A minha vizinha criou o hábito de pedir-me sal, açúcar e ovos emprestados, mas devolver que é bom nunca vi. Quando veio cá buscar farinha, apresentei-lhe logo uma conta por tudo o que já tinha levado.
Há um ditado muito nosso: Quem é bom demais, acaba mal. Sempre achei um exagero, mas a vida fez questão de me mostrar o quão verdadeiro é.
Faz cerca de meio ano que uma nova vizinha se instalou no apartamento em frente ao meu. Uma mulher pelos quarenta, toda arranjada e com aquele sorrisinho simpático sempre nos lábios. Dávamo-nos um olá no elevador, um bom dia aqui, um boa noite acolá pura vizinhança civilizada.
O primeiro toque à minha porta foi cerca de duas semanas depois de se mudar. Nove da noite. Abri a porta e vejo a Paula com um ar de quem está quase a pedir desculpa e com uma tigela vazia nas mãos.
Ai, desculpe, incomodar a esta hora começou logo, num tom meloso. Estava mesmo para fazer umas panquecas, já tinha tudo a postos, e pumba, fiquei sem sal! Não me pode arranjar um bocadinho? Amanhã devolvo, prometo!
Lá ia eu dizer que não? Enchi-lhe meio saleiro, ela agradeceu e desapareceu corredor fora.
O segundo pedido não demorou: uma semana depois, lá batia ela outra vez. Desta vez, vinha atrás de açúcar.
Já me apetecia tanto um chá suspirou, embrulhada num robe felpudo. Está um frio lá fora, já é tarde Empresta-me um copo de açúcar? Depois reponho com uma embalagem maior!
Por mim, tudo bem, mas já fiquei com a pulga atrás da orelha. Anda aqui há quase um mês e não se lembrou de comprar aquelas coisas básicas? Sal, açúcar, manteiga, fósforos qualquer alma portuguesa tem isso na cozinha! Mas ainda decidi não armar confusão.
Porém, a coisa começou a descambar. Passada outra semana, precisou de ovos. Depois foi óleo, depois cebola, meia rodela de limão, um pacotinho de chá, um comprimido para a dor de cabeça, um rolo de papel higiénico… Um festival de empréstimos!
Sempre o mesmo teatro: ao cair da noite, com aquele ar culpado, meia história sobre esqueci-me de comprar e a promessa amanhã devolvo, a sério! E eu nunca mais via nada de volta. Paula tinha memória seletiva: só se lembrava de vir pedir, nunca de devolver. Maravilhas.
Um dia, precisei eu de uma cenoura para a sopa. Sabia que ela estava em casa, lá bati à porta. Abre-ma, ouve-me e olha para mim com cara de anjo:
Ai, tenho, mas preciso delas, que vou cozinhar. Não posso dar, que não me chega.
E fechou-me a porta na cara.
Aí, apanhei-me com os azeites. Afinal, a minha despensa era supostamente partilhada, mas o frigorífico dela era sagrado? Assim não dá. Chega de sermos um supermercado à borla.
Peguei num caderno e, de cabeça, anotei tudo o que me tinha levado: açúcar, ovos, café, óleo, cebola, comprimido, limão, detergente. Feitas as contas, aquilo não ficava abaixo dos 15 euros.
Deixei o papelinho bem à mostra na mesinha do corredor, adivinhando que mais cedo ou mais tarde teria utilidade. E não falhei.
Ao sábado, decido eu fazer um bolo. Quem é que toca à campainha? Pois claro, Paula, com uma taça na mão.
Respirei fundo, pus um sorriso falso, abri a porta, e lá veio a cantilena:
Olááá! Olha, salva-me! Ia fazer umas pataniscas, mas acabei o kefir e a farinha evaporou-se! Emprestas-me trezentos gramas? Depois devolvo, sem falta!
Farinha? repeti. Tenho, sim senhora.
Ai, maravilhoso! Sabes que eu sou pessoa de palavra!
Pois sei, Paula. Aliás, falando nisso, podíamos fazer um balanço da nossa logística alimentar, que dizes?
Estendi-lhe o papel com a lista. Ela ficou a piscar os olhos, sem perceber patavina. Não era costume eu trazer-lhe recibos normalmente, já ia tudo direitinho para as mãos dela.
Ora, vê aqui apontei, mostrando as linhas. Aqui está tudo o que foste levando nos últimos meses. Vamos ver se bate certo. Ovos, quinze. Certo?
Oh nem sei ao certo murmurou, já com o sorrisinho a desaparecer.
Eu contei. Açúcar, quatro vezes. Óleo, café, detergente, limão, cebola. Está tudo certo, não está?
A Paula ficou em silêncio, entre confusa e ofendida. Como me atrevia? Não éramos amigas de porta?
Olha, até fui justa e contei pelos valores mais baratos continuei. E até te fiz um desconto. No total, são 15 euros.
Estendi-lhe a mão.
Pagando, dou-te já a farinha. Posso até peneirar.
Estás a falar a sério?! explodiu, quase sem voz. Estás-me a passar uma conta? Por sal e fósforos?! Estás boa da cabeça?!
Melhor não podia estar pisquei-lhe o olho. Quem leva, tem que devolver. Quando não devolve, é porque comprou. Estou só a pedir o pagamento.
Que mesquinhez! gritou, agitando as mãos. Achava-te mais humana Cotasmoqueira!
Mesquinho é ter dinheiro para sushi e vir pedir papel higiénico à vizinha, respondi, calma.
A cara dela ficou de um vermelho tomateiro.
Olha, enfia lá a farinha onde quiseres! Nunca mais te peço nada!
Virou-se nos calcanhares e bateu-me com a porta na cara. Fiquei ali com o meu papel na mão sem raiva, só aliviada.
Já lá vão duas semanas. Paula nunca mais me cumprimentou. No elevador, finge sempre que lê notícias no telemóvel. Ouvi dizer que já se queixou à senhora do prédio que aqui só moram gente forreta e estranha.
E vocês, o que fariam no meu lugar? Tinham estômago para aturar isto?







