A sogra decidiu pôr Matilde à prova. O resultado foi inesperado.
Carminda Albuquerque ligou numa quinta-feira à noite. Hugo atendeu, conversou uns dez minutos, depois entrou na cozinha com aquela expressão de quem traz uma notícia pouco animadora, mas ainda não decidiu como a vai dizer.
A minha mãe vem cá, disse ele. Por umas duas semanas.
Matilde mexeu a sopa.
Quando?
No sábado.
Matilde desligou o fogão.
Duas semanas. Ela sabia bem o que isso queria dizer na linguagem de Carminda Albuquerque. Era como o um bocadinho de sal nas receitas dela pura subjetividade.
A sogra apareceu no sábado, pontualmente ao meio-dia com uma mala gigante, de onde se ouviam tilintares misteriosos, e com aquela expressão de quem veio fazer uma inspeção. Avaliadora. Daquelas com que se visitam casas antes de comprar.
Ora bem, disse ela, a olhar o hall de entrada. Não há pó. Já é bom sinal.
Hugo riu-se. Matilde sorriu.
Já é bom pelo visto era um elogio.
Carminda foi direta à cozinha, abriu o frigorífico só de passagem, claro! e comentou, pensativa:
Compras iogurtes magros? O Hugo precisa é dos normais, que ele tem o estômago sensível.
Foi ele que pediu assim, respondeu Matilde.
Pois, pedir pede muita coisa retrucou Carminda, fechando o frigorífico com ar de quem acabou de fazer uma grande descoberta.
À noite, quando Hugo foi tomar banho, Carminda sentou-se no sofá, cruzou as mãos no colo e falou com uma calma toda especial, quase carinhosa:
Olha, Matilde, não leves a mal. É importante para mim perceber como és realmente.
Carminda Albuquerque era uma profissional. Trabalhava em silêncio, como uma restauradora, desvendando camada a camada até chegar ao que queria. Cada comentário era certeiro, com sorriso, quase inocente.
No segundo dia, descobriu as toalhas.
Matilde, disse ela, pensativa, em frente à casa de banho com a toalha na mão, sabes que as toalhas devem estar penduradas pela argola para secarem melhor?
Sempre pus assim, respondeu Matilde.
Pois, pois, concordou Carminda, pendurando a dela à moda dela argola para baixo, como quem hasteia bandeira quando assume o poder.
As camisas do Hugo estavam alinhadas no armário, perfeitamente passadas, dispostas por cor. A sogra abriu o armário, analisou calmamente e murmurou:
As golas estão um bocadinho amarrotadas. Mas, pronto, se calhar é de propósito.
Matilde ouviu, mas sabia: aquilo não era uma pergunta, era só para reforçar um juízo. Comentário planeado de jeito que não dava resposta.
A planta na janela uma velha figueira-de-bengala, já com mais mudanças de casa que a própria Matilde , segundo a sogra, era regada de forma totalmente errada.
Matilde, os ficus não gostam de água por cima. É na base.
Este está comigo há oito anos, explicou Matilde.
Pois, oito anos Podia estar melhor.
O ficus calou-se e ficou a ouvir. Foi a opção sensata da planta.
Já a arrumação dos alimentos no frigorífico mereceu um seminário à parte uma aula com prática: lacticínios na prateleira do meio, carne em baixo e só em caixa, verduras em saco furado, senão murcham, ovos no tabuleiro próprio e nunca na porta, que abana demais. Matilde acenava. E os ovos ficaram na porta, claro.
À noite, Carminda telefonava Matilde ouvia da cozinha, não de propósito, mas o apartamento era antigo e lá de dentro ouvia-se tudo.
Não, Guida, no geral não está mal. Nota-se que se esforça. Mas vê-se logo não tem queda. Olha, faz o cozido de feijão, imagina! O Hugo come, coitado, que é educado e não refila. Mas eu noto. E pendura mal as toalhas, não sabe cuidar das plantas
Matilde lavava uma chávena e pensava: Será que isto ainda vai durar muito? Pela sensação, exame já chumbei. O que vai acontecer agora?
Hugo assistia a tudo com a típica alienação masculina: vejo tudo, mas finjo que não, não percebo o que devo fazer e espero que passe sozinho.
À noite, dizia-lhe:
Não ligues. Ela preocupa-se.
Eu sei, respondia Matilde.
Não faz por mal.
Eu sei, Hugo.
Quer só saber que está tudo bem connosco.
Eu sei.
Ele olhava-a um pouco aliviado, outro tanto culpado. Que bom que ela percebe. E não faz cenas. Que sossego.
Óptimo, pensava Matilde, e ia lavar loiça.
No décimo dia, Carminda deixou a cozinha de propósito de pantanas. Matilde chegou do trabalho já quase às sete copos sujos em cima da mesa, migalhas, manteiga aberta. A sogra estava na sala, a ver televisão.
Matilde arrumou tudo. Limpou. Ficou a brilhar.
À noite, Carminda foi ter com o filho ao corredor, supondo que Matilde estava na casa de banho:
Hugo, reparaste na confusão que voltou à cozinha? Ela deve andar aflita, nem tem tempo para se orientar.
Matilde, no corredor, a ouvir tudo recostada na parede.
Hugo ficou em silêncio.
Pronto, pensou Matilde. Já está visto.
Não ficou magoada. Pelo menos, nada que se notasse.
Mas no dia seguinte, ao pequeno-almoço, quando Carminda anunciou que para a próxima semana vinham passar lá umas horinhas três irmãs dela só para conviver e nos conhecermos melhor , Matilde sorriu e disse:
Perfeito. Fica tudo à vontade.
