A Mulher de Pedra

A Mulher de Pedra

Leônor Dias foi trazida ao hospital de ambulância, recolhida na rua. Caiu mesmo ali, no meio da calçada encharcada pela chuva de Lisboa, fria e escorregadia, e não teve forças de se levantar. Dois homens colocaram cuidadosamente Leônor no veículo, e levaram-na às urgências.

Mulher imponente, de figura robusta, vestindo um fato de calças, botas de salto fino, maquilhagem discreta mas evidente, destacando os olhos amendoados e os lábios carnudos, usando uns brincos pesados de pedras cor de jade, mala de pele nos joelhos assim Leônor entrou, sentada numa cadeira de rodas, recusando ir deitada. Mal recuperou a lucidez, foi logo repreender o motorista da ambulância, dizendo que cheirava fortemente a tabaco, censurou o enfermeiro por ser demasiado lento, e indicou ao estagiário do técnico de emergências para nem lhe pôr a mão.

Nem que me paguem, não quero! resmungou o rapaz, amuado.

Olhe que se me falta ao respeito, menino, a conversa muda já de tom! respondeu Leônor, apoiando-se nos braços da cadeira e acomodando o corpo. Em seguida, recolheu-se como uma coruja carrancuda, puxando a mala para junto do peito, levantou os ombros e lançou um olhar crítico, de inspeção secreta, pelo hospital inteiro, franzindo o sobrolho e unindo as sobrancelhas finas no meio da cara larga, como se esculpida à martelada em granito. A pele, entrecortada de microvasos, estava encoberta por um generoso véu de base que, devido ao suor provocado pela última injeção, se amontoava, acentuando as rugas. Vamos lá, avancem. Aqui está cheio de correntes de ar queixou-se, indicando o corredor de urgências atulhado de gente.

A senhora do balcão lançou-lhe um olhar austero, confiscou os papéis ao enfermeiro e disse que, a partir daí, era com eles e que a equipa da ambulância podia ir embora.

Crise de hipertensão, desmaiou na rua Não bateu com a cabeça Pressão agora arriscou explicar o rapaz de bata azul.

Está bem, Pedro. Vá, despachem-se, já não há espaço para todos! apaziguou-o, com uma palmadinha no ombro, a enfermeira, muito parecida com ele devia ser mesmo a mãe.

Tem de se ajudar a família a arranjar trabalho, pensou Leônor, por puro reflexo. A cabeça latejava num zumbido insuportável, as mãos mal aguentavam o peso da mala, que quase lhe escorregava para o chão. Não teria forças para a recuperar. Estava esgotada. Até falar custava. A língua seca parecia inchada, colada ao céu-da-boca; ansiava por água.

Dêem-me um copo de água, por favor pediu em voz alta e pausada, sem se dirigir a alguém em especial.

Ninguém lhe deu ouvidos. O vaivém era incessante: familiares empurravam macas, amparavam doentes, tentavam animar, interpelavam médicos, exigiam respostas. O pessoal médico, sempre ligeiro, desviava-se de obstáculos, ajeitava estetoscópios ao correr, debatia prontuários a caminho das salas, gritava ordens. As enfermeiras não tinham tempo sequer para olhar para Leônor Dias.

Quem é a Dias? perguntou uma enfermeira (palavra que, já se via, Leônor usaria sempre em tom irónico para designar o pessoal do hospital).

Eu. Sou eu respondeu Leônor primeiro em tom baixo, depois mais firme. Sou eu!

Aqui tem o frasquinho, casa de banho ali, depois tem de tirar sangue. Tire essa touca, isto não é o Pólo Norte!

Só então Leônor reparou que ainda trazia a boina de lã, lembrando atriz de filme clássico português. Por isso escorria-lhe suor pela testa, queimando o couro cabeludo.

