A Saída da Tia

A saída da senhora

Não vais vestido assim, disse o Victor, sem sequer olhar para trás. Estava ao espelho do hall, a acertar o nó da gravata azul-escura de seda, comprada no mês passado por um preço que, aliás, a Inês só descobriu porque andava à procura da fatura do frigorífico. Estou a falar a sério.

Victor, é o aniversário da tua empresa. Dez anos. Eu sou tua mulher.

Pois, precisamente. Finalmente fitou-a, e naquele olhar havia qualquer coisa que lhe tirou o fôlego. Não era ternura, era um reconhecimento desconfortável. Ela já conhecia aquele olhar de outros tempos só nunca lhe tinha dado nome. És a minha mulher. E, por isso mesmo, peço-te que fiques em casa.

Porquê?

Ele suspirou. Aquele suspiro lento, arrastado, especial para as perguntas que segundo ele não tinham sentido, mas exigiam o aborrecimento de uma resposta.

Inês. Os parceiros de negócios vão lá estar. Pessoas de peso. Até pode aparecer imprensa.

E então?

Tu… Hesitou a escolher a palavra, como se fosse uma peça minúscula de puzzle. Encontrou. Tu és uma senhora. Entendes? Uma senhora comum. Nesse teu vestidinho azul com botões. Vão estar lá mulheres que se apresentam de outra forma.

Inês esteve calada na porta da cozinha, com o pano de cozinha nas mãos, já gasto, com o motivo esbatido de tantas lavagens. Fitava o marido e interrogava-se quando, exatamente, aquilo se tinha tornado normal. Em que momento palavras daquelas deixaram de soar absurdas.

Vais levar a Leninha contigo?

Ele nem pestanejou. Isso assustava mais do que qualquer zanga aquela frieza, nem raiva, nem hesitação. Só era aquilo.

A Leninha é minha assistente. Trata da organização do evento.

Victor

Inês, não sejas.

Só perguntei.

Não foi só uma pergunta. Tirou o casaco do cabide, sacudiu-o com aquela elegância treinada. Estás a insinuar coisas. Como sempre. Já me cansa esses filmes.

Inês pousou o pano no braço do sofá devagar, refreando o leve tremor das mãos para não dar parte fraca.

Está bem, disse ela. Pronto, Victor.

Assim é que é. Voltou-se para o espelho; viu-se e gostou, como sempre. Os miúdos estão em casa?

A Catarina está com uma amiga. O Manuel está na faculdade, deve chegar por volta das oito.

Diz-lhe para não fazer barulho quando eu chegar. Hoje vou chegar tarde.

A porta fechou-se. Inês ficou na entrada, engolida pelo cheiro do aftershave dele, que já cheirara bem mas agora parecia de outro mundo. Caro e alheio.

Foi para a cozinha, pôs água ao lume e ficou a ver o vapor a sair do bico do fervedor, a pensar que, há vinte e três anos, casara com um homem que olhava para ela de outra maneira. Gostava do riso dela, dizia-lhe que era como um guizo. Se corava, ele ria-se mais.

A água ferveu. Inês serviu o chá, espreitou o rodopiar das folhas na água.

Senhora. Chamou-lhe senhora.

Ela tinha cinquenta e dois. Não cem. Nem oitenta. Cinquenta e dois e, verdade seja dita, não estava nada mal. Não era manequim de capa, mas também não era aquilo que ele sugeria. O cabelo ainda era denso e castanho com só uns cabelos brancos, porque ela cuidava. As mãos sabiam tudo: fazer bolos, coser cortinas, acalmar filhos às três da manhã, mexer nos papéis de contabilidade, coisa que fizera vezes sem conta quando ele começou na sua Pedra Angular e se enrolava todo nas contas.

Quem é que o ajudou, nessa altura? Quem ficava noites a fio a cavar nos recibos?

Senhora. Pois sim.

