DIÁRIO
Hoje sentei-me à mesa da cozinha, a ver o leite a ferver devagar no fogão. Por três vezes esqueci-me de mexer, e em cada uma delas só me lembrei já demasiado tarde: a espuma subia, transbordava, e eu limpava o fogão de mau humor. Nessas alturas sentia com mais clareza: o problema não era o leite.
Desde que nasceu o segundo neto, parece que tudo cá em casa descarrilou. A minha filha, Beatriz, está esgotada, emagreceu, fala menos. O genro, Ricardo, chega tarde, come em silêncio e às vezes vai logo para o quarto. Eu vejo isto tudo e penso: como é possível deixar uma mulher assim sozinha?
Falei. Primeiro baixinho, depois com mais firmeza. Comecei pela Beatriz, depois foi ao Ricardo. E então notei uma coisa estranha: quanto mais falava, mais pesado ficava o ambiente. A minha filha defendia o marido, o genro fechava-se, e eu ia-me embora com a sensação de ter feito, outra vez, algo mal.
Nesse dia fui falar com o padre Carlos, não tanto à procura de conselho, só porque não sabia mais onde deixar este peso.
Se calhar sou má mulher, padre disse-lhe, sem coragem de o encarar. Faço tudo ao contrário.
O padre escreveu qualquer coisa, pôs a caneta de lado e olhou para mim.
Porque pensa isso, dona Margarida?
Encolhi os ombros.
Só quero ajudar. Mas só consigo irritá-los.
Ele olhou-me com atenção, mas sem dureza.
Não é má, Margarida. Só está cansada. E bastante ansiosa.
Suspirei. Parecia-me verdade.
Tenho medo pela Beatriz confessei. Desde o parto ficou outra pessoa. E ele… abanei a mão, parece que nem repara.
E já reparou no que ele faz? perguntou o padre.
Parei para pensar. Lembrei-me de o ver, semana passada, a lavar a loiça ao fim da noite quando pensava que ninguém via. Ou ao domingo, quando andou a passear o carrinho da bebé, apesar do ar de quem só queria dormir.
Faz talvez faça respondi, sem convicção. Mas não como devia.
E como devia ser? perguntou o padre calmamente.
Quis responder logo, mas percebi que não sabia. Só pensava: mais. Mais vezes, mais atento. Mas o quê, ao certo, era difícil explicar.
Só quero que a Beatriz tenha a vida mais leve desabafei.
Então, diga isso a si própria respondeu ele, em voz baixa. Não a ele.
Olhei-o, sem perceber.
Como assim?
Digo que, agora, não está a lutar pela sua filha, mas contra o marido dela. E lutar cansa toda a gente. Você, eles.
Fiquei em silêncio muito tempo. Depois perguntei:
Então o que faço? Faço de conta que está tudo bem?
Não respondeu. Só faça o que ajuda. Menos palavras, mais ações. Não contra ninguém, mas para alguém.
Na volta para casa, fiquei a pensar nisso. Lembrei-me de quando a Beatriz era pequena: não lhe dava sermões quando chorava, só me sentava ao lado dela. Porque hoje seria diferente?
No dia seguinte fui lá sem avisar. Levei sopa. A minha filha ficou surpreendida, o Ricardo um pouco atrapalhado.
Fico só um bocadinho disse-lhes. Vim só ajudar.
Fiquei com os meninos enquanto a Beatriz dormia. Saí em silêncio, sem falar de como era tudo difícil e o que devia ser feito.
Regressei uma semana depois. E outra vez, na semana seguinte.
Continuava a ver o que faltava ao Ricardo. Mas comecei a notar outras coisas: como ele pegava no mais novo com cuidado, como tapava a Beatriz à noite, achando que ninguém via.
Um dia, não resisti, na cozinha disse-lhe:
Está a ser difícil, não está?
Ele olhou-me admirado, como se ninguém lho tivesse perguntado antes.
Está respondeu após uma pausa. Muito.
E ficou por aí. Mas depois disso, algo pesado desapareceu entre nós.
Percebi que andava à espera que ele mudasse. E afinal devia começar por mim.
Deixei de comentar com a Beatriz sobre ele. Quando ela desabafava, não dizia Eu avisei-te. Limitava-me a ouvir. Às vezes ficava com os miúdos para ela descansar. Outras vezes ligava ao Ricardo, só para saber como ia. Não era fácil. Era muito mais simples ficar ressentido.
Mas, aos poucos, a casa foi ficando mais calma. Não melhor, nem perfeita só mais calma. Sem aquela tensão de sempre.
Um dia, a Beatriz disse-me:
Obrigada, mãe, por agora estares connosco, e não contra nós.
Passei dias a pensar nessas palavras.
Compreendi uma verdade simples: reconciliação não é alguém assumir a culpa. É alguém ser o primeiro a baixar as armas.
Ainda gostava que o Ricardo fosse mais atento. Isso não desapareceu. Mas ganhou espaço um desejo maior: paz na família.
E sempre que voltava a sentir-me impaciente, magoado ou com vontade de criticar, perguntava a mim mesmo:
Quero ter razão ou quero que eles vivam melhor?
Quase sempre, a resposta dizia-me o caminho.