Retirou a boina e enfiou-a na mala. Mala italiana, de pele, já cheia de documentos e papéis Leônor não planeava prolongar a estadia, logo que melhorasse iria logo embora. Não tinha tempo, ela, Leônor Dias, diretora de uma empresa de caixilharias e vidros duplos. O atendimento da Janela Aberta, como se chamava a sua firma, dependia dela.

A enfermeira pousou-lhe o frasco nas pernas.

Mulher grande, volumosa, Leônor sempre o fora: bebé avantajado, criança forte, rapariga de ossatura larga. Ai que ela é tão grande! diziam à mãe de Leônor na consulta de rotina. Ora bolas, calça quê? Quarenta? admiravam-se as vendedoras.

Perto da filha, a mãe parecia uma Maria-pequenina. Eram os genes do pai, um gigante, que adoeceu de cancro e partiu cedo, quando Leônor tinha oito anos.

Leônor sempre teve vergonha do corpo. Parecia um Gulliver na escola, habitava no próprio canto dos recreios, nunca se sentiu inteiramente aceite. Em desporto encontrou algum consolo. Por acaso, uma aventura breve da mãe com o treinador levou Leônor a praticar atletismo: lançamento do disco, do peso. Ali sentiu-se de facto capaz. Viveu algumas desilusões amorosas, confundindo curiosidade com amor, magoou-se, cresceu, enterrou a mãe e construiu uma persona diante de quem todos se calavam e admiravam.

Começou a trabalhar nos serviços municipais, chefiando pequenas equipas; depois estudou, veio a modernidade, as pequenas empresas proliferaram Leônor adaptou-se depressa ao dinamismo dos negócios. Fortíssima, fria, pouco dada a festas, preferia comandar do que pertencer ao rebanho.

Mulher de pedra, cochichavam.

Mais tarde criou a sua empresa, Janela Aberta. Tornou-se especialista, ganhou respeito. Não era afetuosa com os funcionários, mas todos reconheciam nela uma muralha. Era direta, decidida, sempre com o futuro em mente. Se tinha de dispensar alguém, já procurava alternativa para dar apoio. Nunca deixava ninguém ao relento.

Ditadora? Talvez antes um comboio veloz a toda a força numa linha férrea, imparável e sem tempo para sentimentalismos. E, atrás desse comboio, levava o seu único vagão o filho Martim. Por ele fazia qualquer coisa.

Ao redor de Leônor firmou-se um núcleo leal, uma carapaça que a apoiava absorvendo os trambolhões do setor.

Enquanto Leônor descansa precariamente no hospital, torce para que não se percam negócios importantes nas suas costas.

Isto agora o quê? Recuso! atirou o frasco de análises ao chão. Estou com a pressão nas alturas, têm de me deitar. Leiam a ficha, se fazem favor.

Não levante a voz, minha linda! exclamou um homem de aparência desalinhada, com ligadura na cabeça, sentado num banco. Agarrou o frasco caído, rodando-o entre os dedos. Se quiser, faço eu isso, mas tem de me dar a boina em troca! Estas mulheres grandes são mesmo o meu tipo!

Olhe, preocupe-se consigo! disparou Leônor, empurrando a cadeira para o lado oposto. O apoio bateu seco na parede, deixando dois vincos no reboco.

Senhora! Está a danificar a parede, acabámos de pintar! protestou uma empregada com crachá. Maria, e esta aqui, de quem é? Para onde vai?

Não sou de ninguém. Sou minha. E estou de saída. Digam-me a morada para chamar um táxi.

Não vá, sente-se. Já vem o médico, depois pode repousar interveio a mesma mulher que antes lhe parecia antipática.

Mas Leônor já ligava alguém.

Martim? Elisa, chama o teu marido, passa-me o Martim disse em tom firme, através do telemóvel. Sim, é urgente. Estou no hospital e tenho compromissos inadiáveis amanhã. Preciso dele cá.

Não mandava, apenas era concisa e clara, evidenciando a gravidade de tudo. Depois pedia o que precisava.

Elisa, a nora de Leônor, vai bater à porta da casa de banho. O marido ouve, grita:

A minha mãe? Hospitalizada? Espera, já saio!

