Adoptámos um menino que já tinha sido devolvido por três famílias diferentes por considerarem que ele era “demasiado difícil”.

Adotámos um menino pequeno que já tinha sido devolvido por três famílias diferentes porque diziam que era muito difícil.

Muita gente avisou-nos de que estávamos a cometer um erro.

Mas, muitos anos depois, quando perdemos tudo, ele foi a única pessoa que escolheu ficar.

Disseram-me muitas vezes que aquele rapaz não iria durar muito connosco.

A assistente social falou baixo, enquanto ajeitava uma pasta grossa cheia de papéis, já gastos de tanto passarem de mão em mão.

Lá fora, o sol brilhava sobre o pátio do lar de acolhimento. Ouvia-se o ranger dos eléctricos e vozes ao longe de um vendedor ambulante.

Três famílias já tentaram disse ela todas acabaram por trazê-lo de volta.

O meu marido, Raul, franziu o sobrolho.

Mas porquê?

A senhora hesitou antes de responder.

Dizem que é difícil. Fala pouco. Não faz logo o que lhe pedem. Não gosta de ser tocado ou abraçado. E nunca chora, mesmo quando parece que devia.

Suspirou fundo antes de acrescentar:

Parece estar sempre à espera de ser deixado outra vez.

Olhei para o rapaz, sentado numa cadeira de plástico, do outro lado da sala.

As mãos pousadas nos joelhos, sentado direito, como se tivesse aprendido a ocupar o mínimo de espaço que conseguisse.

Não brincava.

Não fazia perguntas.

Nem sequer olhava à volta.

Apenas esperava.

E quando os meus olhos cruzaram com os dele, ele não sorriu.

Mas também não desviou o olhar.

E senti o meu coração partir-se.

Disseram-nos para pensarmos com calma.

Ainda podíamos escolher outra criança.

Havia outras mais fáceis.

Não devíamos complicar a nossa vida.

Até a minha irmã, que é toda emoção, me ligou nessa noite.

Filipa, pensa bem já não és nova. Para quê meter-te num sarilho assim? Às vezes crianças dessas tornam-se adultos zangados com o mundo.

Enquanto falava com ela, olhei em volta da nossa pequena cozinha.

Os azulejos eram antigos.

Havia uma mesa para quatro.

Mas raramente estava cheia.

Demasiado silêncio.

Demasiado arrumada.

Demasiado vazia.

Precisamente respondi-lhe . Porque ninguém quer escolher ele.

O Raul não disse nada nessa noite.

Sentou-se só ao meu lado na cama, respirou fundo e apertou-me a mão.

Tens a certeza?

Não admiti . Mas sei que se o deixarmos lá alguém voltará a deixá-lo para trás.

E foi aí que terminou a conversa.

Foi também aí que começou a história do Simão na nossa casa.

Durante aqueles primeiros meses, parecia que tínhamos um hóspede.

Nunca um filho.

O Simão nunca mexia em nada sem pedir.

Nunca fazia birras.

Não partia nada.

Não se queixava.

Nunca pedia guloseimas.

Nem um conto ao deitar.

Nunca pedia colo.

E era isso o que mais doía.

Um dia, enquanto estava a fazer o arroz de feijão, perguntei-lhe:

Queres ajudar?

Abanou a cabeça.

Queres ver televisão?

Outra vez, abanou a cabeça.

Então o que queres fazer?

Ficou muito tempo calado antes de responder.

O que a senhora quiser.

Senhora.

Não mãe.

Nada de íntimo.

Eu era, para ele, apenas mais uma passagem temporária.

Como todas as outras.

Numa madrugada, percebi finalmente o tamanho do medo dele.

Ouvi barulho na sala.

Pensei que tivesse entrado um ladrão.

O Raul pegou no cabo da vassoura, e saímos juntos do quarto, devagar.

O Simão estava sentado no sofá.

Completamente vestido.

De sapatos calçados.

Com a pequena mochila nas mãos.

O que fazes aí, filho? perguntei.

Ele não respondeu.

Porque não foste dormir?

Olhos muito abertos.

Em alerta.

Como um animalzinho que aprendeu a sobreviver estando sempre preparado.

Estou pronto disse.