Não chorou. As lágrimas estavam ali perto, sentia, uma pressão desconfortável cá dentro, mas não passavam à superfície. Talvez por já não ser a primeira vez. A primeira foi há uns três anos, quando ele lhe disse: Podias vestir-te melhor. Nessa altura, ficou magoada. Depois habituou-se. Depois concordava por conveniência. Agora estava ali sozinha na cozinha; o marido fora à celebração da empresa sem ela, com a Leninha de vinte e oito anos, que provavelmente nunca tivera um tabuleiro de bolos no forno, nem panos manchados, nem vinte e três anos de cumplicidade.

Cá fora caía a noite devagar. Noite de maio, quente, a cheirar a flores de laranjeira vindas do quintal lá em baixo. Inês terminou o chá, lavou a chávena, foi ao roupeiro.

Num canto, por trás dos casacos de inverno, pendia um vestido. Cor de vinho, de veludo, comprado em saldo há três anos no Sol & Companhia; vestira-o uma vez, em casa. O Victor desaprovou com um olhar e um Onde vais com isso? Demasiado vivo para a tua idade. Fica mal. O vestido passou para o fundo do armário, pensado para dar a alguém. Nunca foi.

Agora tirou-o. Sacudiu-o. Sentiu o veludo quente e pesado. Olhou-se ao espelho com ele ao peito.

Não. Não era nenhuma senhora.

Ouviu-se o chaveiro lá fora. O Manuel. Ouviu-o a descalçar-se, a atirar o casaco para o sofá, a ir até à cozinha.

Mãe, há de jantar?

Tens umas almôndegas no frigorífico. É só aquecer.

O que fazes aí parada com um vestido?

Inês virou-se. O Manuel estava na porta alto, com as maçãs do rosto do pai mas os olhos dela, cinzentos e exaustos depois do primeiro ano de faculdade. Andava curvado, como se a vida pesasse já.

Estou a experimentar, disse Inês.

Fica-te bem. Ele fez-se à cozinha, barulhento com tachos. Onde é que vais usá-lo?

Inês hesitou um segundo.

Ainda não sei. Se calhar em lado nenhum.

Ele voltou já com o prato, sentou-se e fitou-a com um olhar pouco próprio da idade.

O pai foi ao jantar?

Foi.

Sozinho?

Ela não respondeu de imediato. Pendurou o vestido nas costas da cadeira.

Manuel.

Mãe, eu sei. Soou tranquilo, sem mágoa, como quem expõe factos. A Catarina também sabe. Já sabemos há tempo.

E foi ali que as lágrimas chegaram, não em torrente, só que subiram, um nó na garganta. Inês ficou uns segundos só a respirar, a fitar a noite já escura pela janela.

Como soubeste? conseguiu perguntar.

Vi-os juntos, na primavera, num café ali na Avenida. Ele nem notou. Achei que era trabalho mas não era. Percebia-se.

Porque não me disseste?

E tu fazias o quê?

Boa pergunta. O que faria? Fingir que não sabia. Como nos três anos anteriores, quando pressentia algo estranho mas se convencia de que era tudo da sua cabeça. A psicologia de quem, depois dos cinquenta, começa a temer verdades é toda uma ciência.

Não sei, confessou.

Também não soube. Olhou-a sério. Mãe, ficas mesmo bonita nesse vestido. A sério.

Inês olhou para o filho. Para o rapaz a quem outrora lia histórias antes de dormir, ensinou a apertar os atacadores, mandava para a escola de lancheira. Dezanove anos. Já via o mundo inteiro mais do que ela gostaria.

Obrigada, sussurrou.

Depois do jantar, Inês ligou à Catarina. Ela chegou por volta das dez, a casa ainda a cheirar a perfume emprestado das amigas.

Mãe, o que se passa? Parou para espreitar a mãe com aquele radar adolescente. O pai disse-te alguma coisa?

Senta-te, disse Inês. Vamos conversar.

Sentaram-se as três à mesa da cozinha, com chá. Inês contou. Não tudo, mas o suficiente: o que o Victor lhe disse, sobre o vestido, sobre a Leninha e, a julgar pelas caras dos filhos, estava no caminho certo nos seus pensamentos.

A Catarina ouviu calada, a morder o lábio, como sempre fazia desde pequena, quando queria conter as lágrimas.

O pai chamou-te senhora? confirmou ela.

Sim.

Isso é Catarina abanou a cabeça à procura do termo. Injusto.

