Ó Maria, deixa lá isso, vizinha, custa-te dar-me uns pepinos? Olha que eles a ti hão de crescer tanto que depois já nem prestam, amarelam todos, e olha que vieram cá os meus netos, precisam de vitaminas. Não sejas forreta, pá, somos vizinhas do lado, vivemos com um muro de nada entre nós!
A Maria Emília esticou-se toda por cima do muro baixo de rede que separava o nosso quintal do dela, com aquele sorriso fingido, açucarado, a revelar dentes miúdos. Trazia numa mão uma taça esmaltada, já com morangos que nunca plantou, e com a outra mão ia-lhe ao pé de um grosso de groselhas do nosso lado, sem cerimónia.
Eu, Leonor, ainda ajoelhada e toda dorida no canteiro das cenouras, andava à luta com umas ervas teimosas. Endireitei-me, senti logo a coluna protestar, limpei o suor em cima da camisola com a mão cheia de terra preta, e olhei para a Maria Emília como quem vê filme repetido. Aquela do somos de casa ouvira-a tantas vezes, desde que eu e o Manel tínhamos comprado aquele pedaço de terra e o tínhamos transformado do matagal desgraçado que era numa horta a brilhar, de dar gosto ver.
Ó Maria Emília disse-lhe eu, calma mas firme , então, também tens morangos plantados. Já vi. Porque não apanhas os teus?
Eh pá, que morangos! respondeu-me logo ela, sem se rir nem pestanejar , minúsculos, ácidos, e a bicharada toda a comer. Eu nunca fui dessas coisas de adubos nem dessas mistelas de engenhocas. O que nasce, nasceu natural. Agora, os teus, vê lá tu, parecem tomates, isto sim, são morangos a sério! Olha que até é pecado estragarem-se aí. Vocês são só dois, Leonor e Manel. Para quê tanta fartura? Nem vão conseguir dar conta do recado!
Respirei fundo. Ela tinha sempre desculpa para tudo, e a lógica dela era dura como cimento: quem tem, tem que dividir, nem que o outro não mexa uma palha porque lhe apetece passar o verão na rede de descanso, a tostar sardinhas e a ouvir o rádio popular à bruta.
Aquilo ali ao lado nem parecia quintal: macieiras aos caídos, cheias de musgo, canteiros onde só se via dente-de-leão e a enxada parecia só sair do canto nos santos populares. Mas a Maria Emília vinha arejar a alma, dizia ela: dormir sestas no alpendre, ouvir música, fazer assados na brasa e pouco mais.
Eu, pelo contrário, sempre amei mexer na terra. Conhecia todas as plantas, comprava sementes especiais pela internet, levantava-me às cinco da manhã para abrir as estufas, ia dormir só quando acabava o último regador. Cada tomate ali era suor meu, dores nas costas e noites mal dormidas quando lá pela Páscoa vinham as geadas.
Maria Emília, deixa aí a taça. Esses morangos é para fazer doce, eu conto cada bago, percebes?
Pronto, lá vais tu ela, já com ar de telenovela , és mesmo forreta. Vá, eu só tirei um bocadinho, é pros netos, não me vais tirar do prato das crianças, pois não?
Antes que eu me aproximasse, meteu um morango enorme na boca, toda vaidosa, e lá foi a rebolar para o lado dela, cheia do seu botim.
Fiquei ali de pé, no meio dos meus canteiros, a sentir a paciência escapar-me por entre os dedos. O Manel, que vinha do barracão com a plaina na mão, reparou e, como sempre, preferiu não se meter não era homem para chatices de mulheres.
Outra vez a Maria Emília a pastar nos teus canteiros? perguntou-me.
Sempre, é como uma cabra a dar uso ao terreno alheio respondi. Já é descaramento. No fim de semana passado foi das courgettes, levou um monte delas enquanto fomos às compras e disse, Pensei que vocês já não as queriam, estavam a engrossar. Agora são os morangos na maior das calmas.
