A Tonta Todos achavam a Ana um pouco tontinha. Ela já estava casada há quinze anos com o marido, V…

Diário de Ana Margarida

Nunca ninguém me levou muito a sério, talvez por sempre me acharem um pouco ingénua, aquela tolinha. Vivo com o Manuel há quinze anos. Temos dois filhos: Leonor com catorze anos, e o Simão, que acabou de fazer sete. O Manuel nunca escondeu muito as escapadelas dele. A primeira traição aconteceu logo na segunda noite de casados, com uma das empregadas do restaurante. Depois disso, perdi a conta. As minhas amigas tentavam abrir-me os olhos, mas eu só lhes sorria e mudava de assunto.

Trabalho como contabilista numa fábrica de brinquedos infantis, mas nem o ordenado é grande coisa, nem as folgas são muitas. Sábados e domingos há sempre pilhas de papel e até cheguei a dormir no escritório para acabar os balanços trimestrais e anuais.

O Manuel traz bom dinheiro para casa. Mas, dizem, eu nunca dei grande conta do recado como dona de casa. Por mais euros que ele deixasse em cima da mesa, o frigorífico vivia vazio, e quando cozinhei, era quase sempre sopa e arroz de salsichas. Era o que havia. A vizinhança ficava de boca aberta cada vez que apanhava o Manuel de braço dado com uma paixão nova. Para cúmulo, ele às vezes chegava a casa tão sóbrio quanto uma pedra.

Aquela Aninhas é uma parva, como é que aguenta aquele mulherengo? murmuravam pelas costas.

No dia em que o Simão fez dez anos, o Manuel chegou a casa com um ar decidido. Disse que queria o divórcio. Estava apaixonado, já não se revia nesta família.

Ana, não te zangues, mas vou pedir o divórcio. És fria como gelo. Se ao menos fosses uma boa dona de casa mas nem isso te posso agradecer.

Está bem, aceito o divórcio.

Ele quase caiu da cadeira. Esperava um escândalo, gritos, choradeira… mas eu dei-lhe apenas uma espécie de sorriso e deixei-o falar.

Olha, assim sendo, arruma as tuas coisas. Não te atrapalho. Amanhã, deixa a chave debaixo do tapete.

Olhei para ele, silenciosa, mas tudo aquilo parecia-lhe estranho. Não quis pensar no assunto muito tempo, já sonhava com a vida nova: sem filhos, sem mulher “aborrecida”.

No dia seguinte, voltou com a mais recente conquista. Foi logo procurar a chave debaixo do tapete, mas nada. Ficou irritado.

Não faz mal, troco a fechadura, que remédio.

Mas quando tentou meter a chave na porta, não resultou. Tocou à campainha. Quem abriu foi um homem enorme, de robe e chinelos.

O que queres daqui, pá?

Isto é a minha casa.

Será mesmo? Tens papéis para mostrar? Se tens, mostra.

O Manuel não trazia documentos nenhuns. E o tal homem não lhe deu passagem. Foi então que se lembrou do passaporte, com a morada. Procurou no bolso, achou-o e mostrou-o, confiante.

O homem folheou o passaporte, devolveu e perguntou-lhe:

Quando é que foste a última vez a essa página?

O Manuel abriu o passaporte na morada e viu dois carimbos. Um da entrada, e outro de saída… de há dois anos.

Ficou sem reacção. Nem tentou discutir com aquele gigante. Telefonou-me, mas o meu número fora de serviço.

Tentou esperar-me à porta da fábrica, mas lá avisaram-no: eu já não trabalhava ali há um ano. A Leonor tinha ido estudar para França, e o Simão, pensou ele, continuaria na mesma escola. Mas também não o encontraram. Fora transferido para outra escola e, como “o pai” não sabia, não lhe deram o contacto.

Perdido, sentou-se num banco de jardim, sem saber como tudo aquilo tinha acontecido. Eu, a mulher sem voz nem força, dei-lhe uma volta destas. E, acima de tudo, como consegui vender o apartamento? “Bem, trato disso em tribunal”, pensou. O divórcio era na semana seguinte.

Foi ao tribunal furioso e decidido a desmascarar-me. Rapidamente tudo ficou esclarecido. Afinal de contas, ele próprio assinara, há dois anos, uma procuração geral em meu nome. Tinha conhecido a Elizabete na altura, uma mulher que lhe virava a cabeça. Esqueceu tudo inclusive as assinaturas nas papeladas que eu lhe metia à frente para tratar das burocracias da Leonor, que precisava de autorizações dele para estudar fora. Um advogado amigo dele aconselhou-o: “Assina, é mais fácil”. E assim o Manuel ficou sem nada.

Ficou na rua, sozinho. Para sua surpresa, quando a Elizabete soube que ele não tinha casa, evaporou-se num instante.

“Bem, pelo menos vai pedir uma parte do meu salário para os filhos, mas essa não leva nada”, pensou. Mas o que lhe chegou, em vez de uma intimação para pagar a pensão, foi uma notificação para contestação de paternidade. Afinal, ambos os filhos eram de outro homem.

Na noite do casamento, vi o Manuel aos beijos com a empregada do restaurante. A minha cabeça fez um clique. Nem percebi como, mas jurei vingar-me à minha maneira. A primeira ideia foi trair também. Depois, guardei de lado todos os euros do que me dava para as despesas da casa. O frigorífico vazio, sim, mas os miúdos tinham sempre roupa nova e comiam em casa da minha mãe. Ela bem me pedia para desistir daquele plano.

O ódio vai destruir-te, Ana, e vai fazer mal às crianças.

Mas não parei. E quando os miúdos cresceram, fiz exames de ADN, embora já soubesse quem era o pai de verdade.

Foi aí que o Manuel se afundou, mais até do que quando perdeu o apartamento. Descobrir que nunca foi pai daqueles dois foi o golpe final.

Cuidado com as mulheres magoadas, que a raiva delas tudo consegue.

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A Tonta Todos achavam a Ana um pouco tontinha. Ela já estava casada há quinze anos com o marido, V…