Muito injusto, retorquiu Inês.

E tu vais sair com esse vestido?

Inês olhou para o vestido, ainda pendurado.

Ainda não sei.

Nessa noite dormiu mal. Deitou-se do lado de sempre, a reflectir. Pensava na juventude posta a este lar, nestes filhos e neste homem. Largou o emprego quando o Manuel nasceu. Antes disso, trabalhava num atelier de costura, bom, no Chiado em Lisboa, era das melhores, a D. Isaura respeitava-a, dizia-lhe sempre que tinha mãos de fada. Depois, o Victor disse: Para quê trabalhar? Eu seguro as contas. E ela acreditou. Ele realmente segurava, e ela, ingénua, pensou: É isto, a boa vida.

Boa vida. Virou-se na cama, fitou o teto escuro.

O que sabe agora? Costurar, cozinhar, governar uma casa, fazer-se invisível. Isso, sobretudo, já era rotina.

Não. Não ia pensar assim. A costura era arte. E ela tinha talento, experiência, mesmo que não oficial, porque foi sempre trabalhando: para ela, para os filhos, para a vizinha do lado, que dizia que os vestidos da Inês batiam os das lojas.

Pensamentos em carrossel. Dormia e acordava, acordava e dormia, assim até quase às três, quando ouviu a porta a bater. O Victor voltou. Ouviu-o na casa de banho, banhos, passos, depois deitou-se ali ao lado. E em minutos já ressonava.

Inês ficou de olhos abertos mais uma eternidade.

De manhã, ele saiu cedo, quase sem tomar pequeno-almoço, só dizendo ao sair:

Esta semana vou chegar tarde. Não me esperes.

Porta. Silêncio.

Inês serviu café, sentou-se a olhar a rua, tudo cinzento de chuva miudinha, a laranjeira a brilhar nas folhas. Bebeu devagar e pensou. Pensou sem drama fria, quase, e estranhamente calma. Talvez quando a dor chega ao limite, transforme-se em qualquer coisa dura e lúcida.

O jantar era sexta-feira. Era terça.

Três dias.

Pegou no telemóvel e enviou mensagem à Tatiana. A Tatiana Fonseca fora a contabilista da empresa, mas mudara de emprego; mantinham café e confidências. Mulher de olhos abertos, sem rodeios.

Tatiana, vês-te comigo hoje?

Resposta rápida: Claro! Três e meia no Doce Café, pode ser?

Inês: Na boa, lá estarei.

Sentaram-se na pastelaria de bairro, duas ruas acima. Tatiana, de blazer cinza, cabelo curto, olhar atento ouviu tudo sem interromper, só levantou a sobrancelha quando Inês disse senhora.

Portanto ele disse mesmo isso, sublinhou a Tatiana.

Disse.

E da Leninha já sabias?

Desconfiava, o Manuel confirmou.

Tatiana girou a chávena nas mãos.

Inês. Vou-te dizer algo, não leves a mal.

Diz.

Sabia. Encara Inês. Ainda trabalhava lá. Vi-os juntos algumas vezes. Pensei em avisar-te. Não disse nada. Achei que cada um cuida da sua casa. Enganei-me. Desculpa.

Inês hesitou.

Pronto, Tatiana. Já não interessa.

O que vais fazer?

Inês respondeu de olhos nos olhos.

Vou ao jantar de aniversário.

Tatiana analisou-a em silêncio e assentiu.

Com os filhos?

Com eles.

Sabes que vai ser feio.

Sei.

E ele vai passar-se.

Também sei.

Tatiana calou-se, depois: O que é que precisas?

Pela primeira vez em dias, Inês sorriu genuinamente.

Preciso que alguém me faça o cabelo. Eu sozinha não chego lá.

Na quinta à noite, a Catarina penteava-a com todo o cuidado junto ao toucador da mãe. O cabelo de Inês ia até aos ombros, pintado de véspera, nada de extremo, só para nivelar a cor.

Mãe, não tens medo? perguntou a Catarina.

Um bocadinho.

O pai vai refilar.

Provavelmente.

E o que vais dizer?

Nada. Inês mirava-se ao espelho. Não é preciso dizer nada. É só entrar.

