Querido diário,
Ainda mal acredito até onde chegou a ousadia da minha vizinha. A Dona Graça, aquela do lado, passava as noites a furtar o meu estrume sim, sacos cheios, às escuras! Ontem, decidi dar-lhe uma lição; enchi a pilha com fermento de padeiro.
Foste outra vez à minha pilha com os baldes, foste? disse-lhe, nem perguntei, apenas afirmei o óbvio.
A Graça, encostada à enxada no meio do seu quintal, nem pestanejou. Olhou para mim como se a estivesse a julgar sem razão.
Oh Matilde, não comeces! Tens lá daquela maravilha uma serra inteira! Não és capaz de dar um pouco à vizinha, à amiga de infância?
Isso não é maravilha, Graça. Foi cento e cinquenta euros por camioneta, fora a deslocação, indiquei a pilha encolhida junto ao muro. E é minha propriedade.
Ai, fica lá com isso! suspirou, revirando os olhos. Que importa um ou dois baldes? São só para os pepinos, mulher! Vê lá que a minha reforma mal dá para as contas, quanto mais para gastar em camionetas como alguns.
Ela era perita em fazer-se de vítima: se não eram os políticos, era o tempo, a inveja dos outros ou, claro, eu, por ter tomates maduros antes dos dela.
Voltei para dentro, fervendo de raiva. Não me pesava o resto do monte nem o dinheiro o que me irritava era a audácia e a forma como ela me fazia sentir tola.
De noite, como sempre por volta das duas, ouvia aquele roçagar: não era um balde era mesmo Graça, cheia de garra, a encher sacos pretos com estrume como se esperasse um cerco medieval.
O Gonçalo, meu marido, estava na cozinha, a mastigar uma torrada e a fazer palavras cruzadas.
Voltou ao ataque? perguntou sem tirar os olhos do jornal.
Voltou. E ainda me chamou de forreta.
Então põe-lhe uma ratoeira.
E depois explico à polícia porque é que a vizinha ficou sem pé? Não, isto precisa é de jeito, não de força.
Fui à janela, olhei para a estufa reluzente dela. Adorava gabar-se das suas sementes raras e da mão leve leve era de certeza, sobretudo para tirar do monte alheio.
Nessa noite mal dormi. Os cães ladravam ao longe, ouviam-se grilos e depois o tal roçagar matreiro. A enxada a perfurar o monte que tanto tratei, cobri, protegi e ela vinha tirar, como se fosse dela.
Na manhã seguinte fui ao quintal. Graça já andava de roda dos canteiros.
Bom dia, Matilde! trauteou ela. Os teus courgettes estão amarelos, estão doentes?
O sorriso rasgado dela quase brilhava dava para ver nas pisaduras do solo que, naquela noite, levou pelo menos três sacos.
Bom dia, Graça. Mas não contes com sorte para sempre.
Fui ao barracão. O olhar caiu na prateleira dos adubos: sementes, fertilizantes e um grande pacote amarelo de fermento seco para morangos. Fez-se luz.
Graça metia as pilhagens em sacos de obra, apertava-os bem e deixava tudo na estufa ali, com calor e humidade, o fermento faz maravilhas. Numa noite morna, preparei uma mistura: água quente, o açúcar que restava, todo o fermento. Cheirava a aguardente, borbulhante de promessas.
Pelas nove, quando tudo estava escuro e a Graça ainda não tinha ido ao saque, dei a volta pela lateral. Sabia bem por onde ela entrava, junto à rede. E foi nesse sítio que virei o balde de fermento, misturando na superfície. Se gosta de mexer no que é dos outros, ao menos que leve um bónus do fundo do coração.
Lavei bem as mãos e fui para a cama, com a sensação de justiça feita.
Porque sorris assim? murmurou o Gonçalo.
Porque vou dormir à grande disse, aconchegando-me.
A noite passou sem mais ruídos suspeitos. Ou talvez ela tenha ido empreitar mais devagar.
