A Nora Aguentou a Sogra, Saiba no que Isso Deu: Entre Gémeas, Invejas e uma Sogra Portuguesa de Faze…

Gémeos?! soltou-se involuntariamente de Maria Leonor.

Por mais que tentasse, a sua indignação transpareceu. Inês conhecia demasiado bem a sogra para esperar qualquer ternura. Maria Leonor jamais a aceitara, sempre a achara pouco digna do filho. Ironicamente, quem conhecia o casal comentava até que era o Mário quem talvez não estivesse à altura daquela mulher.

Inês era simpática e instruída, aos vinte e três já tinha terminado a licenciatura em Economia e estava empregada numa conceituada clínica privada em Lisboa. Viera de Santarém, é verdade, mas o pai dirigia uma fábrica local e a mãe era professora na Escola Superior. Jamais se poderia dizer que Inês fosse inculta ou malcriada. Mesmo assim, Maria Leonor via-a como uma rapariga insignificante.

Pronto, parabéns então! Que felicidade em dobro balbuciou Maria Leonor, sem dar sinal de querer fazer parte dessa felicidade.

A gravidez de Inês estava a ser um tormento, com ameaça de aborto e, mais tarde, risco de parto prematuro. A jovem esposa estava constantemente de baixa médica, várias vezes hospitalizada. Mário visitava-a frequentemente, mas a mãe ainda mais próxima morava apenas dois bairros ao lado nunca pôs os pés no hospital.

Nem para ir buscar as netas na maternidade apareceu. Apesar dos telefonemas insistentes de Mário, Maria Leonor não foi a casa deles nos primeiros quarenta dias.

Não se deve! E se levo lá alguma doença?! Não quero responsabilidades! Deixem as meninas ganhar forças primeiro.

As gémeas tinham já três meses quando Inês esbarrou com a sogra à porta do supermercado. Maria Leonor forçou um sorriso e, cerrando os dentes, perguntou:

Então, como estão as meninas?

Inês respondeu com alegria sincera:

Estamos a passear! O carrinho é um trambolho, mas não há volta a dar Ar puro é preciso!

Maria Leonor ia já virar costas quando avistou uma antiga amiga. Dona Graça vinha apressada, de braços no ar.

Oh Maria! Olá! Que maravilha, são estas as tuas netas?

Sim, Graça São o meu tesouro

Inês cumprimentou humildemente Dona Graça, que se desfez em elogios.

Ai, duas ao mesmo tempo! Inês, como aguenta o ritmo? Tão franzina!

A Inês é uma heroína apressou-se Maria Leonor, sorridente.

Inês quase não reconhecia a sogra, que de repente se transfigurava em avó dedicada, quando por pouco não fugira das crianças minutos antes.

Graça e Maria Leonor desataram a conversa. Inês percebia apenas bocados: “ter gémeas é uma benção”, “a Inês tem-se portado lindamente” e “eu ajudo sempre, claro”. A jovem ouviu mentiras sobre a sua vida que a deixaram sem palavras. Só quando Graça se recordou do banco é que a conversa parou.

Bom, tenho de ir, senão fecho o banco em cima de mim. Fiquem bem, meus amores!

Assim que a amiga se afastou, Maria Leonor perdeu o sorriso de santa. Despediu-se secamente da nora e foi à sua vida.

Nessa noite, Inês contou tudo a Mário. Ele encolheu os ombros.

Inês, essa é a minha mãe. Sempre foi assim. Acredita, quando eu era pequeno, dizia a toda a gente que ficava comigo a estudar até tarde, mas o que ela fazia era ir ver as novelas e nunca mexia no meu caderno. Com a Lena igual, dizia que lhe fazia bem passear ao ar livre, mas eu é que a levava ao jardim Não te consomes!

Inês ouvira estas histórias várias vezes, mas não deixava de ficar intrigada quando elas se confirmavam diante dos seus olhos.

***

O tempo passava e nada mudava no comportamento de Maria Leonor diante dos filhos e netos. Até ao dia em que, saindo do táxi, tropeçou e partiu uma perna. Teve então uma brilhante ideia.

Vou-me instalar em casa de vocês! anunciou aos genros.

Inês e Mário olharam-se, antecipando o caos que aí vinha. Mas ninguém conseguiu recusar.

A vida familiar tornou-se infernal. Moveram-se todos para o quarto das crianças e o maior ficou para Maria Leonor. Passaram a ter uma terceira filha: era preciso cozinhar para ela, limpar-lhe tudo, ajudá-la a tomar banho, e ainda fazer-lhe as compras.

As gémeas tinham dois anos e meio. Inês desejava já regressar ao trabalho, nem que fosse a tempo parcial, e por isso inscreveu as filhas no infantário. As manhãs eram guerra entre choros, discussões, birras do frio, as meninas gritavam, e Mário e Inês tentavam organizar tudo.

Certa manhã, quase a sair com as pequenas, o telemóvel de Mário tocou.

Mãe?! Porque ligas? Estás no quarto ao lado!

Tenho a perna partida, não posso vir aí

Ó mãe, tens canadianas à mão

Cala-te, Mário! Para o que tenho a dizer, posso ficar sentada!

Pronto mãe, então fala

Não aguento este barulho de manhã. Não durmo nada enquanto vocês e as meninas gritam e batem as portas. Já não se pode descansar nesta casa!

Mário ficou ruborizado de fúria. Foi direito à porta e gritou:

Queres tanto dormir? Queres que deixemos as miúdas aqui para tomares conta delas tu?