Catarina ajeitou a última madeixa, afastou-se, contemplou a mãe.

Lindíssima. E, com calor: Mãe, és mesmo bonita. Só que, às vezes, esqueces.

Inês virou-se e abraçou a filha com força. Catarina surpreendeu-se, mas retribuiu.

O vestido de veludo repousava em cima da cama. Inês vestiu-o devagar, com minúcia. A filha ajudou com o fecho. Olhou-se ao espelho.

Ali no reflexo estava uma mulher quase desconhecida. Ou melhor, reencontrada aquela que existia antes de começar a ceder.

A maquilhagem foi simples, mas eficaz: rímel, um batom telha claro, o antigo favorito. Brincos de ónix preto, herança da mãe.

Mãe, o táxi está aí, chamou o Manuel do hall.

Já vou, respondeu ela.

Pegou na carteira preta, velha mas fiel. Foi para o hall.

Manuel olhou: Uau.

Mesmo, uau confirmou a Catarina.

Ainda com as mãos a tremer ligeiramente, Inês acalmou-se de propósito. Só calma.

Vamos.

O Hotel Estrela do Norte era dos bons não o top, mas respeitável. O Victor quis lá o jantar por status: salão grande, pé-direito alto, catering próprio. Inês só ali estivera uma vez, num casamento, há uns oito anos. Lembrava-se do chão preto de mármore e do enorme lustre.

O táxi deixou-os à porta. Inês respirou o ar morno de maio, cheiro a jacarandá.

Mãe, sussurrou o Manuel, estamos contigo.

Eu sei. Agarrou a mão da Catarina. Vamos lá.

Havia já convidados atrasados no átrio, na pressa, todos com crachás pendurados nos blazers. Inês caminhava sem nervosismo. Um dos rececionistas aproximou-se, formal.

Boa noite. Vêm para a festa da Pedra Angular?

Sim, respondeu Inês. Sou a esposa do Victor Magalhães. Estes são os nossos filhos.

Ele hesitou, mas assentiu.

Por favor, segundo andar, Sala Âmbar.

A sala estava cheia. Roupas caras, cheiro a perfume, comida quente, conversa alta no bar, música ambiente. Inês ficou à porta, sentindo alguns olhares. Era peixe fora dágua e sabia. Aqueles sabiam bem quem era o Victor Magalhães, o seu estilo de vida, talvez sobre a Leninha. Mas da esposa, poucos.

Vês o pai? murmurou Catarina.

Ainda não. Inês procurou pelo salão. Já encontramos.

O Victor estava junto à parede do fundo, entre dois homens de fato escuro. Inês reconheceu um o Jorge Moreira, sócio velho da Pedra Angular, homem robusto de cabelos quase todos brancos, olhar sempre sério. O Victor respeitava-o. Ou temia-o. Inês nunca percebeu a diferença.

A Leninha estava ali.

Era a primeira vez que a Inês a via, embora já a imaginasse. Alta, jovem, de vestido justo azul, penteado perfeito. Bonita Inês constatou-o objetivamente, como se comenta o tempo. Vinte e oito anos. O braço dela pousava displicente no antebraço do Victor um gesto mais eloquente do que mil palavras.

Olha o pai, disse a Catarina, voz calma. Está com a tal senhora de azul.

Inês avançou.

Moveu-se devagar pelo salão. Uns desviaram-se, outros olharam de lado. Ela ia direita ao fundo, ao círculo da comida, ao marido.

O Victor viu-a a uns metros. A expressão mudou num instante: boca entreaberta e logo torcida, olhos frios.

Inês, disse baixinho. O que estás a fazer aqui.

Vim ao aniversário da tua empresa, respondeu ao mesmo tom. Dez anos é muito.

O Jorge Moreira olhou-a, depois para o Victor, depois de novo para ela.

Dona Inês? disse, surpreso mas caloroso. Há quanto tempo. Está uma senhora.

Boa noite, Sr. Jorge. Sorriu-lhe. O senhor também.

A Leninha recuou meio passo, largando discretamente o braço do Victor.

Nisto, a Catarina deu um passo à frente. Quinze anos, olhos escuros, ombros direitos. Olhou a Leninha com aquela honestidade desarmante e implacável das crianças.

