Reformando-se com dificuldade, Dona Graça Rosalina, que toda a vizinhança chamava só de Graça, soltou um suspiro profundo e virou-se para o outro lado da cama. As articulações pareciam uma banda desafinada, os tornozelos mais inchados que sonhos de padaria. Estava farta de médicos, de exames, de receitas e, sinceramente… daquilo tudo que dá trabalho envelhecer.
Sempre sozinha, nunca casou. Teve o filho há séculos, fruto de um grande amor de juventude. E eis que a campainha toca, trazendo junto o suspense: será a morte ou o cartero? Não, era o filho com a nora. E, pendurado na mão deles, Miguelzinho quatro anos, peluches nos dedos a apertar uma miniatura de um autocarro. E, claro, um canídeo avantajado.
Mãe, só um instante. Estamos de partida. O Manel e o Almôndega ficam por tua conta. Damos um salto, cinco dias e já cá estamos, anunciou o filho, Gonçalo.
Ai meu Deus Eu estou de cama, mal me mexo conseguiu balbuciar Dona Graça, empoleirada na ombreira da porta.
Não é por mal, sogra, mas seria tortura arrastar o miúdo e o cão até ao Porto. O meu sogro, Deus o tenha, já partiu há anos Agora foi-se a minha mãe suspirou a nora, Daniela, em forma de lamento português.
Nestas alturas, não é só criança que chora; até o cão parecia suspirar meio em modo fado triste. E Dona Graça pensou: “Bem, ou desenrasco isto ou faço o que, deito-me à cova já?”.
A doença chegara de mansinho há seis meses. Dona Graça tinha acabado de completar 60, mas sentia-se parte do panelinho dos idosos de bengala. A saúde, tal como o tempo em Lisboa, ora está ora já se foi.
Nunca se esqueceu que a sogra da sua nora, Dona Irene, estava gravemente doente. O sogro, seu Ivan, partira cedo. Agora restava a senhora, que de um dia para o outro foi à terra dos pés juntos, como se diz no Alentejo. E ainda era mais nova que ela!
Gonçalo e Daniela lá seguiram viagem, e Graça ficou, ela, o neto e o canito à sua mercê.
O pequeno Miguel abraçava aquela coisa enorme, enquanto o cão mais lambia do que respirava.
Miguel… E ele morde? Porque é tão assustador? Não levavam ao menos um caniche? Que espécie é esta? questionou a avó, sufocada já de antecipação.
É um Bulldog inglês, avó! E é um querido! Chama-se Almôndega! explicou o neto, com o ar de quem já é entendido.
E… Tenho de o levar à rua? dava-lhe uma coisinha má só de pensar.
Ela, com gatos (e desses já só restavam memórias de antigamente), nunca se alinhou em cães. Era virgem na arte da chasete e do biscoito.
O coração dela ainda doía pela sogra da nora, partida cedo demais. Mas Dona Graça tinha sérias dúvidas de como dar conta de um miúdo levado da breca e ainda por cima um cão maior que meio bairro.
Tem de alimentar! Ele gosta de carne, arroz e ração. Vá, avó! Rua! Já está na hora! ordenou Miguel com a autonomia de um general de quatro anos, a calçar as botinhas de borracha.
Quando deu por si, estava na rua, nem sabia bem com que roupa. O neto meteu-lhe a trela do Almôndega na mão e lá foram ele a puxar por ela, ela quase a rezar.
A última vez que pôs o nariz na rua já tinha mais de uma semana. Mas agora saiu. Com dor, com vontade de chorar, orando baixinho ao Santo António para lhe dar forças. Afinal, ninguém ali para ajudar, só ela, o neto e o cão.
O Almôndega portava-se como um lord. A passear, nem um puxão, nem um latido para os cães vizinhos.
Dona Graça começou até a sentir orgulho ao passar à beira das comadres no banco, todas a tagarelar como de costume.
Então? Andas a criar hóspedes? Não eras tu que estavas toda de doença? E agora com puto e com esse bicho? Ainda te vais abaixo de vez! E tu, miúdo, que vens tu cá fazer? Não tens pena desta tua avó quase no fim do prazo? E esse cãozarrão, nem nos teus pais há juízo! gritou Dona Zé do quinto andar.
Miguel encolheu o braço. E até o Bulldog Almôndega abanou a cabeça, reprovando a coscuvilhice típica.
Ai, veja lá! Vocês por aqui não recebem netos, morrem de inveja! Pedi para trazerem o Miguel! E não estou doente, que disparate! E este cão é de raça, sabia? Campeão em exposições, olha! Mais respeito!
Se abrirem essa boca outra vez em frente ao menino, arranjo-lhe uso! E o meu filho foi acompanhar a sogra ao último descanso, não foi fazer férias, se a senhora quer saber! desabafou Dona Graça, marchando toda emproada, até se esqueceu das dores nas articulações.
