A Porta

Porta

Hoje dei por mim parado diante de uma porta e, sinceramente, nem sei bem como vim aqui parar. Engraçado, perdi-me em pensamentos e, quase sem dar conta, as pernas trouxeram-me ao vão da entrada do velho prédio onde vivi com a Olívia tanto tempo vinte e cinco anos juntos não é coisa pouca. Agora cá estou eu, na frente desta porta que, à primeira vista, não tem nada de especial: igual a tantas outras neste prédio antigo de Lisboa.

Recordo o revestimento a imitar couro escuro, apertado em losangos por pinos de latão. Só um dos pinos era diferente, prateado e fora do conjunto. Lembro-me perfeitamente quando, há uns quinze anos, um dos pinos originais desapareceu e o estofado ficou feio, inchado para fora. Fui eu mesmo que remendei como pude; desde então, no meio das cabeças douradas e certas, brilha aquela impropéria estrela prateada. E fico aqui a olhar para ela, a sentir toda uma vida refletida naquele pequeno brilho.

***

A mudança veio há mais de um ano, precisamente quando pensei estar finalmente pronto para ela. O emprego, calmo e seguro, o casamento já rotineiro, cada coisa em seu lugar, mas faltava cor, faltava alma, faltava vida. Sentia-me como um homem atolado num pântano quente, sem forças para sair, sempre à procura de um galho a que me agarrar para respirar verdadeiramente.

E esse galho acabou por ser a minha secretária, Filomena. Jovem, bonita, irrompeu pela minha vida adentro como uma festa, com o seu perfume caro, gargalhadas vivas, o som de música sempre nos fones, e o sabor do prosecco na boca inquieta. Apaixonei-me, como me apaixonara, em tempos idos, por Olívia mas aquele sentimento antigo agora parecia pálido, abafado, quando comparado ao turbilhão insaciável que Filomena me oferecia.

Olívia, sensível e tão atenta, sentiu logo que alguma coisa mudava. Ficou mais calada, os olhos a procurar os meus, como esperando uma resposta impossível a pergunta atemporal de todas as mulheres.

O romance com Filomena cresceu sem freios; sentia-me rejuvenescido, desejado, finalmente vivo. Entreguei-me completamente, tempo, dinheiro, tudo. E ainda assim não conseguia abandonar o conforto da minha família o hábito arrastava-me sempre para casa no fim da noite, à procura dos croquetes de carne feitos pela Olívia, depois das ostras e vinhos caros dos restaurantes de moda.

Ninguém saberia até quando aquilo duraria. Tudo foi interrompido quando Filomena cansou de ser a outra e decidiu vir falar com Olívia. Em casa estavam Olívia e o nosso filho, Tomás, já na universidade. Ouviram, em silêncio, o discurso seguro de Filomena; Olívia com as mãos a tremer à procura das gotas para o coração, o Tomás, sem dizer uma palavra, enfiou as minhas coisas numa mala e escancarou a porta para que ambos saíssemos.

***

Começou ali, à força, uma vida nova. Era tudo vertiginoso: convívios, jantares, lojas, festas. Eu via tudo desfilar em ritmo frenético e, a certa altura, percebi-me cansado, incapaz de seguir o compasso. Admitir isso a mim próprio foi ainda mais difícil.

Resolvi, então, fazer uma pausa literalmente. Fiquei em casa, sentei-me na poltrona a tentar absorver quem era eu agora naquele novo mundo. O que vi, ao princípio, surpreendeu-me; depois, comecei até a irritar-me. Filomena, linda e cheia de manias, não sabia fazer nada: nem cozinhar, nem organizar nada, nem trocar um lençol.

Mas o pior nem era esse. Com ela não havia conversa possível. Todo o seu mundo eram notas a tilintar, embrulhos de lojas caras, seguidores nas redes e conversas fúteis. Tentei, no início, passar-lhe algum saber, algum interesse pelos miúdos, pela vida de verdade mas logo me dei conta de que qualquer esforço de raciocínio lhe causava mais dor do que prazer. Desisti.

Resignei-me a beber à noite chá mal feito, de saco e água quase fria, sempre servido por ela, e a sonhar com os chás de camomila e alecrim que Olívia preparava, o aroma a encher a casa. Que saudades dos bolinhos de bacalhau, do arroz de pato, das discussões animadas sobre livros ou sobre um filme do Manoel de Oliveira isso sim era vida rica.

Houve um dia em que quase bati à porta da antiga casa. Não era para voltar ou talvez fosse. Nem eu conseguia explicar. Bati tarde, ninguém abriu. Pela porta ouvia-se o choro abafado de Olívia; vi-me forçado a voltar para trás e sentei-me no jardim do prédio, de olhos postos nas janelas já escuras.

O tempo foi passando, e a diferença de idades que sentíamos cada vez mais rasgava um abismo entre mim e Filomena. Começámos a evitar sair juntos, jantávamos separados, cada um por si. E então, numa dessas noites apagadas, dei por mim sem saber como diante da porta do passado.

***

Olhei de novo para aquela pequena estrela prateada, pregada em torto pela minha falta de jeito, a hesitar. Ir embora? Para onde? Já era tão estranho para Filomena como ela era para mim. Voltar? Aceitar-me-iam? Perdoar-me-iam?

Toquei no pino, frio de metal, e senti a porta ceder facilmente. De dentro veio um cheiro inconfundível, o aroma apaziguador da minha casa. Inspirei fundo, fechei os olhos por um instante. Quando voltei a abrir, Olívia estava no vão da porta da cozinha, sorrindo, com os olhos cheios de rugas da vida. Estou em casa! pensei. Dei um passo em frente e fechei, com cuidado, a porta atrás de mim.

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