Então mete ali um muro alto, daqueles de chapa sugeriu o Manel. Assim ninguém mais entra.
Não dá, Manel. No regulamento da associação não se pode pôr murão tapado, tem de ser rede ou no máximo umas ripas, para não fazer sombra ao terreno vizinho. E além do mais, dinheiro para muro agora não há, gastámos no estufim novo.
Cada semana que passava era pior. Julho veio quente, o que era bom para a horta. Tomates a amadurecerem em cachos, pepinos a rebentar de verdes, pimentos bonitos, fartos. E cada vez que produzia mais, mais vezes vinha a Maria Emília ao muro com os olhos gulosos.
Num sábado daqueles, ela recebeu uma carrada de visitas. Gente a dar à música, cerveja no gelo, dez a falar alto. Ao fim da tarde, eu regava as flores, e lá aparece a Maria Emília, já com voz mole.
Ó Leonor! Olha, dá aí um jeitinho, vizinha. Acabou-nos a salada, dá cá uns tomates dos teus, daqueles de bife, e um pouco daquele cheirinho (que ela queria era salsa). Não me vais pôr toda esta gente a ir à vila só por umas cebolas!
Endireitei-me, mangueira na mão.
Maria Emília, nem todos os tomates ainda estão prontos, e os poucos que estão é para levar amanhã para a minha filha à cidade.
Aposto que tens aí tomates para dar e vender! Ela até se encostou ao muro, aquela bafo de álcool . Não fiques a chorar. Oferece a boa gente, eu depois compro-te um chocolate!
Não disse eu. Não há.
Ela torceu o nariz, ficou amarga de repente.
Fica tu com os teus tomates, que estou-me nas tintas. Vocês querem tudo para vocês, parecem avarentos. Nunca dão nada a ninguém, até parecem lisboetas…
E durante a noite só se ouvia do lado dela o galhofa, piadas e bocas amarelas: lá vêm os ricos do campo, um euro entrava na garganta deles, quem precisa dos legumes dela cheios de químicos. Doeu-me, claro. Fui para dentro, fechei as janelas, liguei a televisão alta.
De manhã, saí para o quintal e parei. A porta da minha estufa nova de policarbonato estava entreaberta. Gelou-me logo o corpo. Fui a correr aos tomates.
Pois: dos maiores, em baixo, os cachos arrancados à bruta. Ramos partidos, tomate verde no chão, alguns esborrachados. Pepinos também tinham sumido. E na salsa, um buraco. Nem as raízes deixaram.
Fiquei estática. Não era só roubo. Era desprezo por mim, pelo meu trabalho, pelo meu tempo.
Manel! chamei, já com a voz trémula.
Ele veio logo, viu tristeza à vista desarmada.
Isto já é roubo, Leonor. Deviam fazer queixa.
Fazer queixa a quem, se nem temos câmaras? Ela diz logo que não foi, ou que fomos nós atrás dela. Tu conheces a Maria Emília, se for preciso, passa por cima de qualquer um.
Olhei para o lado dela. Tudo sossegado, os convidados ainda a dormir. No alpendre, uma taça solitária de salada, e bastava um olhar para notar as fatias gordinhas dos meus tomates e as folhinhas recortadas da minha salsa.
Pois bem disse eu, com a voz a já soar fria. Chega. Já tentei tudo em bem. Agora vai a mal, mas em esperto.
Vais fazer o quê? Olha que não quero problemas, Leonor. Não quero andar metido em tribunais por causa de uns tomates.
É só um truque de psicologia, Manel. E um bocadinho de química.
O plano não demorou. Fui à cidade, comprei um fato amarelo com capuz, um respirador, óculos e luvas. Trouxe também um pulverizador de jardim, corante alimentar azul e o sabonete líquido mais malcheiroso do supermercado.