Não ligues, Miguel! A avó está sempre feliz por ter-te aqui! sussurrou, já no elevador, abraçando o netinho.
Avó tu não vais voar para o céu, pois não? Como avó Irene? O pai e a mãe disseram que ela foi para lá. Só tenho o avô e ela E mais ninguém. Não me deixes, avó Gosto tanto de ti! choramingou o Miguel, a enterrar-se nos joelhos dela.
Que disparate, filho! Não vou para lado nenhum! Ainda vais fartar-te de mim! Vou levar-te à escola, ao liceu, até à tropa se for preciso! prometeu Dona Graça com mais coragem que força nos ossos.
Mesmo esgotada, arranjou o jantar, foi às compras como pôde. Ao cair da noite, passeou o Almôndega, sempre um cavalheiro. Quando todos dormiam, foi tomar o comprimidinho da praxe: doía tudo, parecia que cavara uma fundação para a Ponte 25 de Abril. Mas Graça sabia: agora só podia esperar por si mesma para resolver as coisas. E lembrava-se bem das palavras do Miguel. Do medo dele. Quem cuidaria dele, se ela caísse?
Senhor, por favor, ajuda-me. Alivia um bocadinho a dor. Não peço por mim, é pelo Miguel! sussurrou Dona Graça, como quem faz promessa.
No dia seguinte, estavam de quatro a brincar com carrinhos. E, quem diria, a avó até já rastejava no tapete! Juntos fizeram sopa e até deram banho ao Almôndega, depois de uma aventura nas poças da primavera.
De repente, numa onda de ternura, Dona Graça afagou o cão.
Porque é que achei que tu eras tão medonho? És uma maravilha, um génio de cão! ria-se, enquanto o limpava.
Miguel, porque lhe deram este nome? perguntou curiosa, enquanto o pequeno sorria.
Porque ele adora almôndegas, avó! soltava gargalhadas o neto. Mas o nome dele mesmo começa por “A”, só que Almôndega é mais giro!
Os dias passaram a correr! Houve histórias lidas, vídeos no tablet mostrados pelo Miguel à avó (com todo o jeitinho de quem ensina). Até aprenderam letras e o miúdo já compunha palavras. O Almôndega, esse, só pedia soneca, gelado ou queijo, campeão de pedir.
Mãe, estás bem? Desculpa, não tínhamos alternativa. Vamos demorar mais uns dias… Como é que consegues lidar com o Miguel e o cão? perguntou o Gonçalo por videochamada, já em tom de fado.
Estou ótima! Que remédio! Uma pessoa adapta-se! Fiquem lá onde precisam. Dá força à Daniela, está a precisar. Não te preocupes com a minha saúde. Estamos todos a envelhecer vai-se vivendo! respondeu Dona Graça em modo guerreira fadista.
Quando Gonçalo e Daniela estavam a chegar, imaginavam tragédias: Dona Graça cansada, Miguel e Almôndega, como teriam sobrevivido?
Gonçalo, olha! Aquela senhora a correr… Não será a tua mãe? Daniela espantada.
Pois é. Incrível… Gonçalo não queria acreditar nos olhos.
No meio do jardim, Dona Graça quase corria atrás da bola, desastrada e alegre como há quarenta anos não se lembrava da última vez que tinha corridinho. Atrás, Miguel e Almôndega, aos saltos.
Na hora de se separar, o pequeno agarrou-se à avó e abriu o berreiro.
Miguelinho! Daqui a duas semanas a avó vai a tua casa! Vamos ao café, ver os cavalinhos do carrossel! Espera por mim! agora já a pegar-lhe ao colo, braços que nem o bule aguentavam antes.
Mãe! Estás doida? Ele é pesado! protestou Gonçalo.
Aguento tudo! Espera por mim, Miguel! Vai correr tudo bem! Adeus, Almôndega! Avó vem visitar-te em breve. ria-se Dona Graça, alma rejuvenescida.
Pois, é a minha vizinha e contou-me isto. Custava-lhe andar, dores e mais dores, que nem imaginar! E agora? Anda por aí, mulher nova! E todos os vizinhos ainda se espantam.
Fui curada pelo Miguel e pelo Almôndega! As dores? Alguma fica, mas não é nada. Não é para ficar de cama! Quanto mais te queixas, pior! Não são só os remédios que fazem milagres. É o amor. Imaginei o que seria destes dois sem mim? Tive de levantar-me! Estou-lhes cá a fazer falta!
Há sempre motivo para acordar, para andar, seja com dores ou sem. Por causa dos netos, dos filhos, maridos, dos animais, dos gatos ou cães! Eles precisam de nós! Reza a Deus, ganha coragem. Nada é impossível a quem insiste. O corpo tem reservas invisíveis!
E saboreiem cada dia, por amor de Deus! Aproveitem a vida! aconselha Dona Graça, sempre sorridente.
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