Acabou, Inês, entre nós tudo terminou! Eu quero uma família de verdade, filhos. Tu não consegues dar-me isso. Esperei muito tempo, fui paciente.

Acabou, Matilde, acabou tudo entre nós! Eu quero uma verdadeira família, filhos. Tu não podes dar-me isso. Esperei, tive paciência durante anos. Preciso de um filho. Já dei entrada no divórcio! Tens três dias para arrumar as tuas coisas. Quando fores embora, liga-me. Vou ficar na casa da minha mãe por agora. Despacha-te, preciso de preparar o apartamento para a criança e para a mãe dela. Pois é! Não te surpreendas, a minha futura mulher está grávida! Três dias, Matilde!

Matilde ficou em silêncio. Que poderia ela responder?

Nunca tinha conseguido engravidar. António esperou durante cinco anos. Nesse tempo, houve três tentativas falhadas.

Os médicos, a quem Matilde recorreu inúmeras vezes, diziam sempre que ela era saudável. Então, porque nunca conseguia?

Matilde sempre levou uma vida regrada.

Desta vez até se sentiu mal no trabalho, chamaram logo uma ambulância, mas tudo aconteceu muito depressa

A porta bateu atrás de António e Matilde sentou-se esgotada no sofá.

Não tinha vontade, nem forças, para fazer as malas. E, afinal, para onde iria?

Antes de casar, quando estudava, morava com a tia. Mas a tia já faleceu, e o primo vendeu a casa dela. Voltar à aldeia, à casa da avó? Procurar um quarto para alugar? O que faria com o trabalho?

As perguntas eram muitas e era urgente encontrar soluções

De manhã cedo, a porta abriu-se e entrou a sogra.

Não estás a dormir? Ainda bem. Vim controlar se não levas nada que não devias.

As cuecas velhas do seu filho pode ficar tranquila que não me interessam. Quer que conte as minhas?

Olha-me esta, que desaforada! E sempre foste tão boazinha, delicada, calada. Vês no que deu. Eu bem disse ao Toninho, logo no início, que nunca irias conseguir dar-lhe um filho.

Veio aqui dizer-me isso? Mais valia estar calada e ficar atenta ao que faço.

O que é isso, o serviço de chá?

É meu. Ficou-me da tia, é uma recordação.

Agora esta casa ficará vazia sem ele!

Isso não me preocupa. Já vão ter um neto.

Só leva o que é teu!

O computador é meu! A máquina de café, o micro-ondas também, foram prendas dos meus colegas. O meu carro comprei antes de casar. O seu filho tem o dele.

Tens tudo, menos filhos!

Isso já não lhe diz respeito. Estou bem, se calhar é assim que Deus quis.

Parece que nem te importas! Talvez fizeste tudo de propósito?

Diz disparates. Só de pensar já fico mal.

Matilde olhou à volta. Já nada era dela. A escova, cremes, chinelos

Parecia que faltava algo importante. A sogra não a deixava pensar direito.

Lembrou-se faltava a velha estatueta do gato. Lá dentro, num compartimento secreto, estavam uns brincos e um anel, sem grande valor, mas preciosos por serem da avó. António sempre os achou tralha. Teria deitado fora? Costumava pôr tudo o que não prestava na varanda. Matilde foi ver

O que é que ainda procuras aí? Arruma e vai-te! ouviu de novo a voz da sogra. A despedires-te da casa? Despede-te à vontade. Não esperes voltar a ter algo assim.

Lá estava o gato, intacto. Agora podia ir-se embora.

Aqui estão as chaves, adeus. Espero sinceramente não voltarmos a cruzar-nos.

Matilde passou pelo escritório. Ainda estava de baixa médica, mas pediu férias.

Temos muita pena, Matilde, mas como vamos fazer sem ti? Três semanas dão-te? Mas fica sempre contactável, sem as tuas opiniões metade dos projetos param.

Está bem. Obrigada por compreenderem.

Precisas de ajuda?

Não, obrigada.

Vou mandar tratar dos teus subsídios e prémio.

Muito agradecida, vai fazer-me falta.

Matilde nem chegou a procurar casa. Foi mesmo para a aldeia, para a casa da avó. Ninguém a esperava, a avó partira há três anos e a mãe nunca conheceu morreu no parto.

Talvez por isso também Matilde nunca conseguiu ser mãe

Uma hora de viagem e lá estava. A macieira, as tulipas.

