«A tua pele está a descair!» — marido de 60 anos beliscava-me perante os convidados, até que trouxe um espelho e mostrei-lhe o que estava a descair nele.

Ó Maria, o que é isso aí? Joaquim, que já conta sessenta anos e andava particularmente falador após o terceiro copo de aguardente caseira, de repente estende a mão e me belisca de propósito na cintura, bem ali por cima do cós da saia, onde o tecido esticou quando me sentei.

Fez isto diante dos convidados, sem o menor pudor.

Joaquim, para com isso! tentei afastar-lhe a mão, como quem sacode uma mosca tonta de outubro, mas ele teimava.

Os dedos dele, grossos e avermelhados como pequenas chouriças demasiado cozidas, apertaram de novo o meu lado. Não doeu, mas senti uma ferida bem mais funda: a vergonha.

Ó Artur, vê lá tu! Joaquim virou-se para o nosso vizinho que se preparava casualmente para levar à boca um pouco de bacalhau à Brás. Eu bem lhe digo: Maria, já chega de comer pão antes de deitar! E ela: É da idade, Joaquim, é dos hormonas

Soltou uma gargalhada que fez ondular a barriga, esticando os botões da camisa de festa ao limite.

Quais hormonas! Isto é preguiça e vício, só isso! concluiu ele, orgulhoso.

Joaquim, chega, murmurei entre dentes, as faces e o pescoço a arderem num rubor impossível de disfarçar.

Artur sorriu amarelo e fixou o olhar no prato, fazendo de conta que, de repente, as batatas coradas eram coisa para ser degustada com os olhos.

A esposa dele, Filomena, desviou os olhos com delicadeza, entretendo-se a alinhar os talheres, como se nada se passasse.

Chega porquê? Joaquim, ufano de ser o centro das atenções, inflou o peito. Não se pode ser sincero? Tens a pele a cair, Maria!

Beliscou-me outra vez, testando a massa como quem verifica se o pão já levedou.

Olha, bem aqui, está a fazer dobra, igual àquele cão chinês, o shar pei, todo engelhadinho. Nada bonito, Maria.

No silêncio pesado da sala, só se ouvia o motor do frigorífico ao longe.

Eu só quero o melhor para ti, declarou gravemente, recostando-se na cadeira e cruzando os braços. A mulher tem de se cuidar, faz parte da natureza. Tem de ser, senão o marido perde o encanto.

Olhei bem para ele.

Como se o visse pela primeira vez nestes trinta anos de casamento.

Sessenta e dois anos, barriga a tombar por cima das calças como nuvem carregada antes de trovoada, duplo queixo a fundir-se no pescoço e a descambar logo em ombros descaídos, sem sinal de músculo. Careca a brilhar sob a luz da sala, parecendo uma panqueca lustrosa acabada de sair da frigideira.

Então, para agradar os olhos, não é? perguntei, com calma que me surpreendeu.

Algo mudou dentro de mim, um clique, como quem puxa a alavanca pesada que regula a barragem. Fiquei só com clareza; já não tinha vergonha, não sentia mais aquela vontade de evitar o confronto, nem aquela paciência automática de sempre.

Só clareza.

Pois claro! Joaquim bateu no peito, satisfeito. Eu, sim, mantenho a forma!

Que forma é essa? insisti, fixando-lhe o olhar.

De homem! endireitou-se, tanto quanto a coluna permitia. Todos os dias faço uns minutos de ginástica, levanto os halteres, mantenho-me em forma.

Tornou a tentar encolher a barriga. O resultado foi pífio: ela abanou um pouco e continuou a assomar por cima do cinto espremido na carne.

O homem tem que ser forte, Maria, não um saco de batatas! concluiu, triunfante.

Ah, forte, dizes tu? levantei-me devagar, sem pressas.

Onde vais? Ficaste sentida? berrou atrás de mim, servindo-se de mais um gole de aguardente. Não se zanga com a verdade, Maria! Anda lá, vê se emagreces em vez de refilar.

Saí para o corredor. O cheiro de roupa guardada e graxa de sapatos misturava-se no ar.

Ali, na parede, pendia ainda o velho espelho da casa dos meus pais oval, pesado, em moldura de madeira robusta.

Agarrei nele com ambas as mãos, sentindo na pele o peso da moldura. Devia pesar uns cinco quilos pelo menos, mas parecia leve como uma pena.

Regressei à sala com o espelho à frente do peito, empunhando-o como escudo medieval. Ou sentença definitiva.

Os convidados ficaram imóveis. Filomena ficou com a boca aberta, a meio de um garfo de salada de polvo.

Joaquim, levanta-te, se faz favor, disse calmamente, sem margem para discussão.

Para quê? perguntou, desconfiado, mas acatou, vendo-me a seriedade no rosto. O que fazes? Vamos dançar?

Não, aproximei-me tanto que senti o cheiro penetrante a cebola e álcool. Vamos admirar o nosso homem forte.

Coloquei o espelho mesmo à frente da cara dele, obrigando-o a recuar.

Toma lá.

Ele pegou mecanicamente, as mãos a tremerem com o peso.

Maria, mas o que te passou pela cabeça agora?

Olha bem, exigi com o tom de quem educa gatos irrequietos. Vê, mas vê mesmo.

Ele olhou sem perceber, o reflexo a vibrar levemente entre as mãos.

Pronto, já vi, sou eu. E então?

Agora baixa o olhar, apontei diretamente para a mancha de suor na camisa. Vês aí?