Claro que ouviu tudo à primeira. Mas, visto que a mãe ligou, é porque está consciente e sabe o que faz pode esperar dez minutos.

Martim, em miúdo, passava os dias à espera da mãe chegar.

Leônor tinha sempre trabalho, mais tarde chamado de negócio graças ao qual mudaram para outro apartamento, e Martim estudou em boas escolas. A mãe trocou janelas na escola do filho, ofereceu sempre uma mão a quem precisava, organizava tudo obras, compras, festas. Apenas Martim parecia estar sempre à parte, como peixinho num aquário ignorado.

Leônor não batia no filho, não gritava. Chegava a casa, verificava os apontamentos, corrigia com lápis, dizia para repetir. Até estar perfeito. E explicava, numa linguagem seca e objetiva, a necessidade de se esforçar.

Mas nunca nunca lhe dizia que o amava. Nunca sussurrou, antes de dormir, que Martim era o melhor, o mais bonito, o mais querido. Ficava-se pelo silêncio.

A minha mãe não gosta de mim. É tudo obrigação. Decidiu Martim, já crescido. Sim, graças a ela teve acesso a boas oportunidades; mas era seu dever. Se decidiu ter um filho, que o criasse ele não pediu para nascer. E o hospital? Bah, vai sobreviver.

Leônor escutou Elisa a dizer que Martim ligaria mais tarde.

Leônor, o que tens? Posso ajudar? perguntou Elisa.

Leônor nem respondeu, desligou. Agora podia declarar ao hospital, com todas as letras, que não era de ninguém. Era só sua. O filho ligaria se lhe apetecesse; a nora mastigava chiclete e parecia temer que a sogra viesse agora a ficar dependente. Melhor assim. Ninguém. Mais fácil.

Tentou levantar-se, amparando-se na parede. A cadeira fugiu-lhe, estatelou-se pesada no chão. O frasquinho rebolou pelo mosaico, a mala caiu, a boina de pele ficou sob o rosto de Leônor, como almofada.

Raios partam gritou o homem desalinhado, atirando-se a ajudá-la a levantar. Enquanto o fazia, aproveitou e escorregou o porta-moedas de Leônor para o bolso, e retirou-lhe discretamente o anel de ouro do dedo.

Este homem lembrava-lhe vagamente alguém Mas não conseguia identificar.

Não sentia nada, só ouvia ao longe uma voz monótona: Mantenha-se à direita, mantenha-se à direita

Leônor costumava ir de carro para o escritório. Não conduzia, não gostava de prestar atenção à estrada, preferia resolver assuntos, ler papéis ou simplesmente observar a cidade da janela. O seu motorista, Manuel Garcia, apanhava-a todos os dias às sete e meia, abria-lhe a porta, ajeitava-lhe o sobretudo, ligava o rádio na Antena 2. Já era assim há anos. Manuel aproveitava os benefícios: medicamentos para a esposa, compras, prémios, ajudas. De noite, se fosse preciso, voava para o aeroporto, para que Leônor resolvesse problemas em Braga ou no Porto.

Mas hoje, Manuel ficou preso quando o camião do lixo arrebentou o para-choques do carro à saída do prédio.

Leônor, chame antes o táxi! lamentava Manuel.

Não preciso. Vou de metro decidiu, mesmo sentindo-se estranhamente indisposta. Sentira medo, mas não cedia a pequenos sustos há sempre dinheiro que resolve esses problemas. Fica aí, depois trata dos papéis.

E lá foi, volumosa, quase como nuvem cinzenta pelas ruas de Lisboa, rumo ao metro. Os passantes abriam-lhe passagem; havia nela qualquer coisa de estátua, de figura lendária.