Pai, disse Catarina alto o suficiente para se ouvir, porque estavas a dar-lhe um abraço? Ela não é a mãe.

O salão inteiro respirou mais fundo. Alguém baixou o volume da música, dois homens junto ao Jorge trocaram olhares, uma senhora com colar de pérolas virou a cabeça.

O Victor empalideceu (e isso até superava o bronzeado).

Catarina, começou. É trabalho, eu depois explico

Pai, eu não sou tonta, Catarina continuou, voz firme. Eu e o Manuel já sabemos há tempo.

O Manuel ficou ao lado, calado, mãos caídas, só a olhar para o pai.

O Jorge pigarreou e pousou o copo.

Victor, disse secamente, naquele tom que resume tudo e impõe um corte. Vejo que têm coisas de família. Falamos depois.

Fez um aceno cavalheiresco a Inês, virou costas e levou o grupo com ele.

A Leninha balbuciou algo sobre vou ver do catering, e desapareceu na multidão.

Ficaram o Victor, a Inês e os filhos. Ele olhava-a, e agora ela via claramente: não era zanga nem desespero era desconcerto. Ele não fazia ideia.

Inês, balbuciou, tu sabes o que fizeste?

Vim ao aniversário da tua empresa, repetiu ela. Dez anos é muito.

Pescou de uma bandeja um copo de espumante. As bolhinhas subiam num fio.

Podias ter ficado em casa, murmurou. Pedi-te.

Podia, concordou. Mas não fiquei.

Olhou para ele. Nessa altura, tudo se encaixou. Não era ódio, nem triunfo. Só clareza, fria. Olhou para o homem do fato caro, com botões de punho e gravata caríssima, para quem cozinhou e lavou e criou filhos vinte e três anos e pensou apenas: Que desperdício de tempo.

Vou brindar à tua firma, disse. Depois vou-me embora. Os miúdos estão cansados.

Virou-se para os filhos.

Vamos, sussurrou.

Caminharam para a saída, sentindo todos os olhos. Olhares curiosos, pesados, alguns solidários, outros de condenação. Já não doía mais do que antes.

À porta, o Manuel pegou-lhe no braço.

Foste corajosa, mãe.

Só vim.

Vieste. Isso é coragem.

Em casa, Inês arrumou o vestido com cuidado no cabide, lavou a cara, deitou-se. E, pela primeira vez em semanas, dormiu sem meia-consciência. Dormiu funda e descansada até às nove.

O que se seguiu foi lento e inevitável, como derretimento de gelo mijado pela primavera. Não logo, não no dia seguinte, mas nas duas semanas seguintes ao jantar. Foi sabendo aos bocados: pela Tatiana, que ouvia umas coisas de conhecidos, pela Catarina, que viu uma mensagem no telemóvel do pai enquanto carregava na cozinha.

O Jorge Moreira recusou assinar um contrato de obra nova. Não enfrentou, nem fez escândalo era velho lobo, sabia recuar sem falhar. Só telefonou ao Victor a dizer que precisava pensar. Para o Jorge, família era coisa sagrada. O que viu naquela noite acabou-lhe com o respeito pelo Victor Magalhães. Não era por ter amante homens têm amantes. Mas trazê-la à festa oficial em vez da esposa era falta de respeito. Ao lar, à ordem das coisas. Jorge, desses, não perdoava.

Vieram outros. Na empresa, o conselho de administração pediu contas. Afinal, nos últimos tempos, alguns contratos tinham andado de lado. Isso já não era só sobre vestidos e Leninhas.

A Leninha sumiu-se da Pedra Angular três semanas depois do jantar. Sem escândalo pediu baixa, desapareceu. O Victor andou uns dias com ar de quem levou com uma marretada.

Até que um dia foi a casa e sentou-se à mesa. Inês pôs-lhe o prato e saiu para outro quarto. Ouviu os suspiros dele.

À noite, chamou-a.

Inês. Precisamos conversar.

Precisamos, disse ela. Mas primeiro diz: vens falar ou vens que eu te ouça?

Ao início, não percebeu a diferença. Depois sim. Baixou os olhos.