Pronto para quê?

Respondeu baixinho:

Caso precisem que eu vá embora.

Foi como se me atravessassem no peito.

Tu não vais sair desta casa.

Ele ficou em silêncio.

Não acreditava em mim.

E estava certo.

Ninguém até ali tinha mantido essa promessa.

Os anos passaram.

Devagarinho

Devagarinho

Muito devagarinho

O Simão começou a mudar.

Primeiro, em pequenas coisas.

Uma tarde, enquanto lavava a loiça, entrou devagar na cozinha e pousou um desenho em cima da mesa.

Três bonecos palito.

Uma mulher.

Um homem.

E um rapaz pequenino entre eles.

Por cima, escrito em letras trémulas: Família.

Fiquei algum tempo a olhar para aquele papel.

O suficiente para deixar lágrimas caírem sobre o desenho.

O Raul viu-o mais tarde, nesse dia, e apenas acenou com a cabeça.

Não dissemos nada.

Porque por vezes, o amor chega tão devagar, como uma chuva suave depois de uma seca longa.

O Simão nunca se tornou numa criança tagarela.

Nunca encheu a casa de barulho.

Mas aos poucos, aproximou-se.

Passou a sentar-se ao lado do Raul enquanto ele consertava rádios velhos na garagem.

Começou a ajudar-me na cozinha.

Até começou a deixar bilhetes no frigorífico.

Bom dia.

Obrigado.

Boa noite.

A primeira vez que me chamou mãe foi sem querer.

Vinha a correr mostrar-me um teste em que teve boa nota.

Mãe

E ficou estático, assustado com o que acabava de dizer.

Como se tivesse partido qualquer coisa frágil.

Eu só lhe abri os braços.

E pela primeira vez

O Simão abraçou alguém.

Nem tudo foi fácil.

Às vezes acordava a tremer, com pesadelos.

Por vezes fazia perguntas estranhas.

As pessoas vão-se embora quando crescemos?

Os pais deixam de gostar dos filhos?

Podem devolver-me se eu fizer asneira?

A resposta era sempre a mesma.

Não.

E mais do que isso: comprovávamos.

Dia após dia.

Ano após ano.

Aprendemos que o amor não se constrói num só momento.

Faz-se de mil dias comuns.

O Simão cresceu e tornou-se um adolescente calado e ponderado.

Os professores diziam que era maduro demais para a idade.

Ouvia mais do que falava.

Mas quando falava, todos paravam para o escutar.

Porque cada palavra tinha peso.

Quando fez dezoito anos, já era o tipo de jovem a quem se confia as chaves de casa.

Ajudava vizinhos com cercas partidas.

Acompanhava senhoras idosas a casa à noite.

Fazia voluntariado no mesmo lar onde o conhecemos.

Por vezes ficava ao lado das crianças que não falavam.

Como ele fora um dia.

Nunca forçava ninguém.

Simplesmente ficava presente.

Porque compreendia aquilo que poucos entendem.

Às vezes, o maior presente é simplesmente não abandonar.

A vida, porém, nunca deixa de pôr tudo à prova.

Quando o Simão tinha vinte e três anos, a empresa de construção do Raul faliu.

Um sócio traiu-nos.

As dívidas acumularam-se.

Num ano, perdemos a casa.

A garagem.

As poupanças acumuladas ao longo de décadas.

Tudo.

Mudámo-nos para um apartamento alugado, já gasto e pequeno, com um só quarto.

Os amigos desapareceram.

Os familiares deixaram de telefonar.

Pessoas que sempre admiraram o Raul passaram a evitá-lo na rua.

O fracasso incomoda.

Mostra o quão frágil é o que temos.

Numa noite, o Raul ficou sentado na mesa da cozinha, fitando uma pilha de contas por pagar.

Os ombros mais pesados do que alguma vez vi.

Talvez devêssemos pedir ao Simão para ir um tempo para outra casa disse baixinho.

O quê?

Ele ainda é novo. Merece melhor do que isto.

Antes que respondesse, a porta abriu-se.

O Simão chegara do trabalho.

Pousou o saco e olhou para os papéis.

Percebeu logo tudo.

O Raul forçou um sorriso.

Não te preocupes, rapaz.

