava um berço, um carrinho e roupas novas para o bebé. Pela mesa, Rui tinha a cabeça pousada nos braços, dormia.
Talvez sentiu a presença, levantou o rosto. Alice, descabelada, vermelha e de bebé ao colo, mal conseguia ficar de pé à porta. A saia molhada, pés encharcados, lama até metade das pernas.
Ao ver que só tinha um sapato, Rui correu até ela, pegou no bebé e deitou-o no berço. Depois acendeu o fogão, foi buscar uma panela de água quente.
Sentou Alice, ajudou-a a despir-se, lavou-lhe os pés. Enquanto ela trocava de roupa, Rui colocou batatas cozidas na mesa, um jarro de leite.
O bebé chorou. Alice foi a correr, pegou-o ao colo, sentou-se à mesa e amamentou-o, já sem vergonha.
Como lhe chamaste? perguntou Rui, voz rouca.
Tomás. Não te incomoda? perguntou ela, erguendo os olhos claros.
Neles morava uma tristeza e um amor tão grande que o coração de Rui doeu.
É bonito. Amanhã vamos registar o miúdo, e casamos logo ali.
Não é necessário… começou Alice, observando o filho a mamar.
O meu filho tem de ter pai. Já me fartei de aventuras. Que género de homem vou ser, não sei, mas ao meu filho não abandono.
Alice assentiu, sem levantar a cabeça.
Dois anos depois, veio uma menina. Deram-lhe o nome da mãe de Alice, Esperança.
Não importa os erros do início da vida, o que conta é que sempre há tempo para corrigir
E foi assim que tudo aconteceu. Escrevam nos comentários o que acham desta história, deixem o vosso gosto.