Desculpa, murmurou.

Inês ficou. As mãos calmas no colo. Não tremiam mais. Pensou: demasiado tarde. Não por raiva, mas porque o perdão precisa de algo vivo, e entre eles já só havia cinza.

Pronto, disse. Estou a ouvir.

Não era perdão. Ele percebeu.

Foi ela que, passado um mês, iniciou a conversa do divórcio, já com advogada escolhida pela Tatiana. A casa foi dividida, os filhos ficaram com Inês. O Victor aceitou sem protestos provavelmente a única coisa que aceitou.

Enquanto corriam papéis, Inês abriu um atelier. Duas salinhas na rua do lado. Hesitou entre uma padaria e a alfaiataria. Mas as mãos lembravam-se da agulha, da tesoura. A D. Isaura, a antiga mestra, já reformada, atendeu logo o telefone: Inês, devias ter feito isto há dez anos.

Soube-lhe bem. Só era pena não ter feito há mais tempo.

Os inícios foram duros. O dinheiro curto, as clientes poucas, o trabalho cansativo. Chegava a casa com as costas em protestos e poeira de giz nas unhas. A Catarina às vezes aparecia, fazia trabalhos de casa na mesa do canto, mordiscava sandes e opinava sobre tecidos. Revelou olho para cores e padrões, coisa nada habitual em adolescentes. Inês tomava nota mental, a dar tempo.

O Manuel, por seu lado, digeria tudo à sua maneira. O Victor tentava vê-lo, ligava, sugeria encontros. Iam, voltava calado. Uma noite, comenta:

Ele quer que eu o compreenda.

E tu?

Não sei como se compreende alguém que tem vergonha da própria mulher. Mãe, tu nunca tu sempre foste normal. Sempre foste simpática.

Obrigada, filho.

A sério.

Silêncio.

Eu e a Patrícia estamos mal. Disse do nada. Diz que não sabe se, depois disto, eu algum dia vou saber ser bom pai. Tem medo de que tudo se repita.

Não é o teu ciclo, Manuel.

Eu sei. Mas ela não sabe.

Inês pensou, procurando frase certa.

Dá-lhe tempo. Só mesmo vendo, não é com palavras.

Ele acenou, pouco convencido. Era namoro dos resistentes; Inês torcia, mas não se metia. Todos merecem espaço.

O atelier cresceu, devagar mas fiel. Um ano depois, já tinha clientes regulares. Ano e meio, começaram os primeiros pedidos de vestidos de noiva trabalhos pagos, difíceis, apreciados. Inês contratou uma ajudante, a Leonor nada a ver com a antiga Leninha, mas cheia de jeito e graça própria. Davam-se bem, entendimentos mudos de artesã.

A Tatiana dava lá um salto a chá, entre tecidos e linhas, falavam do que importa depois dos cinquenta: filhos, saúde, o essencial. Um dia a Tatiana diz:

Sabes o que admiro em ti? Não tens raiva.

Tenho às vezes, confessou Inês.

Não. Tens zanga, o que é diferente. A raiva destrói, a zanga passa.

Inês ponderou e anuiu.

Aos dezassete, a Catarina decidiu-se: queria ser designer. Não pediu, não fez barulho chegou com uma pasta de desenhos, mostrou à mãe. Inês olhou para cada folha, devagar. Havia ali vida, talento cru, erros, mas visão.

É o teu caminho.

Não te importas?

Não. Tu sabes isso melhor do que eu.

A Catarina sorriu, contida mas genuína.

Mãe, tu mudaste.

Mudei?

Antes perguntavas: O que é que o pai vai achar? O que vão dizer? Agora já não.

Inês olhou a filha.

Aprendi tarde, filha.

Não tarde de mais, recolheu a pasta. Tu estás bem.

O melhor elogio dos últimos tempos. Melhor até que elogios. Só estás bem, de quem vê sem filtros.

O Victor via-se pouco. Ia buscar os filhos, trazia coisas. Às vezes parecia ainda inteiro, outras vezes já menos. Inês ouviu por conhecidos que a Pedra Angular mudara de chefe e que ele agora ocupava lugar intermédio, algo tipo supervisor de obras. Era, sem dúvida, uma queda. Mas Inês não se demorava nisso. Ela já tinha vida própria.

