Lisboa, 17 de maio
Depois do casamento do nosso filho, ele simplesmente deixou de nos visitar. Agora está sempre com a sogra dele. Parece que ela tem sempre alguma emergência, alguma coisa importantíssima para resolver. Se penso bem, nem imagino como é que ela se desenrascava antes de a filha casar com o nosso rapaz.
O nosso filho está casado há pouco mais de dois anos. Quando ele entrou para a universidade, nós comprámos-lhe um apartamento na Amadora. Quisemos sempre que ele tivesse conforto e autonomia. Ainda antes do casamento, já vivia sozinho nesse apartamento, porque era mais perto do trabalho. Criámo-lo sempre com carinho e compreensão, e nunca lhe faltou apoio da nossa parte.
Quanto à minha nora, confesso que nunca tive problemas com a Iolanda. Mas sempre achei que ela não tinha maturidade para uma vida a dois. O nosso filho só tem mais dois anos do que ela, mas Iolanda comportava-se muitas vezes como uma miúda mimada. O meu filho é um rapaz tão correto, sempre preocupado com os outros, e confesso que às vezes me questionava como iria aguentar aquele feitio dela.
Depois, conheci a sogra do meu filho, a dona Silvina, e percebi de onde vinha tudo. Era da minha idade, mas portava-se como uma miúda. Não sei se já conheceram pessoas que parecem eternas crianças, incapazes de dar conta de si próprias. Ela, então, para além de infantiloide, já vai no sexto casamento desfeito.
Nunca houve grandes conversas entre nós ela andava sempre noutra, alheada do nosso mundo, e as interações resumiam-se a trocar cumprimentos ou felicitações no casamento dos miúdos, de resto nada mais.
Comecei a desconfiar que algo se estava a passar ainda antes do casamento, porque a Iolanda arranjava sempre desculpas para o nosso filho ir lá a casa: ou era uma torneira a pingar, ou uma tomada estragada, ou uma prateleira a cair na cozinha. Ao início fechei um olho na casa delas não havia homem, então pensei que uma ajuda vinha sempre a calhar.
O problema é que a lista de avarias nunca mais acabava. O nosso filho foi-se afastando de nós. Preferia ir ajudar a sogra, e explicava-se sempre: O apartamento da mãe da Iolanda tem sempre problemas. Depois começaram a passar lá todas as datas importantes. Nas festas, lá em casa, ficávamos só eu, o meu pai e a sogra.
Ainda custou quando deixou de aparecer ao Natal e à Páscoa mas, acima de tudo, magoou-me quando passou a ignorar os nossos próprios pedidos de ajuda. Quando comprei um frigorífico novo, pedi-lhe ajuda para o transportar. Ele disse que sim, mas depois telefonou a cancelar porque ele e a mulher tinham de ir resolver o problema da máquina de lavar da dona Silvina, que estava a verter água.
A minha mulher telefonou-lhe e, do outro lado, ouviu Iolanda dizer: Os teus pais não podem pagar a uma transportadora?. Ainda assim o nosso filho apareceu mas veio contrariado.
Ó pai, não podias ter chamado uma transportadora? Tenho de ser sempre eu a carregar estas coisas?
Perdi a paciência. Perguntei porque é que a sogra dele nunca chama um profissional. Então o nosso filho saiu-se com um argumento estranho, dizendo que naquela zona os técnicos cobravam caro e não faziam nada de jeito.
Foi aí que o sogro (meu sogro, o avô) não aguentou mais e atirou: A tua sogra percebe pouco de máquinas, mas deve ser uma especialista a levar os outros ao engano. O nosso filho ficou fulo, pegou nas coisas e saiu porta fora.
Nesse momento, não disse nada, mas pensei cá para mim que o meu sogro tinha razão. Os familiares novos do meu filho encostaram-se a ele para tudo queriam um homem para canalizador, eletricista e até para carregar móveis, mas para nós nunca tinham tempo.
Depois desse bate-boca, o meu filho não falou mais com o avô durante duas semanas. O avô também se recusa a dar o braço a torcer. E eu fico no meio dos dois, sem saber o que fazer. O avô pode não ter tido muita sensibilidade ao falar, mas não deixa de ter razão. Acho que podia ter sido mais brando com o miúdo.
Agora, nenhum deles quer dar o primeiro passo para se reconciliar. O nosso filho só diz que enquanto o avô não lhe pedir desculpa, nada feito. O avô responde que não tem nada de se desculpar, e eu fico cada vez mais desanimado.
No meio disto tudo, a única pessoa que parece viver à vontade é mesmo a sogra Fiquei a pensar que, por vezes, tentar agradar a todos é impossível, principalmente quando as famílias crescem. Aprendi que é importante impor certos limites logo de início, porque se não, acabamos por perder os filhos não para o mundo, mas para a casa da sogra.







