A vizinha montou uma “zona de fumadores” à porta da minha casa. Resolvi o problema de forma firme — e ela nunca imaginou como isto ia acabar.

A vizinha montou uma sala de fumadores à minha porta. Resolvi a situação sem rodeios e ela nunca imaginou como ia acabar.

E onde está escrito que este ar é teu? A escada é zona comum. Se me apetece, fumo. Se me apetece, cuspo. Aprende as leis, ó mulher!

Vitória, filha de vinte anos da vizinha Graça, largou um sopro de vapor adocicado bem na cara de Dona Leonor. Ao lado da rapariga, sentados no parapeito das escadas entre andares, riam-se dois rapazes. No chão de cimento jaziam beatas, latas vazias de Red Bull e cascas de tremoço.

Dona Leonor, a contabilista principal de uma grande fábrica de conservas, não tossiu, não agitava os braços a espantar fumo, como esperavam os miúdos. Corrigiu os óculos e lançou um daqueles olhares duros e clínicos que faz suar os chefes durante uma auditoria.

É espaço comum, Vitória disse ela, num tom que gelava café. Por isso mesmo, não se fuma, não se cospe, nem se faz porcaria. Tens cinco minutos para limpar este chiqueiro. Depois disso, mudo de conversa.

Ui, que medo! Vitória revirou os olhos, sacudindo cinzas no chão que a empregada de limpeza acabava de lavar. Vá lá tomar um comprimido para o coração, senão ainda se passa. Vai queixar-te à tua mãe? A minha deixa-me estar aqui assim não faço fumo em casa.

Os rapazes desataram à gargalhada. A porta de Dona Leonor fechou-se, abafando o barulho do átrio.

No corredor cheirava a batata frita e madeira velha aquele cheiro bom e caseiro que, agora, era invadido pelo fedor a cigarros baratos, entranhando-se pela fechadura adentro. Na cozinha, sobre a mesa, estava sentado Paulo.

O Paulo tinha trinta e dois, mas parecia ter uns quarenta, tal era a careca e a postura encurvada. Era sobrinho do falecido marido de Dona Leonor e morava com ela há dez anos. Calado, tímido, ligeiramente gago, trabalhava na oficina de conserto de relógios e tinha mais medo das pessoas do que os pardais dos gatos. Para os vizinhos era o tolinho, perfeito para gozações.

L-leonor, estão lá outra vez? perguntou Paulo, encolhendo-se ao ouvir o rebuliço do lado de fora.

Come, Paulo. Não é contigo respondeu ela, servindo-lhe batata. Mas por dentro, fervia.

À noite, foi à porta de Graça. A vizinha abriu de robe, telemóvel numa mão, máscara na cara.

Graça, a tua filha fez do patamar um quartel-general de fumadores. O fumo entra aqui, há barulho até tarde. Põe mão naquilo.

Graça revirou os olhos sem largar o telemóvel:

Ó Leonor, não cries problemas. São só miúdos. Está frio lá fora. Ao menos não andam na má vida, estão só a conviver. Sê menos rigorosa. Como não tens filhos, ficas azeda. O teu Paulinho olha, nem repara, coitado.

O golpe foi certeiro e manhoso. Dona Leonor respirou fundo.

O caso é de juventude? E o meu Paulo é que te incomoda? Está bem, Graça. Já percebi.

Chegou a casa, sentou-se à secretária e pegou na pasta de documentos. Emoções são para fracos. Para quem é forte há Código Civil e Regulamento do Condomínio.

A semana seguinte, Dona Leonor foi mais discreta que a água do Minho. Vitória, pensando que a velha rezingona tinha desistido, apoderou-se das escadas de vez. Trouxeram até uma poltrona velha do lixo; a música ecoava até à uma da manhã.

O desfecho chegou numa sexta.

Paulo voltava do trabalho, com um saco de compras numa mão e na outra uma pequena caixa, encomenda para um cliente. Ao passar pelo grupo na escada, o namorado de Vitória, conhecido no bairro por Sour, estendeu o pé.

Paulo tropeçou, o saco rasgou-se, as maçãs rolaram pelo chão sujo, entre beatas. A caixa foi ter à parede.