Maria Leonor calou-se logo. Pouco depois, saiu da casa sem esperar sequer pela alta médica. Mário ficou aliviado; já Inês, pelo contrário, sentiu-se culpada. Não queria hostilidade entre marido e sogra. Mas o que poderia ela fazer mais?

***

As sextas-feiras eram dias diferentes. Inês trabalhava metade do dia, buscava as pequenas ao almoço, iam às compras escolher guloseimas e passavam a tarde a ver desenhos animados. Esta sexta prometia igual. Espalhou almofadas no chão, ligou o projetor, e, de repente, tocou a campainha.

Maria Leonor apareceu à porta, de mão dada com o neto Daniel, filho da filha mais velha, Lena.

Dona Maria Leonor, aconteceu alguma coisa?

A Lena deixou-me o Daniel até à noite, mas eu tenho um compromisso urgente! Fica com ele só uma hora e meia, por favor!

Inês ficou atrapalhada. Daniel pouco mais novo que as gémeas, era um menino calmo. Inês pôs-se de cócoras e sorriu-lhe.

Daniel, ficas comigo um bocadinho?

Ele assentiu timidamente. Quando Inês olhou de novo, Maria Leonor já desaparecia no elevador.

A que horas a esperamos?

Duas horas no máximo!

Nem se despediu da nora nem do neto.

***

Mário chegou pelas sete e, ao ver Daniel sentado à mesa a comer bifes com batatas, ficou surpreendido.

Eh pá, Daniel! Vieste passar o dia connosco? E a tua mãe, Lena?

O rapaz sorriu ao tio, enquanto Inês suspirava, já adivinhando o que vinha aí.

Foi a tua mãe Disse que voltava depressa, mas já passaram quase cinco horas

Mário torceu a cara.

E a Lena?

Nem lhe mandei mensagem. Não quis que a tua mãe ficasse mal vista… Foi ela que ficou responsável.

Mário franziu o sobrolho.

Inês, tu és boa demais. Isto é surreal. A minha mãe nem sequer diz onde vai?

Inês abanou a cabeça. Mário ligou logo à irmã, informando-a de que Daniel estava em casa deles. Lena prometeu que viria apressada.

***

Eram oito e meia. As crianças brincavam no quarto. Inês, Mário e Lena estavam na cozinha.

Acham que ainda vale a pena esperar? As meninas deviam ir dormir

Por uma vez, deixam-se ficar acordadas. A mãe vai ter de ouvir umas verdades disse Mário.

Mal acabou de falar, a campainha tocou. Inês foi abrir.

Pronto, venho buscar o Daniel anunciou Maria Leonor, como se nada fosse.

Inês engoliu em seco. Das costas surgiram logo Lena e Mário.

Mãe, tens mesmo noção do que fazes?

Mas como falam assim à vossa mãe?!

Não mudes de assunto! Deixei-te, a ti, o Daniel! Não à Inês. O que deu em ti?

Maria Leonor soltou uma risada.

Ora, que problema, Lena? Ela tem duas, aguenta-se tão bem… Eu tive que sair, tinha coisas importantes!

Mário deu um passo em frente.

Que assuntos importantes? O que é este descaramento? Ao menos perguntaste à Inês se podia?

Ai, meu Deus! Isso nem se questiona!

Mário insistiu:

Onde estiveste tu hoje?

Foi então que Lena desatou a rir, nervosa.

Aposto que a mamã foi ao cabeleireiro, de manhã tinha o cabelo maior. Depois passou pelo cabeleireiro das unhas, que o verniz esta manhã era vermelho e agora é cor-de-rosa

Maria Leonor enrubesceu, sem resposta possível.

Não tens vergonha nenhuma! repetiu Mário.

Ela ficou em silêncio, sem encarar os filhos.

Pedem-te uma vez por século que tomes conta dos netos e despachas tudo para cima da minha mulher? Se calhar, também lhe apetecia ir arranjar-se, mas nunca tem tempo!

Dessa vez, Maria Leonor ficou lívida e cheia de raiva. Quis pôr todos no lugar.

Ai Mário! Esta tua mulher não tem posição. Veio de Santarém, nunca será ninguém!

Por um momento, instalou-se o silêncio. Depois, um grito irrompeu:

Vai-te embora!

Num gesto decidido, Mário agarrou a mãe pelo braço e expulsou-a do apartamento. Fechou a porta, respirou fundo, olhou à volta e viu Inês lavada em lágrimas. Ele e Lena apressaram-se a confortá-la.

Doía-lhe a alma. Mas, vendo como Maria Leonor também ignorava os próprios netos, ficou claro que o problema nunca fora Inês. Por mais que queira ser boa, para más pessoas talvez nunca sejamos suficientes.

Desde esse dia, a convivência com a sogra praticamente desapareceu. Mário e Lena ainda ajudaram a mãe de vez em quando, mas Maria Leonor tornou-se ausente da família. Ficou amuada uns tempos. Mas acabou, mais tarde, por desejar regressar e fez as pazes, embora nunca se tivesse envolvido com os netos.

Só muito tempo depois, ao espreitar o WhatsApp da sogra, Inês viu uma fotografia dos três netos e a frase: Feliz Dia dos Avós! Só para quem cria mesmo os netos. Inês fez um sorriso amargo, mas à noite, Mário e Lena criticaram a mãe com piadas tão certeiras que, por mais que tentasse, Inês não conseguiu evitar soltar uma gargalhada.

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