O Simão não respondeu.

Puxou uma cadeira e sentou-se connosco.

Quanto é?

O Raul franziu a testa.

Quanto é o quê?

Quanto devemos?

O Raul suspirou.

Demasiado.

O Simão acenou, devagar.

Depois disse algo que calou a sala toda.

Eu não vou embora.

O Raul abanou a cabeça.

Não percebes

O Simão olhou-o nos olhos.

Calmo.

Certo.

O mesmo olhar do dia em que o conhecemos.

Não.

Quem não percebe és tu.

Voltou ao quarto.

Minutos depois trouxe um envelope já gasto.

Pousou-o na mesa.

Lá dentro estavam papéis do banco.

Poupanças.

Bolsas de estudo.

Dinheiro de anos de trabalhos em part-time.

O Raul olhou para aquilo, incrédulo.

Simão guardaste isto tudo?

O Simão encolheu os ombros.

Para quando precisassem de mim.

As mesmas palavras.

A mesma voz serena.

Mas desta vez, queriam dizer o oposto.

O Raul cobriu o rosto com as mãos.

Eu só o vira chorar uma vez antes.

No dia em que trouxemos o Simão para casa.

As coisas não mudaram por magia depois disso.

Continuámos a lutar.

Horas extra de trabalho.

O Simão arranjou dois empregos.

Depois, três.

Ajudou o Raul a reerguer um negócio de pequenas reparações.

Devagar

Com esforço

A vida lá se endireitou.

Anos mais tarde, numa entrevista da junta, perguntaram ao Simão:

Porque é que dedicas tanto à tua família?

Ele pensou um pouco.

E sorriu.

Um sorriso verdadeiro, raro nele.

Porque, quando ninguém me quis por eu ser difícil eles escolheram-me.

O entrevistador acenou.

E quando eles perderam tudo?

O Simão respondeu simplesmente:

Aí foi a minha vez de os escolher.

Hoje o Simão tem trinta e dois anos.

Tem uma pequena empresa de engenharia.

Continua a ser voluntário no lar.

Mas aquilo que mais valoriza é algo bem mais simples.

Todos os domingos vem almoçar a nossa casa.

A mesa, antes silenciosa, agora enche-se.

O Raul conta as mesmas histórias de sempre.

Eu faço comida a mais.

E o Simão senta-se entre nós.

Tal como no primeiro desenho de infância.

Três pessoas.

Uma família.

E, quando tudo volta ao silêncio, depois de todos saírem

Lembro-me daquela manhã distante.

Um menino pequeno no sofá.

De sapatos calçados.

Mochila pronta.

À espera de ser mandado embora de novo.

Se eu pudesse voltar atrás, dir-lhe-ia algo que ele nunca teria acreditado.

Ajoelhar-me-ia à sua frente e dizia-lhe:

Já não precisas de estar pronto para sair.

Estás finalmente em casa.E se por vezes, ao arrumar a sala, encontro no fundo de uma gaveta aquele velho desenho com três bonecos-palito, não é raro sorrir através das lágrimas.

Guardo-o como quem guarda uma promessa cumprida, uma verdade silenciosa.

Porque a maior herança de todas não está na casa onde vivemos, nem no dinheiro que juntamos. Está no lugar que criámos uns nos outros esse sítio secreto e seguro, onde, aconteça o que acontecer, ninguém mais terá de estar à espera de partir.

Nesse espaço, cabemos todos, mesmo quando o mundo lá fora balança.

E, finalmente, compreendo: família não é quem nunca te falha, mas quem escolhe ficar, mesmo depois de conhecer os teus dias difíceis.

Simão um dia perguntou-me, baixinho, se eu ainda tinha medo de o perder.

Sorri e respondi-lhe o que só agora sei de cor:

Não, filho. Agora és tu quem faz desta casa um porto seguro. Enquanto houver amor, ninguém precisa de estar de malas feitas.

E assim, na mais simples das rotinas, fizemos juntos aquilo que sempre sonhei. Uma história em que, no fim, já ninguém precisa de se preparar para ir embora.

Só de viver.

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Adoptámos um menino que já tinha sido devolvido por três famílias diferentes por considerarem que ele era “demasiado difícil”.