Da última vez tinha ali estado com António, no outono. Grelharam entrecosto, descansaram.

Matilde estacionou o carro no quintal, a chave do anexo estava dentro da casa.

Abriu a porta e entrou. Silêncio. Em cima da mesa, chávenas e pratos sujos. Porque não tinha arrumado da última vez?

Não, ela arrumara! Mas alguém esteve ali!

Duas canecas, pratos, embalagens de sumo, garrafas do espumante preferido de António. Não eram do outono.

Ou seja, António esteve ali, mas com quem?

Agora, já não importava

Só Matilde tinha a chave da casa, mas o marido deve ter feito cópia. Era tempo de mudar fechaduras.

Nova vida, limpeza, depois banho quente.

Matilde quis lavar de si toda a sujidade, todo o passado.

Ao preparar-se para sair do banho, bateram à porta, depois à janela.

Quem é?

Está tudo bem consigo?

Sim respondeu surpreendida.

Lá fora, um homem desconhecido.

Desculpe, devo tê-la assustado. Sou o seu vizinho, estive atento porque vi fumo da chaminé e depois a casa ficou em silêncio. Pensei se algo não tinha acontecido

Obrigada, está tudo bem.

É família do António? Ele esteve cá há pouco, com a esposa É irmã dele?

Não, sou a ex-mulher. Quase ex, está tudo em andamento.

E a casa, de quem é?

É minha.

Sou agora seu vizinho temporário, por questões familiares. Um amigo deixou-me ficar aqui. Também me estou a divorciar, amanhã fico livre. Se precisar de ajuda, disponha. Eu sou o Jorge.

Eu sou a Matilde. Espere, sabe mudar fechaduras?

Sim, diga quando e eu trato.

O mais rápido possível. Amanhã compro uma.

Deixe que eu vou ver qual precisa, e trago logo, não vá comprar a errada.

Combinado.

Duas semanas passaram. Restava só mais uma de férias, era quase tempo de voltar à cidade. Matilde adaptou-se e já nem queria procurar casa. António não ligou nem escreveu, apenas chegou a notificação do tribunal com a data do divórcio. Até foi melhor assim. Não queria vê-lo.

Era sábado. Matilde acordava sempre cedo, e naquele dia Jorge convidara-a para um passeio ao lago.

Não pensava em relações novas, mas um simples passeio não era compromisso. Passaram um bom bocado, almoçaram juntos. Ao voltar, viram o carro de António junto à casa de Matilde. Notava-se que tinham acabado de chegar. Da viatura saiu António e ajudou a sair uma mulher grávida.

Matilde e Jorge aproximaram-se do portão. António tentava abrir a porta da casa, mas sem sucesso.

O que é isto?

O que estão aqui a fazer? Porque tentam entrar numa casa alheia?

António ficou parado, sem reação.

Esta é a nossa casa! exclamou a mulher grávida.

É? Quem disse isso, foi o António? Esta casa é minha, peço que saiam.

António, quem é esta? A tua ex? Manda-a embora! gritou a grávida.

Matilde e Jorge riram. António calou-se, sentou a companheira no carro e foram-se embora.

Vai ser animada a vida dele.

Mas pelo menos ela vai dar-lhe um filho. Eu não consegui. Três tentativas falhadas. Desculpa.

Eu separei-me porque a minha ex não queria ter filhos

Quatro anos passaram. Um dia, por acaso, Matilde encontrou a antiga sogra no supermercado.

Matilde, nem te reconhecia. Tenho-te visto aqui e ali, eras tu? Estás grávida?

Sim, respondeu Matilde, passando a mão pela barriga grande.

E ao António tudo corre mal. O neto nasceu fraquinho, parece que era problema de família dele. A mãe do menino abandonou tudo. E tu? Vais criar uma criança sozinha?

Não, não vou criar sozinha. Tenho família. Tenho quem me espere.

Ah sim? Perdoa-me por tudo…

Tudo de bom para si…

A sogra ficava a olhar quando Matilde se afastava. Ela seguia de braço dado com Jorge, que a ajudava delicadamente, enquanto pela outra mão segurava uma menina pequena, igualzinha à mãe

A vida ensina-nos que o que parece uma perda hoje pode ser a porta para um futuro cheio de novas alegrias e recomeços.

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Acabou, Inês, entre nós tudo terminou! Eu quero uma família de verdade, filhos. Tu não consegues dar-me isso. Esperei muito tempo, fui paciente.