A Sílvia detestava os dias em que potenciais pais adotivos vinham ao lar de crianças! Porque, em sete anos que viveu ali, nunca foi escolhida, nem uma única vez.

A Matilde nunca suportou os dias em que potenciais adotantes vinham ao lar de crianças em Lisboa. Em sete anos que ali viveu, nunca foi escolhida por ninguém.

Em tempos, quando era ainda pequenina, aguardava por esses dias cheia de esperança. Olhava, fascinada, para os casais elegantes que pareciam-lhe gente de conto de fadas, prestes a levá-la para um palácio encantado. Sonhava com uma nova mãe a dar-lhe um beijo de boa noite e um novo pai que a levasse aos ombros pelo parque. Imaginava até um quarto só para ela e, acima de tudo, sonhava não ter de lidar cada dia com o irritante Diogo, sempre pronto a puxar-lhe as tranças e a chamá-la de Pardalito.

Matilde não fazia ideia do significado da palavra, mas parecia-lhe cruel. E Diogo insistia:
Pardalito! Pardalito!
Tinha apenas cinco anos quando chegou ao lar, depois dos pais terem morrido num acidente. Matilde não entendia porque a mãe e o pai nunca apareciam, e porquê a tinham deixado.

Com o tempo, compreendeu que eles já não voltariam e os rostos deles começaram a perder-se na memória. Esqueceram-se as vozes, os cheiros, até a casa onde tinham vivido juntos.

Desejava tanto ser escolhida um dia! Mas o milagre nunca acontecia, e foi crescendo, aceitando já que ninguém a escolheria. Só escolhiam sempre as meninas bonitas, de olhos risonhos e cabelos luxuosos cheios de laços.

O Diogo não parava de a importunar. Agora, pelo menos, ela já sabia que “pardalito” era um passarinho.

Nesse dia, voltaram potenciais adotantes ao lar. Vestiram todas as meninas, fizeram-lhes tranças com laços coloridos. Mas Matilde, cansada de esperar pelo impossível, cortou ela própria o cabelo, rente como um rapaz. Já não queria que a escolhessem. Decidiu que, dali em diante, seria ela a escolher na vida, e não o contrário.

Quando as educadoras a viram de cabelo curto, lançaram um suspiro escandalizado, e o Diogo, sem perder a oportunidade, atirou:
Pardalito!

Matilde completava doze. Diogo já tinha quinze.

Naquele dia, mais uma vez, não foi escolhida. O cabelo mal cortado e o olhar de tempestade punham qualquer adulto em sentido.

Três anos depois, o seu velho rival Diogo saiu do lar. Despediu-se de todos, mas antes de partir, procurou Matilde.
Então adeus, Pardalito?
Adeus, adeus respondeu ela, fingindo indiferença.
Aguenta só mais três anos! Depois venho-te buscar! afirmou ele, seguro.
Isso é que era bom! E quem disse que sou eu que te escolho a ti? Parvo! retrucou ela, sem rodeios.
Diogo olhou-a demoradamente, estranho, e saiu sem olhar para trás.

Ao fechar definitivamente a porta do lar, Matilde respirou o ar fresco da liberdade e da vida adulta em Lisboa. De patinho feio, transformara-se num belo cisne: cabelo ondulante até à cintura, grandes olhos verdes e figura elegante. Caminhou até ao antigo apartamento dos pais. E, de repente, ouviu:
Olá, Pardalito!
Ao olhar para trás, deparou-se com o Diogo.
O que fazes aqui? perguntou.
Disse que vinha buscar-te, aqui estou respondeu, aproximando-se.
Eu já disse que agora escolho eu! Matilde olhou-o de baixo, notando como ele crescera e ganhara ombros largos.
Então escolhe-me a mim, Matilde! pediu ele.
Vou pensar nisso e seguiu em direção à sua nova casa.

Diogo acompanhou-a até à porta do prédio, esperou que entrasse, e afastou-se. Desde então, todas as noites, sentava-se no banco em frente ao prédio, ficando ali até ela apagar as luzes.

O verão deu lugar ao outono chuvoso, depois veio o inverno, e Diogo continuava ali. Um dia, Matilde aproximou-se, sentou-se ao pé dele e perguntou:
Não te cansas? Não te faz frio?
Aguento bem. Só preciso que me escolhas, por favor! disse-lhe, com um olhar terno e demorado.

Matilde levantou-se num pulo e entrou a correr. Espiou depois pela cortina a ver Diogo, sentado, olhando as suas janelas.

No dia 31 de dezembro, Matilde apressava-se a chegar a casa depois do trabalho. Tinha ainda de pôr a mesa, vestir o novo vestido, porque o Ano Novo estava a chegar! Quando passou, o Diogo não estava no banco. O coração dela saltou… E se lhe tinha acontecido algo?

Uma hora depois, já tudo pronto, serviu-se de espumante. Aproximou-se da janela: Diogo continuava sem aparecer. O medo começou a apertar-lhe o peito, o estômago criou um nó.

Que faço agora? Procurá-lo? Mas onde? Não sei a morada, nem tenho telefone! Que parva fui! culpou-se ela.

E, nesse instante, lá fora uma luz brilhou! Matilde achou que já estavam a lançar fogo-de-artifício e aproximou-se ainda mais do vidro para espreitar.

No meio da neve do jardim, em letras enormes e incandescentes lia-se:
ESCOLHE-ME, MATILDE!!!
E no banco, Diogo acenava-lhe, olhando para as janelas dela com um sorriso.

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A Sílvia detestava os dias em que potenciais pais adotivos vinham ao lar de crianças! Porque, em sete anos que viveu ali, nunca foi escolhida, nem uma única vez.