À noite, quando a Maria Emília e a sua companhia rastejavam pelo quintal, eu e o Manel começámos o teatro: ele com uma chuvona de perfume de sabão, eu a mexer num balde onde misturei água, corante azul e meio frasco daquele sabonete que cheira a remédios de animais. Dei espectáculo: a deitar aquela mistela azul pelas tomatadas, pimentos e pela couve. Ficou tudo com um ar de filme de terror azul, peganhento, e o cheiro a atravessar o muro. Quem olhasse, dizia que aquilo tinha sido varrido por uma praga de outro mundo.
A Maria Emília chega-se ao muro, nariz franzido:
Ó Leonor, o que é que tu fazes aí? Está aí com um cheiro horrível, que raio?
Descobri uma praga nova, Maria Emília, diz que faz perder tudo num dia gritei, a fazer-me ouvir pelo que restava do churrasco dela. Trouxe um produto experimental forte. Diz no aviso: quem mexer antes de 21 dias pode apanhar uma intoxicação brava, até internação à mistura. Mas tem de ser, quero salvar o que posso. Daqui a três semanas, já se pode comer.
Isso faz mal à pele? perguntou ela pálida, agarrada à barriga.
Tocas? Lava bem as mãos logo a seguir. Se calha o sumo nos olhos, ui… nem quero imaginar!
Continuei a desinfectar o quintal, cada vez mais drama. Ela ficou ali uns minutos a digerir o que eu disse e foi-se embora, direita para casa.
Malta! Não toquem na salada que trouxemos daqui! Tem sabor amargo, nem presta, atirem para o lixo. Não disseram que pode fazer mal? ainda ouvi.
Sorri debaixo da máscara. O plano estava a resultar.
A semana seguinte foi silêncio. A Maria Emília nem ao muro chegava; olhava de longe, de lado, para os meus tomates azuis (que nem a chuva tirava). Quando os netos dela tentavam espreitar, ela gritava:
Não se aproximem! Aquilo é veneno! Nem respirem para aqueles lados!
Eu e o Manel, tranquilos; ao fim do dia, passávamos uma mangueira escondidos nos pepinos, para tirar o corante, e depois marchavam ao jantar. Os tomates, esses, continuaram com aquela cor surreal perto do cabinho, ainda eram azulados um susto para toda a passarada.
A Maria Emília, matreira, passados uns dias já desconfiava:
Leonor, então agora comes pepinos? Não eram venenosos durante três semanas?
Estes são do supermercado, Maria Emília. Os meus esperam, não sou doida. Só como depois do tempo certo. Estes são de estufa, espanhóis, sabem a pouco, mas que remédio. Não vou arriscar!
Ela franziu a testa e foi-se, a resmungar de químicos e ecologia poluída, mas não voltou a meter-se perto dos canteiros.
Em agosto, já lá iam as três semanas, a cor do corante saiu com as chuvas, só se via um ligeiro azul claro no caule. Ela achou que era seguro. Ou a gula foi mais forte que o medo.
Fui passar dois dias à cidade, antes, fechei bem a porta do quintal com cadeado e prendi na rede do lado da Maria Emília uma placa plastificada, impressa em computador:
“Atenção! Videovigilância ativa. Terreno tratado com agroquímicos experimentais. Colheita sem neutralização pode dar problemas graves ao estômago. Direção informada. Em caso de entrada, chama-se logo PSP.
O das câmaras era treta, claro. Mas as ameaças soavam a sério.
Quando regressei, vi um espetáculo: Maria Emília, toda vermelha, a zangar-se com o senhor Armando, o presidente da direção da associação.
Veja lá bem, aquilo que ela anda a fazer! gritava ela a apontar ao meu letreiro , mete venenos, quer-nos matar a todos! Até ao meu neto ficou com dores de barriga por causa dela! Demita-a disso, obrigue-a a tirar aquilo!
O Armando limpou os óculos, aliviado quando viu que eu cheguei.
Leonor, bom dia. A dona Maria Emília tem aqui umas queixas sobre químicos e câmaras…
Não tenho químicos ilegais nenhuns, senhor Armando. Aquilo é uma placa preventiva, para assustar os larápios. Já foram demasiadas colheitas ao ar, percebe? E quanto ao neto, se não tivessem andado todas as tardes a tomar dos meus legumes sem pedir, nada disto acontecia.