O amanhecer, porém, não foi de paz. Nem de café. Mal os pássaros começaram a chilrear, um berro assustador rebentou o silêncio rural.
Eu e o Gonçalo saltámos da cama. Ele, só de boxers, correu à janela.
O que aconteceu?!
Vesti o roupão e ao abrir a porta, o cheiro ácido do ar invadiu-me as narinas. A Graça estava ao pé da sua nova estufa de policarbonato, com as portas escancaradas.
Parecia saída de um filme cómico: coberta de manchas castanhas às manchas, como se alguém tivesse usado o balde de tinta. Aproximei-me do muro, disfarçando a surpresa.
Graça, o que foi isso? Rebentou-te o cano de esgoto?
Ela virou-se com o terror e metade da mistura estampada no rosto.
Aquilo aquilo explodiu! sussurrou rouca. Matilde aquilo mexe!
Olhei por cima da rede. A devastação era total: onde antes estavam alinhados os sacos furtados, agora só havia estrume espalhado em todas as direcções.
Com o calor e a humidade daquela estufa, o fermento reagiu com o estrume, enchendo os sacos de gás. Inchados como balões, rebentaram com estrondo, atirando o conteúdo até ao tecto e paredes. As belas fileiras de pimentos dela ficaram irreconhecíveis. E no meio do caos, lá estava a Graça, a estrela daquele espectáculo.
Então o que é que te reventou, vizinha? perguntei seca.
Os sacos! Entrei para ver e um fez bum! O outro logo a seguir! Matilde, o que é que puseste ali?!
Eu? Só o que a vaca produziu. Meu no meu quintal. Se foi parar aí, já não sei como
Graça congelou, calculando nos silêncios: admitir que era meu era assumir furto; dizer que era dela, assumir a asneira. E ficou ali, no meio do monte literal e metafórico.
Isto foi sabotagem! disparou. Quiseste envenenar-me!
Com fertilizante natural? Ou será que a tua estufa é que anda com más energias? Ou foi olho gordo? Sempre disseste que tinhas mão leve, não foi?
O Gonçalo nem se conteve: tossiu uma gargalhada e voltou para dentro. Graça pegou na mangueira, esfregando-se como se pudesse limpar o cheiro de derrota.
A aldeia logo inventava explicações: uns falavam em explosões ilegais, outros em meteoros. Ela, calada, esfregou a estufa o dia todo. Teve de tirar as mudas e trocar a camada de cima da terra; fertilização a mais, até para quem dizia ter mão milagrosa.
Nem apareceu para o chá do costume ao fim da tarde.
Uma semana depois, chegou uma nova carga de estrume. Nessa noite, acordei no silêncio: nenhum passo furtivo, não houve lopes nem plástico a mexer.
Saí ao quintal a lua iluminava a pilha, intacta.
No dia seguinte, Graça passou de nariz no ar, sem palavra. Agora compra adubo embalado no supermercado e paga do bolso dela.
Bom dia, vizinha! chamei. E os pimentos? Vão bem?
Ela parou, olhou-me. Dava para sentir o medo dela de novos efeitos especiais, mas arrependida é que não parecia.
Vão, vão. Agora desenrasco-me sozinha, não preciso das tuas esmolas.
Ótimo. Se quiseres, já sabes a receita
Ela cuspiu para o chão e foi a correr para casa. Preparei-me um chá preto forte e fiquei ali, serena. Sem mágoa nem triunfo. Cada qual no seu sítio. O meu ficou meu ninguém mais lhe pôs a mão.
Aprendi: fronteiras não são feitos de muros altos, mas de recados bem dados. Não se mexe no que é dos outros, sem pensar nas consequências.
E fermento seco? Esse nunca mais me faltou cá em casa. Nunca se sabe quando outro besouro quer pôr à prova a minha generosidade e há diálogos que só se travam assim.