Olha, olha, vai de bico ao chão! gozou Sour.

Vitória soltou fumo:

Ó infeliz, tens olhos nos pés? Anda, apanha, enquanto estou bem-disposta.

Paulo, vermelho como um tomate, tentava, trémulo, apanhar as maçãs. Tinha lágrimas nos olhos. Estava habituado. Habituado a ser invisível, a levar pontapé, sem quem lhe acudisse.

A porta abriu-se. Dona Leonor estava ao limiar, não armada com vassoura, mas com o telemóvel filmando Sour diretamente.

Vandalismo, insultos, danos anunciou ela com clareza. Gravei tudo. Vou chamar a polícia, e amanhã entrego isto ao condomínio.

Baixe o telefone, ó tia! avisou o rapaz, mas não se atreveu a avançar o olhar dela assustava mais do que qualquer polícia da esquadra.

Paulo, entra comandou ela, sem lhe olhar diretamente. Vai para casa.

M-mas as maçãs

Deixa. Isso virou lixo. Como tudo o que está neste patamar.

Quando a porta fechou, Dona Leonor enfrentou a agora calada Vitória.

Agora ouve bem, menina. Achavas que fiquei a suportar isto uma semana por nada? Andei a recolher provas.

Que provas? troçou Vitória, mas a voz vacilou.

Contactei o dono do apartamento. Não é a tua mãe: a casa é do teu pai, que vive em Lisboa e pensa que tem uma filha exemplar de medicina, não uma arruaceira a organizar festas na escada.

Vitória empalideceu. O pai não era só rigoroso, era um autêntico sargento, só dava dinheiro com filha impecável.

Não te atrevas sussurrou.

Já me atrevi. Ele já tem fotos e filmagens do convívio enviadas há dez minutos. Também vai tudo para a administração do prédio e para a polícia. Amanhã o condomínio cuida do resto. O teu pai faz questão de vir cá de manhã.

No sábado, a voz de trovão ecoou no prédio.

Dona Leonor bebia chá quando bateram à porta. Era um homem alto, largo, de casaco caro o pai de Vitória, Alfredo Maria. Ao lado, de cabeça baixa, estava Graça, lavada em lágrimas; Vitória nem se via.

Dona Leonor? sério, mas educado Venho pedir desculpa pelo comportamento da Vitória e da minha ex-mulher. Já está a limpeza a decorrer. Eu próprio pago a reparação das paredes. Vitória vai para o lar de estudantes. Corto-lhes a mesada.

Leonor assentiu. Era merecido.

Ainda uma coisa acrescentou ela.

Chamou Paulo, que entrou de cabeça encolhida, esperando o raspanete.

O seu amigo insultou e partiu a encomenda do meu sobrinho disse Dona Leonor. O Paulo é um artista raro, repara mecanismos que nem suíços querem mexer.

Alfredo Maria olhou Paulo, curioso.

Relojoeiro?

R-restaurador gaguejou Paulo.

É? Tenho uma coleção de Breguet de bolso; um par está parado há um ano, ninguém arranja. Queres tentar?

Pela primeira vez, Paulo foi olhado como um especialista, não como o tolo.

P-posso tentar, se a mola não estiver partida

Fechado o pai de Vitória apertou a mão magra de Paulo. Desculpa a minha filha, falhou-me a educação. Conta com um pagamento e um pedido de desculpa.

Quando fechou a porta, Paulo ficou a olhar para a mão. Endireitou-se. Pela primeira vez em muitos anos, ficou sem corcunda.

Tia Leonor, se calhar vou recolher as maçãs. Não se desperdiça comida.

Ela virou-se para a janela, para esconder a lágrima.

Vai, Paulo. E põe o chá. Hoje é dia de festa.

No átrio, estava tudo limpo e silencioso. Cheirava a lixívia e tinta fresca. De casa de Dona Leonor vinha cheiro a bolos e a voz tranquila do Paulo a explicar à tia o funcionamento do turbilhão.

A sala de fumadores fechou. Para sempre.

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A vizinha montou uma “zona de fumadores” à porta da minha casa. Resolvi o problema de forma firme — e ela nunca imaginou como isto ia acabar.