O verão do terceiro ano após o divórcio foi bom: quente, longo. O atelier mudou para uma loja maior, três costureiras. Inês passava serões na varanda do novo apartamento alugado só para si, outro passo difícil mas merecido ia bebendo chá, vendo o céu laranja à noite. Nem sempre muito trabalho , mas quando parava dava por si bem. Não é aquela felicidade de novela, é só estar bem. Tranquila, cansada, mas bem.

Nesse outono, ele apareceu.

Viu-o da janela do atelier. Estava parado à porta, hesitante. Tinha envelhecido. Não tanto em anos, mas naquela falta de confiança de quem já não se sente dono do mundo. Os ombros caídos, o fato bom, mas ultrapassado.

Foi ela que saiu.

Victor, entra.

Sentaram-se na sala de reuniões uma mesa, duas cadeiras, vaso de flores secas. Inês fez chá, serviu-lhe.

Como estás? perguntou ele.

Estou bem, respondeu. Tenho muito trabalho. A coisa está a andar.

Ouvi dizer. Fitou-a. És uma lutadora.

Ela não disse nada. Só segurou na chávena com as duas mãos, gesto eterno.

Inês. Pausa. Queria dizer andei a pensar.

Pensaste, ecoou ela, sem perguntar.

Fui injusto. Em muita coisa. Só fui percebendo agora.

Victor.

Espera. Olhou-a. Preciso mesmo dizer isto. Tu foste uma excelente mulher. Sempre o lar impecável, filhos bem criados. Eu não valorizava. Ou pensava que era garantido. Que era normal. Pausa longa. Errei.

Ela ficou a olhá-lo um homem já não novo, já cansado, no qual ainda via o Victor do início, o que a chamou de senhora, o que ficou sem fala quando a Leninha foi embora. Eram todos o mesmo homem sabia-o agora.

Ouço o que dizes.

Pensei titubeou. Enfim, não interessa.

Diz.

Pensei talvez, não para começar do zero mas, podíamos talvez voltar a conviver. A conversar. Estou sozinho, Inês. Mesmo sozinho.

Silêncio.

Inês pousou a chávena. Espiou a rua: céu cinzento, folhas no chão, uma bicicleta presa ao poste. Depois olhou-o.

Victor, não guardo raiva. A sério. Passou. Lamento pelos anos não por ti, pelos anos. Por terem sido assim e não diferentes. Só isso.

Inês

Deixa-me acabar. Macio mas firme. Não estás sozinho. Tens filhos. Vão a ti, sabes disso. Não deixaram de ser teus. Pausa. Mas eu não sou o que procuras. Nem sei o que procuras. Companhia? Hábito? Só não querer estar só? Não sei. Mas não posso ser isso.

Porquê?

Pensou. Não para magoar, procurava só a verdade.

Porque finalmente sou eu. Levei tempo demais. Não quero regressar.

Ele demorou. Olhou o chá, já frio. Depois assentiu.

Percebo.

Sei que sim.

Os filhos

Isso é teu, Victor. Agora são contigo. Vai ter com eles. O Manuel não foi fácil, mas ele está aberto. Só tens de te dar por inteiro.

Ele levantou-se. Endireitou o casaco gesto conhecido. Tantos anos a vê-lo.

O vestido fica-te bem, comentou de repente.

Ela baixou os olhos. Trazia outro. Azul-escuro, gola simples, feito por ela no inverno.

Obrigada, respondeu.

Ele saiu. Ela ouviu a porta do atelier a fechar-se. Depois, silêncio.

Inês ficou ainda um pouco. A sala silenciosa, quase fria; as flores secas no vaso, chá frio nas chávenas, os esboços à beira da mesa.

Levantou-se, levou a chávena à pia, passou por água. Voltou para a mesa, agarrou no lápis e inclinou-se sobre o desenho.

A Leonor espreitou à porta.

Dona Inês, a próxima cliente já aqui está.

Está bem. Peça-lhe um minutinho, se faz favor.

A Leonor acenou e fechou a porta.

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