Hugo olhou para ela surpreso. Carminda, desconfiada. Matilde terminou o café e foi preparar-se para o trabalho.
Vamos ver, como diz a sogra.
As visitas chegaram no sábado, por volta das duas e meia.
As três irmãs de Carminda Rosalina, Leonor e Palmira eram mulheres decididas, de opinião formada e vozes robustas. Entraram, inspecionaram rápido o hall com olho de avaliador imobiliário, e só depois tiraram os casacos.
Boa casa, elogiou Rosalina. Com boa luz.
As obras já são de quando? perguntou Palmira.
Três anos, respondeu Matilde.
Nota-se, disse Palmira, sem esclarecer o quê.
Carminda saudava as irmãs com cara de encenadora a ver como os atores vão improvisar na peça. Hugo ajudava com os casacos. Matilde sorria, serena num canto, sem stress nenhum.
Isso deixou Carminda um bocadinho inquieta.
Seguiram para a sala. Sentaram-se. Rosalina espreitou, ajeitou uma almofada sem razão, e perguntou:
Então Matilde, o que vai hoje para a mesa?
Aí, (e agora é que a coisa vai ficar interessante) Matilde fez o inesperado.
Virou-se para a sogra, tranquila, sem grandes encenações:
Dona Carminda, eu achei mesmo que hoje tomaria conta da cozinha. Já disse tantas vezes que faz melhor do que eu, e tudo lhe sai com outro sabor. Não me ia atrever a envergonhar-me diante da sua família.
Silêncio.
Carminda olhou para Matilde. Ela devolveu-lhe o olhar, aberta, simpática, como quem faz uma proposta perfeitamente normal e não entende a pausa.
Eu começou Carminda.
Está lá tudo, disse Matilde. Frango, legumes, ervas aromáticas. Fui eu que comprei de manhã. O Hugo sempre disse maravilhas da sua comida.
Hugo, no sofá, de repente tornara-se muito interessado no padrão da carpete.
Leonor trocou um olhar rápido com Rosalina. Palmira espreitou a Carminda com curiosidade.
Pois bem, disse Carminda. Vamos a isto.
E foi para a cozinha.
Matilde sentou-se ao lado de Rosalina e, descontraída, perguntou:
Correu bem a viagem? Havia muito trânsito?
Rosalina ficou um bocado baralhada, aquilo não era o que esperava, mas respondeu. Depois Palmira comentou sobre o engarrafamento. Leonor acrescentou que no bairro dela aos sábados ninguém anda. O paleio avançou naturalmente, como costuma acontecer quando as pessoas não querem que se faça silêncio constrangedor.
Da cozinha vieram ruídos.
Primeiro portas do frigorífico a bater. Depois silêncio. Mais portas. Depois irrequietação com panelas. E finalmente o barulho resignado de quem anda à procura de qualquer coisa que não acha.
Matilde! chamou Carminda da cozinha. Onde guardas a travessa de ir ao forno?
Armário de baixo, à direita, respondeu Matilde do sofá.
Pausa.
Não encontro.
Está atrás do tabuleiro.
Pausa prolongada.
Ah, encontrei.
Rosalina tossiu. Leonor olhou demoradamente o quadro na parede. Palmira simulava interesse pela vista da janela.
Matilde virou-se para Leonor:
Leonor, quer um chazinho? Eu ponho a água a ferver.
Aceito!, Leonor sorriu, aliviada.
Matilde foi à cozinha e, durante uns segundos, ficou ao lado da sogra. Carminda tinha ar de general de campanha relegada de repente para o pelar batatas.
Não disseram palavra.
Matilde pôs a água ao lume, tirou as chávenas e saiu.
O jantar lá saiu. Passada uma hora e meia não foi rápido, foi meio caótico, o frango ficou um bocado seco, o molho aguado. Carminda pôs a mesa como quem cumpre um dever, mas já só queria estar longe dali.
Rosalina provou o frango. Disse diplomaticamente:
Carminda, fizeste sempre tão boa comida.
A mesa ficou relativamente calada. Não era desconforto era só silêncio. Toda a gente percebeu, ninguém quis fazer grande festa com aquilo. Conversou-se sobre tudo e nada, elogiaram-se os pratos, sem demasiado entusiasmo, mas com boa vontade.
Matilde não comentou nada em particular ao jantar. Perguntou pelos filhos da Leonor, apoiou a conversa da horta, serviu chá.
Carminda, na ponta da mesa, calada.
Quando as visitas saíram e a loiça estava lavada, Carminda saiu da cozinha a enxugar as mãos numa toalha. Naquela mesma, pendurada pela argola.
Matilde estava na sala com o chá. Hugo ao lado.
A sogra ficou à porta, aproximou-se, sentou-se num cadeirão. Ficou em silêncio. Lá fora já era noite e só se ouvia a televisão dos vizinhos.
És desenrascada, disse Carminda.
Eu só sei o que quero, respondeu Matilde.
Carminda acenou que sim. Erguer-se, ajeitou-se para sair para o quarto, já de costas comentou:
O teu cozido com feijão, para ser sincera, até não era mau.
E saiu.
Hugo olhou para Matilde.
Pensaste nisto há muito? perguntou baixinho. A cena da cozinha?
Desde que não disseste nada no corredor, respondeu ela.
Ele acenou. E nunca mais mencionou o assunto.
Três dias depois, Carminda foi-se embora. Fez as malas, chamou o táxi. Antes de sair, abraçou o filho, hesitou e abraçou Matilde também.
Matilde fechou a porta. Passou pela casa de banho e voltou a pôr a toalha pendurada como sempre, pela argola para cima.