O quê? tentava resistir.

Tens a pele a cair, Joaquim! disse alto, copiando-lhe o tom de cinco minutos antes. E não só a cair, até assenta!

Maria! tentou largar o espelho; o rosto já de tom carne ficava quase cor de tomate maduro.

Não, manténs! empurrei-lhe o espelho de volta. Isso aí por cima do cinto? São músculos de ferro ou um colete salva-vidas? Para o caso de afundares na gordura?

Artur soltou um riso abafado, a tossir para disfarçar.

Não, querido, é mesmo colete salva-vidas, continuei impiedosa. Pode ser útil se a sala se inundar de banha.

E isto aqui? apontei para os lados do tronco, a sair das calças. Isto são asas de águia, ou orelhas de porco já pronto para a matança?

Chega! sussurrou ele, desesperado, desviando o rosto. Estás a humilhar-me, as pessoas estão a ver!

Que vejam! quase gritei. Não querias a verdade? És tu o fiscal da estética cá de casa?

Afastei-me um pouco para contemplar o quadro inteiro.

Se é para nos analisarmos, então faz-te à luz.

Não vou começou, mas calou-se.

Vá, vira-te! ordenei, num tom decidido.

Lentamente, Joaquim desviou-se, o corpo macio a hesitar.

No espelho via-se de perfil, longe de qualquer ideal clássico.

E o pescoço. Ou melhor, a ausência dele.

Vês a dobra tripla atrás, junto ao colarinho? disse como quem faz um exame médico. Pareces um shar pei, Joaquim, puro e certificado.

Filomena já chorava a rir, escondendo-se atrás do guardanapo.

E por baixo do queixo? continuei. Parece papo de pelicano! Guardas comida aí de reserva?

Eu sou homem! miou Joaquim, agora a voz quase falhando. Nós podemos!

Ah, vocês podem? ri, fria. Então, quando eu, depois de duas filhas e trinta anos à frente dos tachos, tenho só uma dobrinha é uma vergonha, preguiça, pele a cair?

Cheguei-lhe bem perto, olhos nos olhos.

Mas tu, que não levantaste mais que o comando da televisão em dez anos, transformaste-te neste doce tremelicante e isso é charme de homem maduro?

Arranquei o espelho das mãos já cansadas.

Ficou ali plantado: perdidinho, descosido, com um botão da camisa finalmente rendido a rolar debaixo da mesa.

Todo o ar de águia lhe fugiu, só restando um senhor de idade, bem túrgido, que finalmente viu o rei nu.

Senta-te, disse calmamente, encostando o espelho ao aparador. E come.

Mergulhou na cadeira, que gemeu de protesto.

Quero mais ouvir, nem uma sílaba sobre a minha figura avisei, ajustando o cabelo junto ao espelho.

Voltei-me para ele e, baixinho, acrescentei:

Ou penduro isto mesmo em frente ao teu lugar, para comeres a olhar para o teu pelicano.

Artur já ria abertamente, lágrimas nos olhos, sem o menor receio de ofender o dono da casa.

Joaquim, derrotado, espetou o garfo num pequeno cogumelo de conserva. Mastigava devagar, sem desviar os olhos do prato, tentando tornar-se invisível.

Agora pairava um ar leve, sem o sufoco habitual das discussões domésticas. Como se alguém, finalmente, tivesse aberto a janela e deixado entrar ar fresco naquela sala carregada.

Sentei-me com orgulho, no meu lugar.

Peguei na grande espátula prateada e servi-me uma fatia enorme, mesmo exagerada, do bolo Napoleão. O mesmo que tinha andado meio dia a fazer, estendendo e assando camadas fininhas e que prometera não comer para não engordar.

O creme escorria, a massa estalava sob o garfo.

Maria, passa também uma fatia valente, pediu Filomena, oferecendo o prato. Que se lixe a dieta só se vive uma vez.

Para mim também! piscou Artur, enchendo o copo de sumo. Acho que me estão a crescer asas, preciso alimentá-las.

Joaquim ergueu os olhos, por um instante.

Olhou-me com respeito cauteloso, quase admirado.

Depois focou o bolo.

Finalmente, olhou para o espelho encostado à parede, testemunha silenciosa do seu naufrágio. Ao fundo, via-se os pés dele por baixo da mesa uma meia preta, outra azul-escura, quase beringela.

A águia lusitana, caseira.

Desculpa, Maria, murmurou ele por fim, de olhos fixos na toalha. Fui parvo, saiu-me mal.

Come, Joaquim, trinquei um pedaço do bolo sentindo o creme na língua. Vai precisar de forças.

Olhou-me intrigado.

Para levantar os halteres, expliquei, a sorrir. És o nosso atleta, não és?

A noite continuou: conversas de sempre, às voltas entre os preços no mercado, a horta e o tempo.

Mas algo mudou. Irreversível.

O meu crítico de serviço murchou. E ficou só mais uma pessoa no mundo com fraquezas, medos e muitas dobras.

E sabem que mais?

Aquele bolo soube-me a glória. Como não sabia há vinte anos.

O espelho ficou ali naquela sala; nunca mais o tirei.

De cada vez que Joaquim passa por ele, estica o tronco e prende a respiração.

Sobre a minha pele a cair, nunca mais disse um ai.

Talvez por receio de acordar o pelicano.

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«A tua pele está a descair!» — marido de 60 anos beliscava-me perante os convidados, até que trouxe um espelho e mostrei-lhe o que estava a descair nele.