No metro, o ambiente era abafado, as multidões moviam-se em fluxo constante. Mantenha-se à direita, anunciou o altifalante na estação da Baixa-Chiado. Todos, incluindo Leônor, se mantinham. O dia começava e acabava para todos

Mais tarde, depois de medições, exames, picadas, sensores, foi finalmente deixada numa enfermaria, já exausta. Ali, escutava apenas a voz: Aguenta, aguenta

A enfermaria cheira a perfume, remédios, até a bolachas de baunilha. Leônor gosta, raramente come.

Era no terceiro piso, sem vista para a Avenida principal sempre repleta de carros, como um rio de luzes que mal davam tempo ao Natal.

Leônor recordou quando comprou uma dessas luzes para a árvore, num quiosque do Chiado. Nessa noite, passou pelo infantário para buscar o Martim. O filho, sozinho, limpava as lágrimas à manga do casaco vermelho com riscas prateadas, fingindo-se indiferente para provocar a mãe.

Que trazes na caixa? perguntou enquanto caminhavam.

Uma coisa linda! Uma grinalda de luzes. Para a nossa árvore ficar mesmo bonita! a voz de Leônor, insolitamente doce, surpreendeu o filho.

Todo o caminho, Martim sonhou com as luzes a brilhar nos ramos frágeis da humilde árvore artificial. Irá contar a todos!

Mas quando chegaram a casa, as luzes não acenderam. Sem uma palavra, a mãe enrolou o fio e guardou tudo na caixa.

Vamos jantar. Ainda tenho roupa para passar. Só isso.

Dois dias depois, trouxe a mesma grinalda, já reparada pelos colegas do trabalho. Mas Martim, entretanto, ficou doente e não contou a ninguém.

Agora, era como se alguém, lá fora, tivesse pendurado uma grinalda eléctrica sobre a cidade, os corações ligados pelas luzes, e a lâmpada de Leônor tivesse fundido.

A porta abriu-se; surgiu uma enfermeira pequena, de bata rosa.

Não abra os olhos, vou tirar-lhe a maquilhagem pediu, baixinho.

A médica limpou delicadamente o rosto de Leônor com algodão molhado.

Soube-lhe bem. Tão bem que Leônor se sentiu criança, ouvindo a mãe.

A mãe, fazia anos com a terra, mas Leônor visitava a campa, mandava arranjar a lápide, plantava sementes de miosótis. Não sabia se vingariam, mas era gesto de filha.

A mãe, quando Leônor adoecia, limpava-lhe o rosto com uma toalha suave, cheirando a sabão. Agora, reconfortada por aquela enfermeira, quase sentida, recusava:

Não é preciso, eu lavo-me. Não se incomode.

Descanse. Tem de recuperar. Aqui Pronto, olhos limpos, agora o cabelo. Deixe

A enfermeira soltou o cabelo de Leônor dos ganchos.

Eu pago balbuciou Leônor. O porte-moedas

Mas não encontrou o dinheiro.

Chorou.

Foi a segunda vez que a roubaram. Da primeira, no metro do Marquês de Pombal, um homem estranho aproximou-se demasiado, ela nem deu conta. Só depois, ao comprar o jornal, viu a carteira cortada, perdeu a foto de Martim, a moeda de um cêntimo que lhe deram, a lista das compras. Sentou-se num banco e chorou, enorme e desamparada.

Que pena sussurrava. Nem era pelo dinheiro, era pela mala, a primeira importante.

Agora, de novo a dor. Devia ter sido o homem das urgências.

Não se preocupe. Deite-se, vou buscar-lhe o esfigmomanómetro. Calma

A enfermeira saiu, voltou, ajustou o aparelho ao braço de Leônor, que enfim adormeceu num torpor doce.

Martim, ao sair do banho, já se esquecera da mãe. Elisa telefonava, mas Leônor não atendia.

Algo se passou, Martim. Liga-lhe para o trabalho insistia a mulher.

Ela resolve sempre tudo. Deve ter até cama reservada na UCI e ambulância privada. Esquece, Elisa.

Encolhendo os ombros, afundou-se no sofá, focado no televisor de ecrã gigante. Viam futebol, e Martim, satisfeito, batia com os pés debaixo da mesa.