Eu?! Nunca fui ao teu quintal! Prova! Não há provas, não há crime!
Tenho vídeo, Maria Emília menti, a olhá-la nos olhos. Antes de ir de viagem, mudei as câmaras falsas por verdadeiras, com sensor de movimento. Queres que o senhor Armando veja connosco, agora mesmo, as filmagens? Ou preferes que eu vá à GNR apresentar queixa?
Funcionou na hora. O medo de vergonha e de multa falou mais alto do que a lata. Ficou vermelha e atirou:
Não quero nada dos teus químicos, faz bom proveito dos tomates, eu vou plantar os meus!
Foi a correr para casa, bateu a porta que até estremeceu. O Armando riu-se:
Leonor, aquilo é mesmo forte?
Só sabão e corante alimentar, senhor Armando. Contra pulgões e… vizinhos chatos é milagroso.
Pode deixar a placa, serve para afastar os curiosos.
A partir daí, foi guerra fria. Maria Emília já nem bom dia me dava, virava a cara, andava a avisar toda a aldeia que eu era bruxa, envenenadora e tudo e mais alguma coisa. Eu não me importava. Ao menos a minha colheita nunca mais foi mexida.
O mais engraçado foi na primavera seguinte. Cheguei e o quintal da Maria Emília era um pandemónio: ela de enxada na mão, a suar, a tentar escavar, aos bocados e torto, com caixotes de plantas todas raquíticas ao lado. Mas estava ali, a esforçar-se.
Cheguei ao muro e ela, vendo-me, meteu logo a pá de frente, tipo lança.
Que queres? Já vens ver o espetáculo?
Deus te ajude, Maria Emília disse eu, sem qualquer ironia. Cava pouco, senão bates em barro. Um pouco de areia ajudava aí.
Eu cá sei! Não preciso de lições. Vou conseguir tudo sozinha. Nada dessas modernices tuas!
Assim é que é, Maria Emília. O que é nosso, sabe sempre melhor.
No verão, vi-a orgulhosa a mostrar os primeiros pepinos cheios de formas estranhas e uns tomates minúsculos aos netos. E nunca mais veio ao meu muro. Confirma-se: quem sua por cada baga, não a vai roubar aos outros.
Um dia, vi-a a enxotar uns putos do bairro que tinham deixado a bola nas hortas:
Saiam já daqui! Isto não é campo de futebol! Aqui há trabalho, tem de se respeitar o esforço dos outros! gritava ela.
Olhei para o Manel, que estava a acender o grelhador, e sorrimos. Vês? Mais vale trabalho do que muro. Quando se aprende a suar, aprende-se também a respeitar.
No fim dessa época, na altura de fechar tudo para o inverno, chegou-se ao muro ela! com um frasco de pickles caseiros, de pepinos de tamanhos vários.
Toma lá murmurou, dando-me o frasco por cima da rede . São destes meus. Receita de revista, faz favor de provar.
Peguei nos pickles como se fosse ouro fino.
Obrigada, Maria Emília. Claro que vamos provar. E se quiseres, arranjo-te sementes das boas pro ano, daqueles tomates carnudos, Coração de Boi. Mas tens de semear cedo, eu ensino.
Vá, está bem. Se não te fizer falta…
Quem trabalha, merece tudo, Maria Emília.
Ficámos uns segundos, caladas, a ver a horta a entrar no outono. A placa do veneno já tinha ido à vida, lavada pela chuva, mas a fronteira do respeito ficou. E isso, mais do que qualquer muro de ferro, vale ouro.
Nesse ano, bati recorde de conservas de tomate. E, acredita, não se estragou nem um.
Se gostaste da história, diz aí como é que tu domas vizinhos chatos nas hortas. E se quiseres mais, deixa o teu gosto.