A televisão foi oferecida pela mãe, que luxo! comentou, sorvendo cerveja.

Elisa, resignada, entrou no quarto, discou novamente para a sogra.

Nunca houve cumplicidade entre elas, mas também não havia hostilidade. Leônor expressava afeto através de gestos concretos, não palavras: trocava janelas, fazia obras, oferecia produtos do melhor, pagava ginásio à nora por problemas na coluna. Elisa resistiu, depois compreendeu não adianta recusar favores, só resta agradecer e, quem sabe, retribuir um dia.

Assim amava Leônor Dias: com ações. Para o filho, brinquedos, equipamentos, férias, tudo. Nunca férias juntos, claro, mas ia às visitas do campo de férias. Se era preciso, entrava no colégio para reparar a caldeira, tratava tudo com os seus contactos de mestre, nem ligava a ser a própria a orientar trabalhadores ou a discutir com os operários.

Quando Martim decidiu casar, Leônor ficou perdida. Casamento em restaurante que Martim nunca poderia pagar. O vestido de Elisa foi exatamente como ela quis.

Elisa gostaria de se aproximar, mas Leônor era fria, monumental, não deixava.

Mais tarde, já noite, Elisa voltou a tentar. Finalmente alguém atendeu era uma funcionária hospitalar, que lhe recomendou visitar Leônor no horário apropriado do dia seguinte, levando roupa confortável.

Ela está cansada, precisa repousar. Traga-lhe uma camisola, fica frio nas enfermarias.

Elisa agradeceu, tomou apontamentos, preparou a visita.

Martim transferiu-se para o sofá, jogava no portátil. Elisa não queria preocupar a sogra com as ideias de divórcio e manteve silêncio. Pegou nas chaves da casa de Leônor e saiu calmamente.

Leônor acordou cedo, ouviu o brilho das chávenas, tosses, murmúrios.

A Dias, quem é? perguntou uma enfermeira.

Eu respondeu Leônor, tentando fazer um rabo-de-cavalo, sem forças.

Ficou de blusa e calças, a pele a ver-se na gola aberta, a mostrar lingerie bonita, mas difícil de encontrar em tamanho tão grande.

A vizinha de cama fitava-a. Leônor envergonhada, puxou o lençol.

Tirou sangue nem sentiu a picada. Logo o telemóvel começou a tocar.

Desculpe, é do trabalho justificou-se, dirigindo-se para o corredor.

Pedidos, orçamentos, confusão parecia que nem no hospital a deixavam em paz. O tom educado de Leônor não impediu que lhe desligassem na cara.

Leônor murchou, sentiu-se pequena, vulgar.

Deram-lhe a bata e a camisa do hospital. Viu-se ao espelho: maquilhagem borrada, cabelo sujo e desalinhado, três unhas partidas. Mais um motivo para se sentir desconfortável.

Venha à enfermaria, está quase na hora do médico e do pequeno-almoço. A enfermeira da véspera apareceu, pronta para ir para casa. A sua filha ligou, disse que vinha hoje. Elisa, certo?

Não é minha filha, é nora corrigiu Leônor, arrogante, como um rochedo; mas a funcionária insistiu.

Vem, sim. Lembras-te de mim? sussurrou, olhando de baixo para cima. Sou a Catarina. Aquela Catarina Pegas, lembras-te? Estivemos internadas juntas Depois o bebé

Leônor estremeceu. Lembrou-se. Só a Catarina e os médicos sabiam daquele segredo da gravidez indesejada, do desespero, da perda. Catarina fora o ombro, o consolo, a companheira silenciosa.

Catarina é verdade Não te reconheci. Trabalhas aqui?

Sim. E tu, tens um filho? Fico feliz. Tenho duas filhas, sempre aos gritos. Catarina recuou. E marido?

Nunca casei. Quis ter o Martim para ter quem me defendesse mas ele não quer saber de mim. Sempre tive de me defender sozinha.

Catarina ia responder, mas a ronda médica interrompeu-as. Leônor deitou-se, Catarina partiu para casa. Tinha sono.

O pequeno-almoço passou depressa. Leônor começou a adaptar-se. As companheiras de quarto eram calmas, reservadas. A Zina, junto à janela, roía qualquer coisa. Era pão seco de baunilha, adivinhou Leônor.

Gosta mesmo de bolachas de baunilha. Mas isso sem chá faz mal! alertou Leônor.

São os nervos. O meu marido está noutro andar, com AVC Não consigo parar de mastigar.

Vou buscar-lhe chá, aceite.

As funcionárias do refeitório estranharam a figura voluminosa de Leônor em chinelos, segura e decidida, a observar tudo o chão levantado, o equipamento velho, as janelas a precisar de ajuste. Apontando mentalmente que devia trazer ali o seu mestre de obras.

Com a chávena de chá quente na mão, Leônor regressou à enfermaria.

Aqui tem, Zina. Não sei quanto açúcar prefere, mas beba.

Zina agradeceu, sorveu com sofreguidão.

A senhora é mesmo boa pessoa sorriu, apontando para a porta.

Elisa estava ali, de sacos na mão, um ar desastrado com a bata descartável e as botas de proteção.

Olá, chamei-a tantas vezes Desculpe não ter gritado. Vim ver a Leônor Dias disse Elisa, largando os sacos. Zina piscou-lhe o olho, virou-se para comer.

Não era preciso, eu estou bem balbuciou Leônor.

Já que aqui estou, faça-me o favor, vista isto e Elisa começou a retirar pijama, robe e camisola do saco, tudo conforme o gosto de Leônor. E trouxe chá, bolachas, café, tudo o que gosta!

Leônor ficou imponente, trémula, a franja desalinhada. Uma montanha de mulher, com um coração em erupção.

Ó Leônor, vá, levante-se e vista a roupa que lhe trouxe. Eu vou falar com o médico.

A jovem saiu a correr. Leônor olhou a sua cama, a roupa, o pijama. Sentiu que a vida aos poucos se colava de novo, deixando de ser feita de cacos mas aprendera a caminhar sobre eles.

Nunca deixava ninguém aproximar-se, nem a nora mas Elisa veio, preocupou-se. Será por interesse? Talvez. Mas soube-lhe bem.

Martim ligou duas vezes, mas Leônor não respondeu. Não sabia ainda o que dizer.

Elisa regressou, sentou-se, mexendo no anel de casada. Ainda não iria pedir o divórcio, não queria preocupar a sogra.

À noite, Leônor chorou, virada para a parede, sem saber porquê.

No dia seguinte, devolveram-lhe o porta-moedas e o anel roubados.

Quem ficou com as suas coisas foi aquele homem das urgências. informaram. Morreu logo depois. Chamava-se Nuno Bastos.

Leônor reconheceu o nome. Nuno fora colega de ginásio, o melhor da turma, quase campeão nacional. Era ele que lhe passava a mão nas costas, que lhe dizia que era linda, que a amava mentia, e ela queria acreditar. Ele morreu. Leônor ficou viva.

E não era pedra só aprendera a não respirar fundo, a não se permitir sentir.

Mas, agora, tudo ia mudar. Tinha Catarina, tinha Zina, tinha Elisa ingénua, mas genuína. Tinha o trabalho, as tarefas, a primavera, as miosótis que precisava mesmo de plantar. Tinha preocupações, um neto a caminho. Viu-o na ecografia.

Não esperes nada dele, Elisa. Diz-lhe sempre que gostas dele, seja como for. Eu nunca disse, fui parca em afetos, agora arrependo-me. Mulher que não ama acaba em pedra.

Elisa assentiu. Leônor não era feita de granito, era só muito, muito sensível. Grande, imponente, mas tremendamente vulnerável Leônor Dias, nascida para enfrentar o mundo e, no fundo, cheia de vontade de o abraçar.

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